Antes de embarcar para compromissos oficiais na China e na Rússia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encarregou o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, de pacificar sua relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). A tensão entre ambos, que se arrasta há meses, tem travado importantes articulações no Congresso, como a sabatina e aprovação de diretores de agências reguladoras. A missão, no entanto, fracassou.
Durante a viagem, esperava-se uma reaproximação, mas interlocutores confirmam que não houve sequer conversas reservadas entre os dois. Alcolumbre voltou ao Brasil tão determinado a derrubar Silveira do ministério quanto estava antes da partida. Segundo aliados do ministro, o presidente do Senado evitou encontros mais próximos e praticamente ignorou a presença de Silveira nas agendas internacionais.
Desde o início do ano, Alcolumbre tem pressionado Lula pela exoneração de Silveira. Durante um almoço em abril com lideranças do União Brasil, segundo a “Folha de São Paulo”, o senador chamou o ministro de corrupto e declarou que não descansará enquanto ele não for afastado. A animosidade cresceu, embora ambos já tenham sido aliados, junto ao então presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD-MG), quando apadrinharam a nomeação de Silveira.
A ruptura, contudo, veio após acusações de que o ministro teria rompido acordos políticos sobre a divisão de poder no setor elétrico. A disputa foi alimentada por interesses divergentes no mercado de energia, particularmente entre o empresário Carlos Suarez, apelidado de “rei do gás”, e a Âmbar Energia, empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista. A venda de térmicas da Eletrobras para a Âmbar, sem consulta à Cigás — estatal controlada por Suarez —, acirrou ainda mais os ânimos.
No centro do embate, Alcolumbre tenta emplacar seu indicado, Willamy Frota, ex-presidente da Amazonas Energia, em uma das diretorias vagas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Frota é ligado a Suarez e conta com o apoio do senador Eduardo Braga (MDB-AM). Silveira, por sua vez, vinha defendendo a nomeação de seu secretário nacional de Energia Elétrica, Gentil Nogueira de Sá Junior. Em uma conversa reservada recente, teria sinalizado que abriria mão da indicação, desde que Lula autorizasse formalmente a mudança.
Até agora, porém, o Palácio do Planalto não enviou novos nomes ao Senado. O impasse tem sido explorado por Alcolumbre, que se recusa a pautar as sabatinas pendentes e, com isso, amplia sua influência política. Recentemente, ele conseguiu assumir o controle da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), um dos principais centros de distribuição de emendas parlamentares. O cargo era do União Brasil na Câmara, mas agora está sob o domínio do Senado, consolidando o poder de Alcolumbre.
Enquanto o governo não resolve o impasse, Silveira permanece no ministério, mas cada dia mais enfraquecido. A demora em definir os nomes para as agências e a permanência da crise política têm impactos práticos: propostas contrárias aos interesses do Executivo seguem avançando no Senado. Um exemplo é o projeto que flexibiliza o licenciamento ambiental, previsto para ser votado nesta quarta-feira.
O prolongamento do conflito tem se revelado prejudicial para o governo, que perde capacidade de articulação no Congresso. Para Alcolumbre, por outro lado, o embate tem sido politicamente lucrativo, reforçando seu protagonismo e poder de barganha em Brasília.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

