Ângela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Há exatos 10 anos tinha início em São Paulo uma manifestação que acabou se alastrando por inúmeras cidades brasileiras. Por conta do aumento de vinte centavos no valor da passagem no transporte público, centenas de jovens, militantes em defesa do passe livre, foram às ruas.
Esses jovens possuíam um coerente histórico de lutas, mas a manifestação acabou sendo apropriada por setores golpistas nacionais com apoio internacional. Começava a chamada “Primavera Brasileira”.
Como as “Primaveras Árabes” e as “Revoluções Coloridas”, a brasileira também não passou de uma série de manifestações instrumentalizadas pelos Estados Unidos para derrubar um governo considerado adversário.
Foi necessário uma década e um enorme sofrimento para o povo brasileiro antes que essa realidade viesse à tona. Mesmo assim, ela está surgindo aos poucos e bastante fragmentada, o que dificulta a compreensão por quem não acompanha o assunto.
A mídia corporativa brasileira poderia contribuir para mostrar o que foi essa “primavera” e suas consequências, a começar pelo golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, em 2016, passando pela condenação, sem provas, e prisão do então ex-presidente Lula, em 2018, pela Operação Lava jato, e chegando à eleição e Bolsonaro com tudo de negativo que representou.
No plano internacional, a Lava Jato também foi útil para desestabilizar governos e perseguir personalidades em toda a América Latina. A título de exemplo, o ex-presidente peruano, Alan García, suicidou-se.
Esses 10 anos reúnem fatos de sobra que mereceriam reportagens e balanços de toda ordem.
Dificilmente isso acontecerá. E o motivo é simples: a mídia corporativa é parte deste processo, que teve na Operação Lava Jato o principal instrumento para alcançar os objetivos dos golpistas.
O Grupo Globo, maior conglomerado de mídia do país, que gosta tanto de cobrar autocrítica dos outros, é o primeiro a esconder do seu respeitável público o que se passou.
A Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo seguem no mesmo silêncio. Silêncio que se repete nas emissoras de rádio e de TV que pertencem às demais famílias que controlam a comunicação no Brasil.
A exceção fica por conta da mídia independente. É através dela que os porões da Lava Jato estão vindo à tona.
Para os veículos de comunicação da família Marinho – sexta maior fortuna do país – até hoje não existiu a #VazaJato, série de reportagens que o portal The InterceptBR publicou há quase quatro anos, trazendo a público, pela primeira vez, parte dos diálogos entre os procuradores da “República de Curitiba”.
Mesmo desnudando métodos e intenções destes senhores contra o então ex-presidente Lula e todos que julgavam “inimigos”, eles foram e continuam sumariamente ignorados.
Até agora, os revezes sofridos pela Operação Lava Jato não são notícia no Grupo Globo e à exceção da CNN Brasil, nenhum veículo da mídia corporativa trata do assunto.
Oficialmente a Operação Lava Jato foi encerrada discretamente por Bolsonaro em fevereiro de 2021, quando não mais servia aos interesses dos golpistas. O projeto neoliberal vinha sendo implementado a todo vapor e Bolsonaro parecia seguro de que venceria as eleições do ano seguinte.
Nem o fato de Moro ser considerado um juiz parcial pelo STF, alterou o silêncio do Jornal Nacional.
É importante lembrar que a mídia corporativa dedicou páginas e mais páginas e centenas de horas no rádio e na TV para as mentirosas denúncias da operação contra o então ex-presidente.
Quem se recorda daquelas notícias sobre “corrupção do PT” que, invariavelmente apareciam no Jornal Nacional, onde, de um fundo vermelho surgia um duto no qual jorravam notas de cem reais? Detalhe: tudo sob o olhar indignado dos âncoras Willian Bonner e Renata Vasconcellos.
Quem se lembra, igualmente, que algumas emissoras de TV chegaram a exibir um mentiroso interior de tríplex, luxuosamente decorado, atribuído a Lula? Foi necessário que os militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) invadissem o local, passando por cima das determinações da Justiça, e desmascarassem a farsa.
Se essas informações pertencem ao passado, o que dizer das revelações bombásticas do ex-deputado e empresário paranaense Tony Garcia?
Há mais de uma semana, a mídia corporativa brasileira tenta tapar o sol com a peneira e finge não saber de nada.
Tony Garcia acusa o ex-juiz e agora senador Sérgio Moro de tê-lo obrigado a se tornar um agente infiltrado da Operação Lava Jato, para espionar e gravar áudios e vídeos de políticos, empresários e magistrados os quais transformaria em reféns.
Moro teria em suas mãos, por exemplo, imagens de uma “festa da cueca”, na qual magistrados do TRF-4, a Justiça de segunda instância sediada em Porto Alegre, e até mesmo membros do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) estiveram presentes. Fato que pode estar na raiz de todos os processos dele serem ratificados, sem quaisquer questionamentos, por estas instâncias.
No caso do TRF-4, as penas determinadas por Moro contra Lula foram até ampliadas.
Moro nunca escondeu que sua referência para agir era a Operação Mãos Limpas que, na Itália, entre 1992 e 1996, a título de combate à corrupção, destruiu os partidos políticos e jogou o país nas mãos do empresário e “bon vivant” de extrema-direita Sílvio Berlusconi.
Berlusconi nunca dispensou a companhia de belas mulheres e nem de festas do cabide, enquanto ampliava o patrimônio de suas empresas à custa dos italianos.
Trinta anos se passaram e a Itália está longe de superar os trauma e mentiras que marcaram esta operação cultuada por Moro. O país, que na época era o sexto maior PIB do mundo, foi ultrapassado pela França e pela Índia e não há sinais de recuperação à vista.
O objetivo das gravações de Moro pode estar mais próximo, no entanto, de outro nefasto personagem internacional, J. Edgar Hoover (1895-1972) o primeiro chefe do Federal Bureau of Information (FBI), considerada a maior organização policial do mundo e autoridade número um dos Estados Unidos.
Hoover, que esteve à frente do FBI por 38 anos, rotineiramente infringiu as regras da própria instituição e usou-a para assediar e sabotar dissidentes políticos. Ao longo da vida, acumulou arquivos secretos para chantagear figuras do alto escalão.
Moro, que fez três visitas à sede da CIA e ao próprio FBI em Washington, vai ter muito o quê explicar sobre essas novas acusações.
Mas se a situação dele é ruim, outros integrantes de sua turma também estão em maus lenções.
Como se não bastasse a cassação definitiva do seu principal parceiro na Operação Lava Jato, o agora ex-deputado Deltan Dallagnoll, a juíza “copia-e-cola” Gabriela Hardt, também terá muito o que falar sobre as razões que a levaram a arquivar o depoimento que o ex-deputado Garcia lhe prestou.
O depoimento aconteceu em 2021, mas só veio a público na última semana, em mais um furo de reportagem de Joaquim de Carvalho da TV 247. A TV 247 integra o rol dos veículos de comunicação da mídia independente brasileira e pode ser acessada através do YouTube.
Como as denúncias são contundentes e o arquivamento delas constitui-se algo gravíssimo, a sequência natural agora será a Polícia Federal ouvir o ex-deputado.
Moro, que já é investigado pelo STF, estará no centro de mais uma investigação e não está descartado nem mesmo que venha perder o mandato.
As denúncias de Garcia devem desencadear uma série de processos contra o ex-todo poderoso juiz da Lava Jato, agora partindo de empresários.
O tamanho dos danos que Moro e sua turma produziram pode ser dimensionado através da leitura de “Uma guerra contra o Brasil”, livro que o empresário e dono do Grupo Odebrecht, um dos maiores do país e praticamente destruído pela Lava Jato, lançou há três semanas.
Fenômeno editorial, o livro teve a edição esgotada em poucas horas.
Nem que fosse por este lado, ele não poderia ter passado despercebido pela mídia.
Mas foi exatamente isso que aconteceu.
Nenhum jornal, emissora de rádio ou canal de TV, especialmente aqueles que adoram fazer debate sobre qualquer coisa como a GloboNews, se dignaram a mencioná-lo.
É importante observar que Emílio Odebrecht não se prende aos traumas familiares que enfrentou e nem às denúncias, embora elas sejam gravíssimas, entre elas a de que a destruição provocada pela Lava Jato abriu espaço para empresas estrangeiras atuarem numa área em que o Brasil liderava.
Essas questões ocupam as duas primeiras partes do livro. Nas duas últimas, ele descreve a luta para erguer a sua nova empresa, a Novonor, e também vai fundo na exposição das vísceras da Lava Jato, incluindo as críticas ao jornalismo brasileiro que, a respeito desta operação, segundo ele, “não passou de propaganda”.
Outro aspecto que merece ser mencionado é o da “Fundação Lava Jato”, abordada em detalhes no livro e praticamente ignorado pela mídia corporativa.
A tal fundação seria gerida por uma ONG – a Transparência Internacional, simpática ao lavajatismo – e pelos próprios procuradores de Curitiba, com recursos retirados de multas bilionárias pagas à Justiça dos Estados Unidos por empresas devastadas pela Lava Jato como a Petrobras.
Ao que tudo indica, o objetivo principal da fundação era se transformar em uma espécie de partido, bancando o ingresso na política de figuras como a própria dupla Moro e Dallagnol.
Mas não é só Moro quem deve estar perdendo o sono. Há informações de que os demais personagens desta década golpista estão vivendo à base de rivotril.
Se não ocorrer nenhuma alteração, o advogado Tacla Durán, que teve que refugiar-se na Espanha contra a perseguição da Lava Jato, deve voltar ao Brasil e depor no próximo dia 19. Seus advogados conseguiram salvo conduto para ele entrar no país e, pelo que tem anunciado, há provas contundentes contra Moro e uma penca de outros lavajatistas.
Já Bolsonaro enfrentará, no próximo dia 22, o primeiro das dezenas de julgamentos que o aguardam. Pelo crime que cometeu ao difamar e mentir sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas diante de todo o corpo diplomático estrangeiro, deve ficar inelegível por oito anos.
Também o aparentemente todo poderoso Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, o novo “herói” que a mídia corporativa criou para chamar de seu, é outro que já percebeu que precisa colocar as barbas de molho.
A mídia corporativa deu com destaque, na última semana, que Lira foi absolvido por falta de provas. Da forma que o assunto foi noticiado, parecia se tratar da acusação recente que pesa sobre um dos seus assessores, mas também o atinge.
O processo do qual foi absolvido é de 2014.
As denúncias atuais envolvem corrupção na compra superfaturada de kits de robótica para escolas em Alagoas, seu estado natal. Detalhe: as escolas que receberiam os tais kit não tinham sequer água potável ou energia elétrica. Os kits foram comprados com as verbas do “orçamento secreto” controlado por ele.
Esse não é o único esqueleto no armário de Lira. Sua ex-esposa guarda um arsenal de denúncias contra ele e o acusa de ameaça-la de morte. Por enquanto, ela tem sido notícia apenas na mídia independente, uma vez que a mídia corporativa brinda Lira para usá-lo na guerra que move contra o governo Lula.
Cada vez mais enfraquecidos, os golpistas tentam reagir como podem. Criam embaraços para o governo em votações na Câmara dos Deputados, fazem chantagem por cargos no primeiro escalão e descaradamente ameaçam Lula com impeachment por razões risíveis: ter recebido o presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, e por indicar o advogado Cristiano Zanin para o STF.
A mídia colabora, dando palanque aos golpistas. É o trabalho sujo de sempre contra o Brasil e o povo brasileiro.
Diante de um quadro que beira o absurdo, não é demais questionar se esta mídia não teria, ela própria, rabo preso com Moro e com a Operação Lava Jato.
Inevitavelmente, as investigações vão ter que chegar até ela.
Engana-se quem acreditar que, transcorrida uma década, quem patrocinou e ainda protege golpistas, cairá no esquecimento ou sairá ileso. A verdade não poupa ninguém.

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