Em meio às negociações para a reforma ministerial, a bancada do PSD tem se mobilizado para contornar o mal-estar causado pelas declarações do presidente do partido, Gilberto Kassab. O dirigente afirmou recentemente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentará dificuldades para vencer as eleições de 2026, o que gerou desconforto no Palácio do Planalto. Apesar de Lula ter enfatizado que a relação do governo com o PSD é “forte”, integrantes da legenda perceberam sinais de indisposição do presidente diante da polêmica.

Após a repercussão negativa, Kassab amenizou suas falas e declarou que o cenário eleitoral pode mudar. Enquanto isso, parlamentares do PSD iniciaram um movimento para apaziguar a crise. O partido emergiu das eleições municipais como uma força política expressiva, com a maior bancada do Senado e uma presença relevante na Câmara. O governo, por sua vez, buscou entender as motivações por trás das declarações de Kassab.

A fala do presidente do PSD foi um dos temas discutidos em um jantar que reuniu o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e seu antecessor, Rodrigo Pacheco (MG), que pertence ao mesmo partido de Kassab. Durante o encontro, Pacheco expressou estranhamento com as críticas do dirigente, especialmente no que se referia à atuação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que foi classificado como “fraco” e sem respaldo político para implementar sua agenda econômica.

Outro interlocutor do PSD que abordou o tema com Kassab foi o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Durante sua passagem por Brasília, o presidente da sigla também foi questionado sobre suas declarações em um jantar promovido pela bancada do PSD da Câmara em homenagem ao presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB). Diante da repercussão, Kassab justificou-se dizendo que não pretendia enviar um recado ao governo, mas apenas fazer uma “análise fria” da conjuntura política.

Apesar do episódio, a insatisfação do PSD com o governo antecede as declarações de Kassab. Parlamentares da legenda reivindicam mudanças na distribuição dos ministérios, como a transferência de André de Paula do Ministério da Pesca para o do Turismo. Além disso, há um receio de que o partido perca o comando da pasta da Agricultura na reforma ministerial. Para alguns integrantes, as falas de Kassab refletem essa insatisfação e servem como uma forma de pressionar o Planalto.

No âmbito da Câmara, há a percepção de que o governo tem “enrolado” o partido ao adiar indefinidamente uma reunião para tratar da participação do PSD nos ministérios. Há também quem avalie que Kassab, ao criticar o governo e Haddad, busca um alinhamento estratégico com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que derrotou Haddad nas eleições de 2022.

Mesmo em meio ao atrito, Rodrigo Pacheco continua sendo cotado para integrar a Esplanada dos Ministérios. Ele tem mantido uma relação cordial com Lula e trocado elogios públicos com o presidente. Tanto Pacheco quanto Alcolumbre têm demonstrado apoio a Haddad, buscando reforçar sua posição dentro do governo.

Em um gesto para acalmar os ânimos, Lula declarou, durante entrevistas a rádios de Minas Gerais, que Alexandre Silveira permanecerá à frente do Ministério de Minas e Energia. O ministro tem sido alvo de pressões nos bastidores, especialmente por parte de Alcolumbre, que articula sua substituição.

O presidente Lula também indicou que pretende aguardar o retorno de Rodrigo Pacheco de suas férias, no final do mês, para agendar uma reunião com os ministros do PSD e Kassab. O objetivo do encontro seria alinhar a relação entre o partido e o governo e resolver as insatisfações levantadas pela bancada.

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, que mantém uma relação próxima com Kassab, minimizou o impacto das declarações do presidente do PSD. Segundo Hoffmann, o assunto já foi superado quando Lula respondeu publicamente ao dirigente. Na ocasião, o presidente afirmou que as eleições ainda estão distantes e disse ter encarado as críticas com bom humor. “O presidente respondeu à altura”, resumiu Hoffmann.

Enquanto isso, a bancada do PSD no Senado tem atuado para reduzir as tensões. O líder do partido na Casa, Omar Aziz (AM), e o senador Otto Alencar (BA), que deve assumir a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), reforçaram que a sigla continua apoiando o governo e Haddad. Aziz discordou da avaliação negativa feita por Kassab sobre o ministro da Fazenda e destacou os avanços econômicos sob sua gestão. “O Kassab fez uma crítica pontual. Respeito o presidente Kassab, mas o partido no Norte e Nordeste tem dado um apoio sólido ao governo”, disse Aziz. “Haddad teve seis ou sete matérias econômicas importantes aprovadas no Congresso”, acrescentou.

Já Otto Alencar ressaltou que Haddad tem sido bem-sucedido no Congresso e minimizou os impactos da fala de Kassab. “O Kassab fala o que acha que deve falar. Isso não abala nossa estrutura no Senado. Haddad conseguiu aprovar todas as pautas que apresentou, ele foi vitorioso”, argumentou Alencar.

Diante desse cenário, a bancada do PSD segue tentando equilibrar sua posição entre o apoio ao governo e as demandas internas do partido. A reforma ministerial segue como ponto central dessa disputa, e a condução política de Lula nos próximos dias será determinante para definir o futuro da relação com a legenda. A expectativa agora está voltada para a reunião que o presidente pretende realizar com os líderes do PSD, na tentativa de garantir a governabilidade e evitar novos desgastes políticos.

 

Foto: Divulgação PSD