O quintal de Olga Maria Teixeira Caixeta, 66, está lotado de pés de jabuticabas. Pena que neste ano, das 13 árvores centenárias, três foram atacadas por cupins. “É uma tristeza, como se tivesse morrido um parente”, lamenta.
Nem essa adversidade desanimou a pequena produtora do bairro Senhora do Ó, em Sabará. A partir do dia 24, ela estará no estande Opretinha, na praça Melo Viana, para mostrar seus bolos, tortas e doces. Olga é um dos 26 produtores que participam do 36ª Festival da Jabuticaba – A Virada do Tacho, o maior e mais tradicional evento da cidade da região metropolitana de Belo Horizonte.
As chuvas de outubro e novembro são uma bênção. Olga já colheu os frutos para criar suas inventivas receitas à base da fruta. Assim que os pés florescem no terreno de 6.000 m², ela já prepara seus tachos: “Faço uma variedade muito grande de produtos”. A atividade é uma herança de família.
“As receitas são de minha avó, da minha mãe. Elas produziam geleias e licores para consumo próprio ou para presentear parente que nos visitava, mas hoje virou um comércio”, conta. A produtora também cultivas mudas: as árvores que morreram serão substituídas por outras. “Uma jabuticabeira demora 16 anos para crescer e dar frutos”,conta.
Olga começou a produção há mais de uma década. A safra deste ano, afirma, foi muito boa. A jabuticabeira depende das chuvas para florescer e garantir o fruto. Como neste ano a colheita foi mais cedo, em outubro, ela aproveitou para congelar os frutos para garantir a produção dos derivados o ano todo.
A jabuticaba tem vida útil de uma semana, ela se perde facilmente se não for colhida rapidamente. Neste ano, Olga deve produzir 500 litros da fruta. Os produtos são vendidos entre R$12 e R$ 60. A tradição de alugar os pés de jabuticaba – hoje se contam nos dedos os poucos pequenos produtores da cidade histórica que mantêm a atividade – já foi abandonada.
Desde 2008, quando foi criada, a Associação de Produtores de Derivados da Jabuticaba (Asprodejas) tem incentivado e organizado a produção no município. Segundo Elizabeth Torres Braga, presidente da entidade, a jabuticaba dá apenas duas vezes no ano, em agosto/setembro e outubro/novembro, época das chuvas. Como não choveu em agosto, a produção está se concentrando nos dois últimos meses.
“Depois que nasce o fruto, o produtor tem 40 dias para colhê-lo, senão perde”, explica. No entanto, conta ela, alguns poucos produtores sabarenses já desenvolveram um sistema de irrigação para garantir vendas o ano todo.
A entidade, formada por 26 associados, não tem estatísticas do número de pés de jabuticaba nem do volume de produção ou de quanto a atividade injeta na economia do município. Em Sabará, destaca Elizabeth, todo o morador que tem um quintal cultiva o fruto, ainda que para consumo próprio.
Da jabuticaba se produzem mais de 40 derivados, e entre os principais estão geleias, doces em compota, molhos, temperos, licores, cachaça, vinho, sorvete e tortas, todos comercializados em estandes durante o Festival da Jabuticaba.
“Neste ano, por causa das provas do Enem, jogamos o evento para o final de novembro”, salienta.
Depois de um ano sem formato presencial e de uma 35ª edição sob rigorosos protocolos sanitários e realizada em um local fechado, o evento deste ano volta às praças da cidade.
Segundo o secretário municipal de Cultura e Turismo, André Alves, a área do evento foi ampliada e acrescenta, além das praças Melo Viana, Santa Rita e Bueno Brandão, a praça Antônio de Albuquerque.
A programação contará com 26 estandes de produtos, 18 de gastronomia, dez food trucks e 27 barracas de artesanato, além de cozinha-show e uma área kids. A novidade é a cozinha kids, não para ensinar os pequenos a cozinhar, mas uma “brincadeira gastronômica”.
A praça Antônio de Albuquerque será dedicada aos visitantes em busca de um ambiente com menos aglomeração, em estilo lounge, com apresentações de grupos de chorinho e cantores de MPB. Mesas serão espalhadas pelo espaço. “As pessoas reclamavam que não vinham a Sabará porque a cidade ficava muito cheia (o evento recebe, em média, 120 mil pessoas nos quatro dias).
Decidimos ampliar os locais para diluir o público e oferecer novas opções”, salienta. À exceção da Antônio de Albuquerque e da Bueno Brandão, esta última com espaço kids, as outras duas praças terão shows com bandas e artistas locais.
Como em anos anteriores, para estimular a criatividade, os produtores participarão do Concurso de Melhor Geleia, Melhor Licor e Produto Inovação. Cerca de 16 produtores se inscreveram neste ano.
Para se ter uma ideia da criatividade, já foi criada receita até de pipoca de jabuticaba. Após o encerramento do evento, pratos típicos preparados com a fruta participam de um concurso e poderão ser apreciados pelos visitantes. Em relação aos festins, eles não ocorrem neste ano por falta de adesão dos produtores ao edital da prefeitura. Hoje, para garantir o plantio da jabuticaba em casa, uma lei municipal oferece descontos no IPTU desde o ano passado.
“Sabará está em um processo de retomada do turismo, por esse motivo oferecemos incentivos aos moradores e aos comerciantes”, destaca André Alves.
O município, no entanto, tem outros desafios: aumentar o número de leitos para receber visitantes e incentivar a permanência na cidade. O maior hotel da cidade, o Solar Corte Real, fechou as portas na pandemia.
“Sabará é uma cidade histórica e tem muita coisa bacana para o turista conhecer”, afirma Elizabeth Torres Braga. Sobre as novas variantes da ômicron, a prefeitura tem recomendando apenas a utilização de máscaras em lugares fechados.
Chamada de “ouro negro”, a jabuticaba é considerada patrimônio imaterial de Sabará. Entre os benefícios atribuídos à fruta, estão as propriedades antioxidantes, a riqueza em vitaminas B e C, a regulação do intestino e o combate ao colesterol.
Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) comprovou a eficácia da jabuticaba também na prevenção e tratamento de algumas enfermidades; compostos presentes na casca reduzem em até 50% a produção de células cancerígenas no organismo.
36º Festival da Jabuticaba — A Virada do Tacho
Quando: 24 a 27 de novembro
Onde: Praças Melo Viana, Santa Rita, Bueno Brandão e Antônio de Albuquerque, no centro histórico.

