A sucessão no Ministério da Agricultura transformou-se em um dos principais focos de tensão política dentro do governo federal, envolvendo diretamente o PT e o PSD, partidos que disputam influência sobre uma das pastas mais estratégicas da Esplanada. O impasse ocorre diante da saída prevista do atual ministro Carlos Fávaro, que deve deixar o cargo em abril para disputar uma vaga no Senado por Mato Grosso, abrindo espaço para uma disputa que combina interesses eleitorais, equilíbrio partidário e sinalizações ao agronegócio.

A troca no comando da Agricultura é considerada sensível porque a pasta concentra decisões centrais da política agrícola, define a execução do Plano Safra, coordena a liberação de crédito para produtores rurais e influencia diretamente a distribuição de emendas parlamentares para o setor. Na prática, trata-se de uma das principais pontes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com um segmento historicamente resistente ao PT e que teve papel decisivo na eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro.

No Palácio do Planalto, a avaliação é de que a escolha do sucessor de Fávaro precisa equilibrar critérios técnicos, capacidade de diálogo com o setor produtivo e manutenção da base política no Congresso. A disputa interna ganhou força porque tanto o PT quanto o PSD reivindicam protagonismo na definição do nome que assumirá o comando da pasta, ainda que por um período relativamente curto até o fim do atual mandato presidencial.

Entre os nomes ventilados, aparecem quadros que já atuam dentro do próprio ministério. Um deles é Carlos Ernesto Augustin, filiado ao PT, assessor especial de Fávaro e atual presidente do conselho de administração da Embrapa. Outro nome citado é o de Cleber Soares, secretário-adjunto da Secretaria Executiva, visto por integrantes do governo como um técnico com menor exposição política, mas com conhecimento da máquina administrativa.

O PSD, partido de Fávaro, argumenta que a Agricultura integra a cota da legenda no Senado e que a manutenção do espaço seria uma forma de preservar o acordo político firmado no início do governo. A bancada da Câmara também pressiona o Planalto, alegando ter sido preterida recentemente na sucessão do Ministério do Turismo, quando Celso Sabino deixou o cargo e Gustavo Feliciano assumiu em um movimento que beneficiou aliados de Hugo Motta.

Apesar de abrigar em seus quadros nomes cotados como possíveis adversários de Lula na eleição presidencial, como Eduardo Leite, Ronaldo Caiado e Ratinho Junior, o PSD mantém três ministérios no governo federal. A estratégia do Planalto tem sido preservar canais de diálogo com uma ala do partido, na tentativa de garantir apoio em palanques estaduais ou, ao menos, neutralidade na disputa presidencial.

Dentro desse cenário, o nome do ministro da Pesca, André de Paula, surge como o mais alinhado aos interesses do PSD, tanto no Senado quanto na Câmara. No entanto, De Paula também avalia deixar o cargo para disputar uma vaga de deputado federal por Pernambuco, com apoio da governadora Raquel Lyra. Aliados afirmam que ele teria o respaldo necessário para assumir a Agricultura, mas ponderam que não seria razoável constrangê-lo a ocupar a pasta por poucos meses e abrir mão de uma candidatura considerada viável.

Atualmente à frente de um ministério com um dos menores orçamentos da Esplanada, André de Paula foi chamado para uma reunião com Lula na Granja do Torto, o que reforçou especulações sobre seu futuro político. Procurado para comentar o encontro, o ministro preferiu não se manifestar, alimentando ainda mais as incertezas em torno da sucessão.

No início do ano, Lula orientou seus ministros a priorizarem substituições internas, indicando quadros já familiarizados com as pastas, e a evitarem mudanças que exigissem longos períodos de adaptação. A diretriz foi pensada para impedir a interrupção de obras e projetos em andamento, especialmente em um ano eleitoral, no qual o presidente precisa melhorar indicadores de popularidade e ampliar sua base de apoio.

A tendência é que quase metade da Esplanada passe por alterações em razão das eleições, o que aumenta a complexidade das negociações políticas. No caso da Agricultura, além de Fávaro, outros dirigentes de primeiro escalão também devem deixar o ministério para disputar cargos eletivos, reduzindo o leque de opções disponíveis.

Entre os que devem sair estão o secretário-executivo Irajá Lacerda, que será candidato a deputado federal por Mato Grosso, e Guilherme Campos, titular da Secretaria de Política Agrícola, que pretende disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo. Esse esvaziamento reforça o argumento de que a sucessão deve recair sobre alguém que já conheça profundamente a estrutura da pasta.

A disputa ocorre em um momento em que o governo federal busca preservar pontes com o agronegócio, setor central para a balança comercial e para a política externa brasileira. Qualquer sinal de instabilidade ou de ruptura no diálogo é visto como munição potencial para a oposição, especialmente em um ambiente eleitoral marcado por polarização.

Auxiliares de Lula reconhecem que a decisão final precisa evitar atritos com o PSD e, ao mesmo tempo, transmitir segurança ao setor produtivo. A avaliação interna é de que a escolha do novo ministro será interpretada como um recado político, tanto para aliados quanto para produtores rurais.

No PT, o entendimento predominante é de que a indicação de Carlos Ernesto Augustin garantiria continuidade à gestão de Fávaro e preservaria a estratégia de diálogo construída nos últimos anos. Petistas argumentam que, diante da existência de pré-candidatos do PSD à Presidência, Lula não deveria abrir mão de um espaço estratégico para um partido que pode se posicionar contra ele em dois mil e vinte e seis.

Augustin conta com o apoio de setores do agronegócio, como a Aprosoja e integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária, além de ser considerado um nome de confiança do atual ministro. Apesar disso, não tem o aval formal do PSD, o que torna sua eventual nomeação um ponto sensível na relação com a legenda.

Aliados de Augustin avaliam que manter um perfil com capacidade de diálogo será essencial para evitar ruídos em pleno ano eleitoral e assegurar a continuidade das políticas em curso. Para eles, a escolha de alguém externo ao ministério exigiria um período de adaptação incompatível com o calendário político.

Na campanha de dois mil e vinte e dois, Augustin foi, ao lado de Fávaro, um dos poucos nomes que atuaram diretamente na defesa de Lula junto ao agronegócio. Ambos contribuíram para preparar o então candidato em debates sobre o setor e buscaram reduzir resistências históricas ao PT.

A própria nomeação de Fávaro, ainda na transição de governo, foi vista como um gesto de aproximação com produtores rurais e lideranças do Centro-Oeste. A escolha do sucessor, portanto, carrega peso simbólico semelhante e deve influenciar a relação do governo com o setor até o fim do mandato.

Embora elogiado por Lula pela abertura de mercados internacionais, Fávaro enfrentou dificuldades para ampliar sua aceitação no agronegócio. Ainda assim, sua opinião é considerada relevante no processo de escolha, segundo aliados do Planalto e do PSD. Procurado, o ministro optou por não comentar o tema.

A partir de abril, o governo deve assumir uma nova configuração, com a saída de ministros que disputarão as eleições. Além da Agricultura, são esperadas mudanças em diversas áreas, com prioridade para a promoção de secretários-executivos, geralmente de perfil técnico.

No núcleo do Planalto, estão previstas alterações na Casa Civil e na Secretaria de Relações Institucionais. Rui Costa deve disputar o Senado pela Bahia, enquanto Miriam Belchior é cotada para substituí-lo. Gleisi Hoffmann também deve deixar a SRI para concorrer no Paraná, abrindo espaço para Olavo Noleto.

Outros ministros pressionados a deixar seus cargos incluem Fernando Haddad, cotado para o governo de São Paulo, e Sidônio Palmeira, que pode assumir o marketing da campanha presidencial. Fora do Planalto, a lista de saídas prováveis inclui nomes como Marina Silva, Simone Tebet, Renan Filho, Jader Filho, André Fufuca, Sonia Guajajara e Anielle Franco, entre outros, sinalizando uma ampla reorganização ministerial no ano eleitoral.

Foto: Guilherme Martimon/MAPA


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