A decisão da ministra Gleisi Hoffmann de deixar a Secretaria de Relações Institucionais para disputar uma vaga no Senado desencadeou uma corrida silenciosa, porém intensa, nos bastidores do Palácio do Planalto e do Congresso Nacional. Responsável pela articulação política do governo Lula, Gleisi é vista como peça-chave na manutenção de acordos delicados com deputados e senadores. Sua saída, prevista para ocorrer até abril a pedido do próprio presidente, abriu um vácuo que gera apreensão tanto entre auxiliares do governo quanto entre lideranças do Legislativo, especialmente em um ano eleitoral marcado por disputas, prazos curtos e agendas sensíveis.
O contexto amplia o peso dessa mudança. Lula deve perder cerca de 20 ministros que deixarão seus cargos para disputar as eleições. Entre todas as substituições, porém, a da Secretaria de Relações Institucionais é considerada a mais crítica. A pasta é o principal canal de diálogo do Executivo com o Congresso, responsável por negociar votações, destravar projetos prioritários e garantir previsibilidade política. Qualquer erro de cálculo pode resultar em derrotas legislativas e desgaste para o governo em um momento estratégico.
Com a saída de Gleisi, o presidente terá pouco mais de um mês para definir quem comandará a articulação política em um período no qual o Congresso costuma concentrar seus trabalhos no primeiro semestre, antes do esvaziamento provocado pelas campanhas eleitorais. Isso significa menos tempo para discutir e aprovar propostas que o governo considera fundamentais e que também devem ser utilizadas como bandeiras eleitorais, como a PEC da Segurança Pública, o projeto de lei antifacção, o fim da escala de trabalho 6×1 e a regulamentação do trabalho de motoristas e entregadores por aplicativos.
Lula já tomou uma decisão considerada irreversível por seus auxiliares mais próximos: a Secretaria de Relações Institucionais continuará sob controle do PT. O presidente descartou a possibilidade de entregar o ministério a um partido aliado, optando por uma solução interna. Essa escolha, no entanto, cria um dilema. O PT pretende concentrar esforços na eleição para ampliar sua bancada no Congresso, o que reduz o número de quadros disponíveis para assumir um posto tão estratégico sem comprometer os planos eleitorais do partido.
Nesse cenário, o nome mais citado nos bastidores do Planalto é o de Olavo Noleto. Ele foi número dois de Alexandre Padilha quando o atual ministro da Saúde comandava a articulação política e acumulou passagens pela Secretaria de Relações Institucionais nos primeiros mandatos de Lula e também durante os governos Dilma Rousseff. Mesmo após a saída de Padilha da pasta, Noleto permaneceu no governo e foi convidado por Gleisi para chefiar o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o chamado Conselhão.
Nos últimos dias, Noleto ganhou respaldo de figuras influentes do núcleo duro do governo, como a futura ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, o chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Marcola, e o presidente nacional do PT, Edinho Silva. Embora nunca tenha ocupado o cargo de ministro, ele é visto como um nome da casa, com experiência acumulada em cinco mandatos petistas e conhecimento profundo da engrenagem do Executivo. Procurado, Noleto preferiu não comentar as especulações.
Outra alternativa interna chegou a ser considerada, mas perdeu força recentemente. Trata-se do atual secretário-executivo de Gleisi, Marcelo Costa. Diplomata de carreira, com perfil discreto e técnico, ele é bem avaliado por parlamentares e considerado homem de confiança da ministra. Apesar disso, a tendência no momento é que Marcelo Costa permaneça como número dois da pasta, caso Noleto seja confirmado no comando da Secretaria de Relações Institucionais.
Mesmo com essas opções, cresce no Congresso a preocupação com a possibilidade de alguém sem mandato eletivo assumir a articulação política. Para parte dos parlamentares, a ausência de uma trajetória recente nas urnas enfraqueceria a autoridade do novo ministro diante de deputados e senadores. Esse grupo defende que o posto seja ocupado por alguém com peso político, trânsito consolidado no Legislativo e habilidade para lidar com os frequentes atritos entre Executivo e Congresso, que tendem a se intensificar em ano eleitoral.
A avaliação é compartilhada por lideranças de diferentes partidos. O líder do PDT na Câmara, Mario Heringer, afirma que o governo deveria apostar em um nome com forte inserção no Parlamento para evitar o agravamento das tensões institucionais. Segundo ele, a escolha errada pode ampliar a distância entre os dois Poderes e dificultar a governabilidade.
Diante dessas resistências, um nome que voltou a circular com mais força é o do líder do governo na Câmara, José Guimarães. Deputado experiente, Guimarães mantém boa relação com o presidente da Casa, Hugo Motta, e esteve à frente da articulação política no dia a dia do plenário nos últimos três anos. Defensores de sua indicação argumentam que ele conhece como poucos os humores do Congresso e teria condições de dar continuidade aos acordos firmados por Gleisi.
O problema é que Guimarães também mira uma vaga no Senado pelo Ceará, e sua candidatura enfrenta incertezas. O PT tenta costurar alianças com União Brasil e PP em torno da reeleição do governador Elmano de Freitas, o que pode levar o partido a abrir mão da vaga ao Senado para acomodar aliados. Há ainda a possibilidade de o ministro da Educação, Camilo Santana, entrar na disputa para manter o controle político do estado nas mãos do PT, o que reduziria ainda mais o espaço para Guimarães.
Entre líderes do Congresso, há consenso de que qualquer novo ministro precisará garantir continuidade aos acordos firmados por Gleisi. A preocupação central é evitar um “cavalo de pau” no modelo de articulação, que poderia gerar desconfiança e ruídos com as cúpulas da Câmara e do Senado. Em um ambiente já marcado por tensão, o descumprimento de compromissos assumidos anteriormente pode ter efeitos duradouros.
Um dos pontos mais sensíveis dessa relação é o pagamento de emendas parlamentares. No fim de 2025, o Congresso aprovou um calendário que obriga o Executivo a executar 65% das emendas no primeiro semestre do ano. A regra impõe ao governo um ritmo de liberação de recursos muito superior ao observado em anos eleitorais anteriores. Levantamento indica que, nos últimos três ciclos, o maior percentual executado até junho foi de 44%, em 2020.
O cenário ficou ainda mais delicado após o veto presidencial a cerca de R$ 400 milhões em emendas na semana passada. Além disso, estão previstos novos bloqueios que podem ultrapassar R$ 11 bilhões, incluindo valores formalmente vinculados a ministérios, mas direcionados por parlamentares. Para governistas, caberá ao novo titular da Secretaria de Relações Institucionais administrar esse desgaste e evitar que a insatisfação se transforme em derrotas legislativas.
Um parlamentar da base resume o desafio ao afirmar que o novo ministro precisará ser ágil no pagamento de emendas, atento às nomeações de aliados e sensível aos pedidos para levar programas federais às bases eleitorais dos congressistas. Iniciativas como o Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, são vistas como instrumentos centrais para manter o apoio político em um ano de disputas acirradas.
No entorno de Lula, a avaliação é que o objetivo principal do novo comando da articulação política será “empatar o jogo” e preservar um ambiente mínimo de normalidade institucional. Há receio de que a oposição use o funcionamento do Congresso para impor derrotas simbólicas ao governo, criando narrativas negativas que possam prejudicar a imagem do presidente em sua tentativa de reeleição.
Defensores de Olavo Noleto minimizam o fato de ele não ter mandato eletivo. Argumentam que a gestão será de continuidade e que, com o Congresso progressivamente esvaziado pela campanha, a capacidade técnica e a experiência acumulada podem ser mais relevantes do que o peso eleitoral. Também lembram que Gleisi, ao retornar à Câmara, continuará sendo uma figura central na negociação de projetos estratégicos para o governo.
Na avaliação de líderes aliados, a previsibilidade é o fator mais importante nesse momento. Para eles, se a transição for bem organizada até abril, com agenda definida e prioridades claras, a articulação política pode seguir funcionando sem sobressaltos até o período eleitoral. A experiência prévia na relação institucional é vista como um ativo capaz de garantir estabilidade em um cenário adverso.
Enquanto a definição não ocorre, o governo segue atento às pautas que pretende destravar no Congresso. A área de segurança pública é tratada como prioridade, com a intenção de reverter alterações feitas pelo Legislativo na PEC da Segurança e no projeto de lei antifacção, ambos elaborados pelo Ministério da Justiça. Essas propostas são consideradas apostas centrais do governo para responder às demandas da sociedade por mais segurança.
Outro tema sensível é o fim da escala de trabalho 6×1. Já aprovada na CCJ do Senado, a proposta garante dois dias de descanso remunerado e reduz a jornada máxima semanal para 36 horas. Caso avance no plenário, ainda precisará passar pela Câmara, onde enfrenta resistências de setores empresariais.
A regulamentação dos aplicativos de transporte e entrega completa a lista de prioridades. Um grupo de trabalho coordenado pelo ministro Guilherme Boulos prepara um relatório que deve servir de base para o projeto em tramitação na Câmara. A iniciativa busca equilibrar direitos trabalhistas e inovação, outro ponto que o governo pretende explorar politicamente.
Com tantas frentes abertas, a escolha do sucessor de Gleisi Hoffmann ganhou caráter decisivo. Mais do que um nome, Lula precisará definir um método de articulação capaz de atravessar o período eleitoral sem romper acordos, manter o diálogo com o Congresso e sustentar a governabilidade em um dos momentos mais delicados de seu mandato.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

