Após promover alterações no Ministério da Saúde e na articulação política, o governo federal se prepara para novas mudanças no primeiro escalão. Segundo aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as próximas trocas devem ocorrer na Secretaria-Geral da Presidência, no Ministério das Mulheres e no Ministério da Pesca. A reforma ministerial busca atender às demandas de partidos aliados, em especial do PSD, que pressiona por maior espaço no governo.
A recente nomeação da deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR) para a Secretaria de Relações Institucionais, substituindo Alexandre Padilha, que assumiu o Ministério da Saúde no lugar de Nísia Trindade, alterou o cenário de possíveis mudanças. Gleisi era cogitada para a Secretaria-Geral da Presidência, o que pode impactar diretamente na permanência de Márcio Macêdo no cargo. O ministério, que tem assento no Palácio do Planalto, é responsável pela interlocução com movimentos sociais e tem histórico de protagonismo nos governos petistas.
Interlocutores do governo afirmam que Lula deve definir nos próximos dias o substituto de Macêdo, cuja saída já era esperada há cerca de um mês. Entre os cotados para a vaga, está o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), que deixou a Secretaria de Comunicação Social (Secom) em janeiro. Outra possibilidade seria um convite ao deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), mas há resistência dentro do governo devido ao tamanho da legenda e ao fato de o PSOL já comandar o Ministério dos Povos Indígenas.
Apesar das especulações, Macêdo vinha demonstrando confiança em sua permanência no cargo. Nos bastidores, ele atribuía os rumores sobre sua saída a uma movimentação de aliados de Gleisi Hoffmann, interessados em garantir para a petista um posto no Palácio do Planalto. O ministro tem o respaldo de Lula, principalmente por sua atuação na organização das caravanas do ex-presidente antes de sua prisão, em 2018. Além disso, foi tesoureiro do PT e coordenou as finanças da campanha de 2022, cuja prestação de contas foi aprovada por unanimidade pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Mesmo diante do desgaste interno, Macêdo teve papel relevante na organização do G20 Social, em novembro de 2023, e está à frente dos preparativos para a participação da sociedade civil na COP30, marcada para novembro deste ano. Ainda assim, dentro do PT, há quem avalie que sua gestão na Secretaria-Geral tem sido pouco expressiva, em contraste com figuras como Luiz Dulci, que ocupou o cargo nos primeiros governos de Lula e se destacou na formulação de políticas públicas.
Outra substituição que ganha força no Planalto é a de Cida Gonçalves no comando do Ministério das Mulheres. A ministra enfrenta resistência dentro do governo, em razão de sua gestão considerada problemática. Recentemente, a Comissão de Ética da Presidência arquivou um processo que investigava uma suposta demissão de uma ex-secretária, que teria sido afastada sob a promessa de receber verba para apoiar sua candidatura. Além disso, Cida também foi alvo de acusações de racismo, mas as denúncias não avançaram.
Mesmo com o arquivamento dos casos, sua situação ficou ainda mais delicada após a divulgação de um áudio em que afirma interromper imediatamente sua agenda para atender às solicitações da primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja. Na gravação, a ministra diz que apenas Lula e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, têm o mesmo nível de prioridade. Ela também menciona sua habilidade em “enrolar” Márcio Macêdo e Alexandre Padilha, o que gerou desconforto no governo.
Caso a demissão de Cida seja confirmada, Lula estuda alternativas para substituí-la. Um dos nomes cotados é o da senadora Teresa Leitão (PT-PE). Se for nomeada, seu suplente, Silvio Costa, assumiria uma vaga no Senado. Costa é pai do ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho (Republicanos), e tem uma relação próxima com Lula. Outra possibilidade seria deslocar Luciana Santos (PCdoB) do Ministério da Ciência e Tecnologia para o Ministério das Mulheres, abrindo espaço para contemplar o PSD com a pasta da Ciência e Tecnologia.
A insatisfação do PSD com sua atual posição no governo é um dos fatores que impulsionam a reforma ministerial. O partido considera que o Ministério da Pesca, comandado por André de Paula, não corresponde ao seu tamanho e influência política. A legenda gostaria de assumir um ministério mais relevante, como o do Turismo, atualmente sob comando do União Brasil. Há, no entanto, um impasse: o PSD não vê afinidade com a área de Ciência e Tecnologia, pasta que poderia ficar disponível caso Luciana Santos seja remanejada.
Outro ponto indefinido na reforma ministerial é a entrada do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG) no governo. O senador mineiro tem sido cotado para assumir um cargo na Esplanada, mas ainda não manifestou disposição para concorrer ao governo de Minas Gerais em 2026, condição vista como fundamental para sua nomeação.
Além dessas mudanças, Lula avalia também a situação do Ministério do Desenvolvimento Agrário, atualmente comandado pelo petista Paulo Teixeira. O ministro enfrenta críticas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), apesar de ter apoio da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Caso uma substituição ocorra, Paulo Pimenta, que também é cogitado para a Secretaria-Geral, pode ser o escolhido para assumir a pasta.
As movimentações no primeiro escalão refletem a necessidade do governo de equilibrar a distribuição de cargos entre os aliados e reforçar sua base de apoio no Congresso. Com o PSD buscando maior protagonismo e outras siglas pressionando por espaço, Lula precisa definir a nova configuração ministerial sem comprometer alianças estratégicas. O desfecho da reforma ministerial pode ter impacto direto na governabilidade e na articulação política do governo nos próximos anos.
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

