A Comunidade Quilombola dos Arturos, situada em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, está prestes a vivenciar um momento de grande importância simbólica e cultural. A revalidação do reconhecimento dos Arturos como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais será apreciada ainda neste mês pelo Conselho Estadual do Patrimônio Cultural (Conep). O processo reforça o compromisso de Minas Gerais com a valorização da cultura negra e a preservação de seus bens imateriais.

O reconhecimento original foi concedido em maio de 2014, tornando os Arturos a primeira comunidade tradicional registrada na categoria de “lugares” como patrimônio imaterial do estado. Conforme estabelecido pela política de salvaguarda, o registro precisa ser reavaliado a cada dez anos para confirmar se o bem cultural permanece vivo e ativo, além de identificar mudanças ocorridas no período.

O relatório de reavaliação foi produzido em 2024 por meio de uma articulação entre a própria Comunidade dos Arturos, a Gerência de Patrimônio Cultural Imaterial do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) e a Diretoria de Memória e Patrimônio da Secretaria Municipal de Cultura de Contagem.

As ações que embasaram o relatório incluíram entrevistas com lideranças da comunidade, observação direta da Festa de Nossa Senhora do Rosário — principal celebração dos Arturos —, além da realização de um seminário para marcar os dez anos do reconhecimento oficial. “O registro de patrimônio nos dá alegria. Podemos fazer nossas festas e manifestações sem problema nenhum. O registro nos deu reconhecimento”, afirmou o Mestre José Bonifácio, uma das lideranças da comunidade.

Nos últimos anos, o Governo de Minas tem promovido diversas ações, por meio do Iepha-MG, voltadas à valorização da cultura afro-mineira. Exemplos disso são o reconhecimento dos sistemas culinários do milho e da mandioca — alimentos originários da cultura quilombola — e dos Congados e Reinados como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais.

Em novembro de 2023, no Dia da Consciência Negra, Aleijadinho — escultor negro, patrono das artes no Brasil e maior nome do barroco nas Américas — foi homenageado com um lugar na Sala dos Grandes Mineiros, no Palácio da Liberdade. Foi a primeira vez que uma personalidade negra recebeu essa honraria.

O presidente do Iepha-MG, João Paulo Martins, destacou que a reavaliação dos Arturos é resultado de um ciclo de políticas públicas. “Finalizamos o processo de estudos a serem submetidos ao Conep. Este é um momento importante de avaliação das ações de salvaguarda dos últimos dez anos. Em 2024, instituímos o comitê gestor para a proteção dos Arturos, um marco nas políticas públicas voltadas para esse bem cultural”, afirmou.

Na expectativa da revalidação, a Comunidade celebrou, entre os dias 9 e 11 de maio, o Dia da Abolição da Escravatura com a tradicional Festa da Abolição, tanto no território do quilombo quanto na Praça da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Contagem.

A programação incluiu novena, cortejos, desfile dos representantes dos escravizados, encenação teatral sobre a abolição da escravatura, Missa Conga com participação das Guardas de Congado e procissão em honra a santos de devoção afro-brasileira, como Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora Aparecida. Comunidades congadeiras de diversas regiões também participaram, reforçando os laços de memória e resistência.

Com mais de cem anos de história, a Comunidade Quilombola dos Arturos surgiu a partir da união de Arthur Camilo Silvério e Carmelinda Silva, descendentes de africanos escravizados que viviam nas regiões onde hoje se localizam os municípios de Contagem e Esmeraldas. Atualmente, cerca de 230 famílias integram a comunidade, que se destaca pela preservação e dinamização das tradições afro-mineiras, mantendo vivas manifestações culturais e religiosas que são parte fundamental do patrimônio brasileiro.

Foto: Iepha / Divulgação


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