Andar pelas ruas do centro histórico do Recife é testemunhar um contraste que hoje se tornou símbolo da transformação econômica da capital pernambucana: casarões erguidos no século 17, preservados por sua força arquitetônica e memória cultural, agora abrigam salas climatizadas com mobiliário moderno, equipamentos de última geração e equipes inteiras dedicadas ao desenvolvimento de algoritmos de logística, projetos de segurança da informação, criação de games, pesquisa de softwares e aplicações voltadas à inteligência artificial. O que há duas décadas era um centro comercial em decadência ganhou novo propósito ao se tornar sede de um dos mais importantes polos tecnológicos do país, o Porto Digital. Ali estão reunidas 475 empresas de tecnologia que empregam mais de 21 mil profissionais, formando uma cadeia que vai de pequenas startups a gigantes internacionais do setor, todas compartilhando o mesmo território, no coração do Recife Antigo. A dimensão desse avanço não está apenas nos números, mas também na capacidade de atrair, reter e desenvolver talentos que antes precisavam migrar para outros centros econômicos.

É neste ponto que a fala de Silvio Meira, professor emérito da UFPE, fundador do CESAR e um dos idealizadores do Porto Digital, sintetiza o impacto acumulado do projeto ao longo de 25 anos. Ao comentar o crescimento do hub tecnológico, ele afirma que “cinco dos dez maiores negócios de tecnologia de informação do mundo, do ponto de vista do volume de capital humano empregado, estão hoje no Porto Digital”. A presença de marcas com atuação global confirma a relevância do polo: Accenture, Deloitte, a japonesa NTT Data e a francesa Capgemini fazem parte do conjunto de multinacionais instaladas no quadrilátero do Porto Digital, uma área equivalente a 42 campos de futebol, estrategicamente localizada no centro da capital pernambucana. O espaço urbano foi ressignificado e se tornou referência no desenvolvimento de soluções digitais, atraindo empreendedores, pesquisadores, investidores e estudantes.

A trajetória do engenheiro elétrico Eduardo Peixoto ajuda a explicar o efeito dessa transformação sobre a dinâmica profissional da região. Ele relembra que, no final do século 20, o destino de quem buscava uma carreira tecnológica em Pernambuco não previa espaço para permanência. “Quando eu me formei não tinha nada. Então a fuga de talento era gigante. Eu mesmo cumpri o check list. Primeiro fui para São Paulo, depois Genebra”, relata. Assim como muitos de sua geração, Peixoto deixou o estado porque o ambiente tecnológico ainda era incipiente. Contudo, o início da materialização do Porto Digital mudou esse fluxo. Ele retornou a Recife em 2002, quando o projeto começava a sair do papel. Ao explicar as motivações de sua escolha, afirma: “o objetivo era criar essa economia para reter e trazer de volta a galera que tinha fugido daqui, vazando para São Paulo, para China, Nova York, para onde quiser. Se tinha uma chance de dar certo eu tinha que ajudar”. Desde 2022, Peixoto ocupa a presidência do CESAR, sucedendo parte do trabalho iniciado por Meira.

Com o avanço do hub tecnológico, a articulação entre formação universitária, empresas e projetos de inovação ampliou as oportunidades para novos profissionais. Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, destaca que “hoje já tem mais de 100 projetos de inovação, educação que a gente toca aqui”, observação feita enquanto ele circulava pelas ruas do centro histórico durante os preparativos do Rec’N’Play, festival de tecnologia organizado pelo Porto Digital e que encerra neste sábado (18). Segundo Lucena, “a gente tem aqui 4,5 mil alunos em três universidades. São cursos mais rápidos, com uma residência nas empresas, onde os alunos podem já se aproximar das demandas de mercado”. O dirigente ressalta ainda que, em 2024, somente na cidade foram formadas 1,4 mil pessoas na área de tecnologia, comparando o dado com São Paulo: “para você ter uma ideia do que isso significa na tecnologia, São Paulo forma 2 mil”.

Silvio Meira complementa esse diagnóstico ao afirmar que “cada uma dessas grandes empresas que chegam é também um grande formador de capital humano, uma grande escola”. Segundo ele, “uma empresa quando chega ela traz métodos, traz processos, traz métricas, traz técnicas, traz plataformas”. Esse movimento cria, afirma o professor, “um ciclo virtuoso de aprendizado que leva a uma construção coletiva de conhecimento que beneficia não só as pessoas mas também as empresas”.

Apesar dos resultados positivos, existe debate sobre a política de incentivos fiscais concedida às empresas instaladas no Porto Digital. Peixoto argumenta que ajustes poderiam fortalecer ainda mais o sistema, defendendo maior reinvestimento em capital humano. Para operar no quadrilátero tecnológico, as empresas pagam alíquota reduzida de ISS: a prefeitura abre mão de 60% do imposto e, em vez de 5%, recolhe 2%. Peixoto questiona: “eles vêm e pegam os talentos que já tem aqui. Por que não tem uma pequena contrapartida? Pega um pedacinho, 0,5%, desse negócio e reinveste em educação?”. Ele defende que a medida serviria para garantir o fluxo contínuo de novos profissionais. “Quase todo incentivo público para inovação, ele tem uma contrapartida. Então, eu acho que é isso que falta nessa política pública”.

Em 2024, o faturamento das empresas embarcadas – termo usado no próprio Porto Digital para designar as companhias instaladas no polo – alcançou R$ 6,2 bilhões. Mesmo com renúncia fiscal, o complexo tecnológico representa hoje a terceira maior fonte de receita do município do Recife. A prefeitura, porém, não divulga o valor exato dessa renúncia. Paralelamente, o festival Rec’N’Play reforça a conexão entre inovação, educação, cultura e desenvolvimento urbano. O evento teve início na quarta-feira (15) e ocupa 83 espaços distribuídos em 30 prédios, além de sete palcos e 37 estandes — chamados de ativações. São mais de 700 atividades gratuitas, com previsão de público superior a 90 mil pessoas, consolidando o Recife como referência nacional em tecnologia e inovação.

Foto: PC Pereira/Divulgação


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