O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência de Belo Horizonte (Samu-BH) completa 20 anos em 2023, com milhares de histórias emocionantes de socorros e salvamentos.
Uma delas quem conta é a enfermeira Bruna Adrienne, que aconteceu em novembro do ano passado.
“Num plantão diurno de uma quinta-feira de novembro de 2022 fomos chamados no final da tarde para o atendimento a um parto gemelar (gêmeos) de prematuros em domicílio. A equipe neste dia estava composta por quatro integrantes: condutor, médico, enfermeira e residente de enfermagem. Na chegada da ambulância, a família e vizinhos encontraram-se no apartamento com grande euforia pelo acontecido”, relembra Bruna.
Segundo ela, a grávida, com 32 semanas de gestação, estava deitada na cama do casal com contrações intensas.
“Foi a conta de abrirmos os materiais, nos preparando para atender as recém-nascidas e orientar a gestante a fazer força efetiva. A primeira bebê tentou nascer, mas estava na posição pélvica, só era visível os glúteos. O médico fez a manobra e ajudou a primeira a nascer, que também se encontrava com circular de cordão umbilical. A primeira bebê nasceu sem chorar, sem reação, necessitando ser reanimada pela enfermeira. A segunda nasceu do mesmo modo, sendo reanimada pela residente de enfermagem”.
A enfermeira disse ainda que, enquanto o médico cortava os cordões e cuidava da gestante, a família comemorava os nascimentos na porta do quarto, mas sem entender a gravidade do quadro clínico das bebês.
“Instantes depois, as recém-nascidas conseguiram respirar, chorar e ficaram estáveis. Toda a família e a equipe comemoraram o choro das bebês. A mãe e as duas bebês foram encaminhadas pela equipe até a maternidade e ficaram bem. A equipe do hospital ficou admirada pelo atendimento prestado às bebês e gestante na casa dela e no desfecho feliz que tivemos”, disse.
Reencontro emocionante
A médica Alessandra Mariosa conta que em janeiro de 2011, em torno das 18h30, uma equipe foi chamada para atender vítimas de um acidente entre um carro e um caminhão na BR-040, próximo à Curva do Sabão.
Pela Central, o médico passava as informações da ocorrência. A chamada dizia que no carro estavam um adulto e quatro crianças.
O local estava escuro, chovia e havia uma viatura da Polícia Rodoviária Federal (PRF), com um agente com uma lanterna na mão.
O motorista estava sem ferimentos, fora do carro. Dentro do veículo, a equipe encontrou uma cena que jamais foi esquecida: quatro meninos com uniforme de futebol. Eles estiveram em Belo Horizonte para um treinamento.
Os garotos estavam muito feridos, segundo a médica. No banco da frente um menino de aproximadamente 12 anos, em estado grave, preso nas ferragens. No banco de trás, três crianças aparentemente sem cinto.
A ambulância era a única unidade que havia chegado ao local do acidente. A equipe começou o atendimento colocando o colar cervical e oxigênio no menino do banco dianteiro. Na sequência, as outras três crianças começaram a ser retiradas.
A primeira estava com ferimentos simples e a segunda, com fratura grave em fêmur. A terceira, grave, inconsciente e com dificuldade respiratória. Outras ambulâncias chegaram para dar apoio. Os bombeiros iniciaram a retirada do menino do banco da frente.
A equipe assumiu o atendimento da vítima mais grave, imobilizada, entubada e dentro da ambulância. As outras duas crianças foram levadas em ambulâncias separadas.
Quando iniciava o retorno a Belo Horizonte, mais uma vez a equipe foi chamada pela Central de Regulação do Samu. A criança com fratura de fêmur, que estava sendo atendida pelo Corpo de Bombeiros, havia piorado.
A equipe do Samu iniciou apoio no atendimento dela. Outra equipe chegou para apoiar e foram todos para o Hospital de Pronto-Socorro João XXIII. A criança do banco dianteiro não resistiu aos ferimentos e morreu.
“A equipe do Samu iniciou apoio no atendimento da criança que estava com os bombeiros. Outra equipe do Samu chegou para apoiar e foram todos para o Hospital João XXIII. Infelizmente a criança do banco dianteiro foi a óbito. No final da noite, por volta das 23h, na porta do hospital, a equipe ficou em silêncio, chorando e imaginando a dor daquela família. Uma integrante da equipe (Viviane), que tinha filho pequeno, falou que não conseguia continuar no Samu, foi difícil reverter esta decisão”, conta Alessandra.
Cerca de oito anos depois, Viviane que cursava medicina foi fazer estágio na terra natal das crianças, em Belo Vale, na Região Central de Minas Gerais, e comentou com moradores sobre o atendimento que marcou a vida dela.
Para a surpresa dela, todos conheciam as vítimas que ficaram marcadas pelo acidente. Ela conheceu dois dos três garotos que sobreviveram e foram atendidos pela equipe.
Milhares de atendimentos em 2022
O Samu-BH atendeu a 497.054 chamadas telefônicas em 2022, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS).
Destas, houve o envio de ambulâncias em 120.022 – que podem ser as unidades de suporte básico ou as de suporte avançado (UTI móvel) – realizando 10 mil atendimentos por mês.
O órgão informou que o Samu-BH conta com 1.050 profissionais – médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, condutores e teledigifonistas.
Ainda em 2022, para manter todos os atendimentos, as despesas foram de R$ 3,8 milhões por mês.
Base do Samu-BH no bairro Coração Eucarístico, na Região Noroeste — Foto: Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte/Divulgação
Segundo a SMS, para manter o Samu em funcionamento, o dinheiro vem dos governos municipal, estadual e federal.
Atualmente, o serviço conta com 21 ambulâncias de suporte básico (USB) e seis de suporte avançado (USA), além de uma para apoio em situações excepcionais, como eventos de massa e catástrofes, por exemplo.
São 27 bases distribuídas nas nove regionais de Belo Horizonte. São elas: Barreiro, Centro-Sul, Leste, Nordeste, Noroeste, Norte, Oeste, Pampulha e Venda Nova.
Desde de outubro de 2022, a Central de Regulação Unificada do Samu BH foi transferida para o Centro Integrado de Operações de Belo Horizonte (COP-BH), no bairro Buritis, na Região Oeste.
Uma equipe de 24 profissionais (médicos, enfermeiros e atendentes) conta com uma estrutura com mais suporte tecnológico. A Central de Regulação funciona 24 horas, sete dias por semana e é responsável por direcionar as ações, desde o contato telefônico, passando pelas orientações médicas, até o envio da ambulância.
A equipe também coordena o atendimento de toda a frota e realiza o encaminhamento para os serviços de saúde. No local são gerenciadas as vagas das urgências das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais do município, dando às vítimas das ocorrências a destinação mais correta, de acordo com o caso clínico.
Com a mudança da Central de Regulação para o COP-BH, o prédio da sede do Samu-BH, no bairro Coração Eucarístico, na Região Noroeste, abriga o setor administrativo (Gerência e Núcleo de RH), Coordenação Médica e de Enfermagem, Coordenação de Frota, Almoxarifado, Farmácia, Serviço Social e Central de Regulação do Transporte em Saúde.
Sindibel
O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Belo Horizonte (Sindibel) disse que o atendimento do Samu “carece de uma triagem adequada e que o deslocamento das equipes para atendimento de casos que não são de urgência e emergência é uma das grandes questões na rotina dos profissionais”.
Leia a íntegra da nota:
“O entendimento é que o atendimento do SAMU, atualmente, carece de uma triagem adequada. O deslocamento das equipes do SAMU para atendimento de casos que não são de urgência e emergência é uma das grandes questões na rotina dos profissionais. Quando não ocorre uma triagem efetiva, as equipes acabam sendo deslocadas para todos os tipos de ocorrência que chegam, o que faz o número de atendimentos ser alto, porém várias ocorrências não são casos de urgência e quando uma equipe está em atendimento, acaba gerando uma indisponibilidade para as demandas que eventualmente possam surgir e serem urgências e emergências reais.
Entendemos também que é muito importante que a prefeitura realize dimensionamento populacional nas regionais para entender se há necessidade do aumento do número de ambulâncias e, consequentemente, de equipes do SAMU que atende aquele grupo. Esse processo deve ser contínuo, para conseguir saber a efetividade do serviço prestado à população e fornecer as melhores condições de trabalho para os servidores que atuam no atendimento.
Por fim, é fundamental que os equipamentos, as ambulâncias e os profissionais que atuam no SAMU não sejam deslocados para atividades como entrega de material em unidades de saúde ou hospitais, pois isso impossibilita o fornecimento do atendimento para os casos de urgência e emergência que são responsabilidade do SAMU”.
O que diz a Prefeitura de Belo Horizonte
A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) disse que “alcança uma medida de eficiência, com atendimento com envio de ambulância a cerca de 10 mil pessoas por mês, sendo que em 80% desses atendimentos, o paciente é encaminhado para hospital, o que sinaliza a gravidade e a complexidade dos casos”.
Leia a íntegra da nota:
“A Prefeitura de Belo Horizonte informa que mantém diálogo constante com o Sindicato. O SAMU da capital conta com médicos reguladores, 24 horas por dia, que atendem em média 30 mil chamados por mês. Para que a regulação médica seja o mais eficiente possível, as equipes passam por capacitação permanente, são realizados grupos de discussão dos casos clínicos e ministrado treinamento introdutório de rotina para profissionais recém-admitidos.
Desta forma, o SAMU de Belo Horizonte alcança uma medida de eficiência, com atendimento com envio de ambulância a cerca de 10 mil pessoas por mês, sendo que em 80% desses atendimentos, o paciente é encaminhado para hospital, o que sinaliza a gravidade e a complexidade dos casos.
No que se refere a redimensionamento da estrutura do SAMU, a Portaria 1864/2003 do Ministério da Saúde – que institui o componente pré-hospitalar móvel da política nacional de atenção às urgências – define que para cada grupo de 150 mil habitantes, o município disponibilize 16 ambulâncias de suporte básico (USB) e para cada grupo de 450 mil habitantes, uma unidade de suporte avançado (USA). Belo Horizonte cumpre este quesito, já que conta com 21 ambulâncias USB e 06 ambulâncias USA. A avaliação da demanda é contínua e depende de variáveis como demanda por atendimentos nas portas de urgência e no pré-hospitalar, além da destinação de recursos para ampliação da frota de ambulância e formação de recursos humanos.
A Secretaria Municipal de Saúde reforça que é expressamente proibido que as ambulâncias e equipamentos do SAMU-BH sejam utilizados para outros fins que não o atendimento à população.“

