A qualidade da água dos rios da Mata Atlântica permanece em níveis preocupantes e sem sinais consistentes de melhora, segundo novo relatório divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica nesta quinta-feira, dia 19. O estudo aponta que a maior parte dos cursos d’água do bioma continua sob pressão constante de poluição, refletindo falhas estruturais em saneamento e proteção ambiental.

Para a elaboração do relatório, foram realizadas 1.209 análises em 162 pontos de coleta distribuídos em 128 rios e corpos d’água ao longo de 2025. Os dados abrangem 86 municípios localizados em 14 estados, oferecendo um panorama abrangente da situação hídrica em uma das regiões mais populosas do país.

Os resultados mostram que apenas 5 pontos, o equivalente a 3,1%, apresentaram qualidade considerada boa. A maioria, com 127 pontos ou 78,4%, foi classificada como regular. Outros 25 pontos, correspondentes a 15,4%, foram enquadrados como ruins, enquanto 5 pontos, também 3,1%, atingiram a classificação de péssimos. Nenhum dos locais analisados alcançou nível de qualidade considerado ótimo.

De acordo com o coordenador da causa Água Limpa da fundação, Gustavo Veronesi, os dados evidenciam um cenário de estagnação que já se prolonga há anos. Segundo ele, a predominância da qualidade regular indica que os rios seguem submetidos a níveis contínuos de poluição, o que compromete seu uso e representa risco crescente para a população.

A entidade destaca que rios classificados como bons ou ótimos mantêm condições adequadas para abastecimento, produção de alimentos e preservação da vida aquática. Já aqueles com qualidade regular apresentam sinais de degradação que podem limitar o uso para consumo ou lazer. Nos casos classificados como ruins ou péssimos, a poluição atinge níveis críticos, com impactos diretos na biodiversidade e na saúde pública.

A comparação com dados do ciclo anterior reforça o quadro negativo. Entre os 115 pontos monitorados tanto em 2024 quanto em 2025, houve queda no número de locais com qualidade boa, que passou de 9 para 3. Os pontos classificados como regulares aumentaram de 89 para 91, enquanto os considerados ruins subiram de 15 para 16. Já os pontos na categoria péssima permaneceram em 5.

Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, o principal obstáculo para a melhoria da qualidade da água no país é a deficiência no saneamento básico. A entidade ressalta que cerca de metade da população brasileira ainda não tem acesso a serviços adequados de coleta e tratamento de esgoto, o que contribui diretamente para a contaminação dos rios.

O Novo Marco Legal do Saneamento Básico estabelece metas de universalização até 2033, com previsão de atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. No entanto, especialistas alertam que o ritmo atual de avanço está aquém do necessário para cumprir esses objetivos.

A diretora de políticas públicas da fundação, Malu Ribeiro, afirma que o cenário também reflete escolhas políticas que fragilizam a proteção ambiental. Segundo ela, iniciativas que flexibilizam regras do Código Florestal, da Lei da Mata Atlântica e do licenciamento ambiental aumentam a vulnerabilidade dos ecossistemas e impactam diretamente a qualidade da água.

A degradação das matas ciliares é apontada como um dos fatores críticos, pois reduz a capacidade dos rios de reter sedimentos, filtrar poluentes e regular o fluxo hídrico. Além disso, eventos climáticos extremos, como estiagens prolongadas e chuvas intensas, têm agravado a situação ao alterar o funcionamento das bacias hidrográficas.

Essas mudanças contribuem para o aumento do transporte de sedimentos e a diminuição da capacidade de diluição de poluentes, ampliando os impactos sobre os cursos d’água. Para especialistas, esse conjunto de fatores evidencia a necessidade de políticas integradas que considerem tanto a preservação ambiental quanto a gestão eficiente dos recursos hídricos.

Malu Ribeiro também critica a visão de que a natureza é um obstáculo ao desenvolvimento. Segundo ela, a preservação ambiental deve ser entendida como elemento central para garantir segurança hídrica e qualidade de vida. A especialista ressalta que a privatização de serviços de saneamento, por si só, não resolve o problema, sendo necessária a combinação de planejamento de longo prazo, fiscalização efetiva e políticas públicas consistentes.

O relatório conclui que, sem mudanças estruturais e avanço efetivo nas políticas de saneamento e proteção ambiental, o Brasil continuará enfrentando um cenário de degradação dos seus rios, com consequências diretas para a saúde da população e para o equilíbrio dos ecossistemas.


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