Nascido em 1746, na antiga Capitania de Minas Gerais — atual município de Ritápolis —, Joaquim José da Silva Xavier veio ao mundo em uma família relativamente próspera. Seu pai, português, era proprietário de terras, detinha ao menos 35 escravizados e atuava no ramo da mineração, o que proporcionava certo conforto material à família. Quarto de sete filhos, Joaquim conheceu cedo o peso da perda: sua mãe morreu quando ele tinha apenas nove anos, e dois anos depois, também perdeu o pai. Órfão aos onze, foi acolhido por seu padrinho e tio, Sebastião Leitão, cirurgião-dentista com quem aprendeu o ofício que lhe renderia o apelido histórico — Tiradentes.

Sem acesso a estudos formais, Joaquim buscou a sobrevivência exercendo várias ocupações: foi mascate, minerador, farmacêutico e, ao lado do tio, aprendeu a cuidar de dentes, fabricando próteses rudimentares de marfim e osso de boi. A partir da década de 1770, graças aos seus conhecimentos em mineração, passou a atuar como técnico na identificação de terrenos com potencial mineral, prestando serviços ao governo português, que controlava a então colônia brasileira.

Em 1780, ingressou na tropa militar da Capitania de Minas e foi designado para patrulhar o Caminho Novo — a estrada que ligava Vila Rica (atual Ouro Preto) ao Rio de Janeiro. Essa rota era estratégica para o escoamento de ouro e outros minerais em direção à Europa. Apesar de sua dedicação, Joaquim nunca foi promovido, mantendo o posto de alferes por sete anos. Em 1787, desiludido, afastou-se da carreira militar e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu por cerca de um ano.

Nesse mesmo período, crescia a insatisfação entre os colonos com a política de exploração econômica imposta pela Coroa portuguesa. Desde 1711, vigorava a cobrança do “quinto” — um imposto que exigia que 20% do ouro extraído fosse remetido à metrópole. Posteriormente, instituiu-se a “derrama”, que obrigava a entrega mínima anual de cem arrobas de ouro, equivalente a mil e quinhentos quilos. Mesmo quando a produção declinava, o montante era exigido.

Durante anos, a derrama não foi plenamente executada, permitindo o acúmulo de dívidas. Contudo, na segunda metade do século XVIII, começaram a circular rumores de que a Coroa portuguesa passaria a cobrar esses tributos de forma mais severa. O temor da execução violenta da derrama, somado à influência da independência dos Estados Unidos, declarada em 1776, inspirou um grupo de intelectuais, militares e figuras influentes de Minas a planejar um levante separatista.

O movimento, que ficaria conhecido como Inconfidência Mineira, começou a se estruturar na década de 1780. Entre seus articuladores estavam nomes como o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade e os poetas Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto. Embora Tiradentes não fosse parte da elite econômica, seu fervor patriótico e crítica contundente à exploração portuguesa o tornaram peça-chave do grupo.

A revolta estava marcada para ocorrer em 1789, no momento da cobrança da derrama. Entretanto, os planos foram frustrados antes mesmo de ganharem as ruas. Em março daquele ano, o coronel Joaquim Silvério dos Reis, em conluio com mais dois homens, denunciou os conspiradores às autoridades em troca do perdão de suas dívidas com a Coroa.

No momento da delação, Tiradentes estava no Rio de Janeiro. Ao saber do ocorrido, refugiou-se na casa de um conhecido da tia de Alvarenga Peixoto, na Rua dos Latoeiros — atual Gonçalves Dias. Mas sua fuga não durou. Em 10 de maio de 1789, foi preso e levado à Ilha das Cobras, onde permaneceu encarcerado em uma fortaleza da Marinha durante 1.072 dias, cerca de três anos.

Durante esse período, foi submetido a julgamento e condenado à morte pelo crime de lesa-majestade — isto é, traição ao rei de Portugal. Outros inconfidentes receberam penas semelhantes, mas a maioria teve suas sentenças comutadas para o degredo. A rainha Maria I concedeu perdão a nove dos condenados à morte, poupando-os da execução. Apenas Tiradentes teve sua pena mantida, tornando-se o único a ser enforcado, o que transformaria seu nome em símbolo da luta pela liberdade.

A única concessão feita pela Coroa foi a retirada das torturas que precederiam a execução. Em 17 de abril de 1792, aos cerca de 45 anos de idade, Tiradentes foi transferido da Ilha das Cobras para a Cadeia Velha, situada onde hoje está o Palácio Tiradentes, no centro do Rio. Na manhã do dia 21 de abril, um domingo, foi levado em procissão até o Largo da Lampadosa — atual Praça Tiradentes. Após a leitura da extensa sentença, foi enforcado diante do povo.

Como punição exemplar, seu corpo foi esquartejado, e os restos foram espalhados pelo caminho entre o Rio e Minas Gerais. Sua cabeça foi fincada em uma estaca e exposta em Vila Rica, de onde desapareceu três dias depois, em circunstâncias nunca esclarecidas.

A morte de Tiradentes, porém, não o consagrou de imediato como herói. Durante mais de oito décadas, sua memória permaneceu esquecida, relegada aos arquivos da repressão colonial. Apenas na década de 1870, com o fortalecimento das ideias republicanas no Brasil, sua figura foi resgatada como símbolo da luta contra a monarquia. A causa republicana buscava elementos históricos que justificassem a ruptura com o regime vigente, e Tiradentes se encaixava perfeitamente nesse imaginário como mártir da liberdade.

Em 1890, dois meses após a Proclamação da República, o marechal Deodoro da Fonseca decretou feriado nacional no dia 21 de abril em homenagem ao inconfidente. Em 1946, Tiradentes foi consagrado patrono das polícias, por representar o ideal de sacrifício e defesa do povo. Durante a ditadura militar, em 1965, foi alçado à condição de patrono cívico da nação brasileira. Já em 1989, foi oficialmente incluído no “Livro dos Heróis da Pátria”, consolidando sua posição como um dos maiores símbolos da história do Brasil.

De dentista a mártir da independência, Tiradentes atravessou os séculos como emblema da resistência ao colonialismo e referência na construção de uma identidade nacional baseada nos ideais de liberdade, justiça e autodeterminação.

 

Foto: Fábio Motta