A um ano das eleições, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), voltou a ajustar seu discurso político. Após defender o chamado PL da Anistia, prometer indulto a Jair Bolsonaro e classificar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), como “tirano” em um ato na Avenida Paulista, o ex-ministro da Infraestrutura decidiu moderar o tom e reafirmar que deve disputar a reeleição em 2026. A mudança de postura, no entanto, provocou incertezas dentro de seu grupo político e travou a definição sobre quem poderá sucedê-lo na gestão estadual caso decida concorrer à Presidência.

A mais recente declaração de Tarcísio, de que pretende tentar um novo mandato, ocorreu na última segunda-feira, após visita ao condomínio onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar em Brasília. O encontro alimentou expectativas de que o ex-presidente pudesse anunciar publicamente o apoio a uma candidatura nacional do governador, o que não se concretizou. Ainda assim, Bolsonaro confidenciou a aliados que não se opõe à ideia de ver Tarcísio disputar o Planalto.

Dirigentes do Centrão consideram positiva a possibilidade de Bolsonaro oficializar essa escolha e pressionam por uma definição antes do fim do ano. “Há uma fila de candidatos da direita que começa em São Paulo e vai até Osasco”, resume um aliado do ex-ministro, em referência à disputa interna por espaço político.

Caso Tarcísio permaneça na corrida estadual, a direita paulista já esboça alternativas ao governo. Estão entre os cotados o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), o presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado (PL), o presidente do PSD, Gilberto Kassab, o secretário de Segurança, Guilherme Derrite (PP), e o vice-governador Felício Ramuth (PSD).

Nos bastidores, aliados afirmam que o recuo do governador é estratégico. “Ele busca reduzir ataques vindos tanto da esquerda quanto do bolsonarismo mais radical”, avalia um interlocutor. Tarcísio estaria testando o equilíbrio entre consolidar seu projeto em São Paulo e se preparar para uma eventual corrida presidencial. “Toda a articulação que ele faz tem o perfil de quem planeja ser candidato a presidente”, diz o cientista político José Álvaro Moisés, da Universidade de São Paulo (USP). “Quando o bolsonarismo rachar, Tarcísio deve emergir como nome de consenso.”

Pesquisas reforçam os argumentos em favor da reeleição. Segundo levantamento Genial/Quaest de agosto, o governador lidera com 43% das intenções de voto no estado. O segundo colocado, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), aparece com 21%. Em nível nacional, porém, o cenário é mais desafiador: a mesma Quaest mostra Lula (PT) à frente com até 40%, contra 20% de Tarcísio.

O cenário muda conforme as circunstâncias”, pondera o cientista político Carlos Melo, do Insper. “Se a eleição fosse hoje, ele não seria candidato à Presidência. Mas, até 2026, muita coisa pode mudar.” Para Melo, o maior risco é abandonar o governo paulista e perder uma eleição nacional. “Ser derrotado agora significaria encerrar precocemente sua carreira política.”

Um secretário próximo ao governador reforça a leitura pragmática. “A reeleição é mais cômoda e segura”, afirma. Tarcísio poderia consolidar sua imagem como gestor com a entrega de grandes obras — novas linhas de metrô e trem, a conclusão do Rodoanel e a sede administrativa do governo no Centro de São Paulo — e com a promessa de erradicar a Cracolândia. Ainda assim, o mesmo auxiliar reconhece o dilema: “O cavalo selado só passa uma vez. Se ele perder essa oportunidade, pode não ter outra.”

Foto: Pablo Jacob/Governo de São Paulo

 


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