Angela Carrato – jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG
Podemos contar nos dedos as semanas em que acontecem coisas positivas para a maioria da população. A última foi uma delas, mesmo que muita gente não se dê conta disso.
Depois de seis anos, acabou a sangria da Petrobras e do povo brasileiro.
O governo Lula e o novo presidente da empresa, Jean Paul Prates, anunciaram o fim da absurda Paridade de Preço de Importação (PPI) e a redução no preço dos combustíveis.
Esse dispositivo, imposto à Petrobras pelos golpistas que assumiram o poder em 2016, a obrigava a vender petróleo bruto e a importar gasolina refinada.
Mesmo o Brasil sendo praticamente autossuficiente em petróleo e possuindo refinarias, os golpistas preferiam exportar óleo bruto e importar gasolina, pagando em dólar.
O resultado deste descalabro foi o preço dos combustíveis nas alturas, com o litro da gasolina chegando a R$ 9,00 e o do diesel próximo disso.
A vida se tornou caríssima para quem vive de salário e ficou uma maravilha para quem transformou a Petrobras em vaca leiteira para os interesses da oligarquia nacional e internacional.
Com o fim da PPI, a população brasileira volta a pagar o preço da gasolina e de seus derivados em reais.
O preço dos combustíveis já caiu e vai cair mais nas próximas semanas.
Para ser competitivo, o preço do álcool também vai diminuir.
Ficará cada vez mais complicado para o bolsonarista presidente do Banco Central “independente”, Roberto Campos Neto, manter a taxa de juros em estratosféricos 13,75% ao ano.
Até agora, sua desculpa era de que havia risco de aumento da inflação. O que ele nunca explicou é como a inflação poderia aumentar com a demanda desaquecida, uma vez que o povo brasileiro está sem emprego e sem dinheiro para comprar o que quer que seja.
Talvez seja a falta de argumento que levou Campos Neto a alegar problema de saúde e a desaparecer da agenda presencial por uns tempos.
Na realidade, o problema deste cidadão é de outra ordem. Mas vamos em frente.
Outra excelente notícia foi a cassação do mandato do ex-número 2 da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por 7 x 0 votos.
Dallagnol perdeu o mandato devido a uma série de expedientes que utilizou para escapar de punições do Ministério Público, ao qual pertencia, e se tornar candidato.
Juntamente com o ex-juiz, hoje senador Sérgio Moro, Dallagnol participou da perseguição e do lawfare contra o então ex-presidente Lula.
Moro e Dallagnol passaram por cima de tudo para colocar empresários e políticos na cadeia e tirarem vantagem, inclusive pecuniária, da Lava Jato.
Quem se lembra da tal fundação que Dallagnol queria criar com recursos a partir de multas cobradas pela Operação Lava Jato?
Aos interessados em se aprofundar no assunto, sugiro o livro do empresário Emílio Odebrecht.
Recém lançado, a primeira edição simplesmente esgotou. Não falta quem queira conhecer em detalhes como agia a dupla Moro-Dallagnol, ironicamente conhecida como “Batman e Robin”.
Daí a cassação de Dallagnol ter sido uma péssima notícia para Moro.
Depois de detonarem a economia brasileira – a destruição das maiores empreiteiras da construção civil e da indústria naval é apenas parte dos estragos que fizeram – os dois foram buscar abrigo em mandatos parlamentares.
Não funcionou para Dallagnol e não deve funcionar para Moro.
Dallagnol poderá recorrer da decisão do TSE junto ao STF. Exceto os dois ministros indicados por Bolsonaro, os demais devem infringir nova derrota ao “Robin”.
Dallagnol ainda tentou fazer um comício em Curitiba, com o objetivo de denunciar o TSE. Falou para meia dúzia de pessoas, do alto de um patético trio elétrico.
Já seu companheiro, o “Batman”, preferiu desmentir que pense em abrir mão do mandato e deixar o país.
É aguardar para conferir, pois essa turma morre de medo quando o cipó de arroeira se volta para cima de quem mandou bater.
Também foi condenado o ex-presidente Fernando Collor de Mello, aquele que a TV Globo apresentou como sendo o “caçador de marajás”, e que terminou atolado em crimes e corrupções.
Mesmo com atraso de algumas décadas, a justiça no caso de Collor está sendo feita.
Como se isso não fosse mais do que suficiente para tornar a semana memorável, é importante lembrar que o presidente Lula participou no Japão, como convidado, da reunião de Cúpula do G-7, grupo que reúne as autodenominadas sete mais idustrializadas economias do mundo.
Foi nessa reunião de senhores da guerra que, mais uma vez, Lula foi o porta-voz dos que sonham e lutam pela paz.
A Rússia foi expulsa do G-7 em 2014, sob o argumento de que anexou a Criméia.
A China, mesmo sendo a segunda maior economia do mundo, caminhando para ser a primeira em poucos anos, nunca foi convidada a participar desse clube tão exclusivo quanto anacrônico.
Seus integrantes – Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Alemanha, França, Itália e Japão – estão longe de poderem se apresentar como modelos para quem quer que seja.
Lula sabe disso. Daí sua inarredável postura de neutralidade, em defesa da paz quando se trata da guerra na Ucrânia e na alteração da própria governança global, com mais países tendo assento no Conselho de Segurança da ONU.
Mas engana-se quem acredita que ele possa estar só.
Os dirigentes chinês e indiano pensam exatamente como Lula.
O próprio Sul Global é pela paz e por um mundo do multipolar.
Aclamado como um dos maiores estadistas da atualidade, Lula continua sendo criticado em casa apenas pelos entreguistas, golpistas e ressentidos de sempre, mídia corporativa à frente.
Veículos que agora jogarm duplo: combatem Bolsonaro, mas também combatem a agenda desenvolvimentista de Lula.
Haja vista o jornal O Globo “noticiando” na primeira página que depois de aprovar, possivelmente na próxima semana, o novo arcabouço fiscal, Lula terá muita dificuldade para garantir a vitória do que quer que seja no Congresso Nacional.
Os ventos já sopraram mais a favor da família Marinho do que agora.
Tanto que ela faz de tudo para ganhar dinheiro às custas das big techs e da mídia independente, como ficou claro com o “jabuti” que tentou emplacar, sem sucesso, no PL 2630, o das Fake News.
Em outras épocas, essa familia colocaria todos os seus veículos de comunicação na defesa de “heróis”, como a dupla Batman e Robin.
Agora, praticamente os atira ao mar.
Não lhes servem mais, como aconteceu com o próprio Bolsonaro.
Quem será o próximo herói da Globo?
P.S. Enquanto isso, na Câmara Municipal de Belo Horizonte, cidade marcada por problemas de toda ordem, uma vereadora fundamentalista propõe um projeto de lei para mudar o nome de um viaduto.
O viaduto em questão é o Helena Greco, rebatizado há quase uma década, em homenagem a esta precursora na luta contra a ditadura, na defesa dos direitos humanos e pela anistia no final dos anos 1970.
A vereadora que quer mudar o nome do viaduto usa o nome de Deus e invoca a pátria e a família a fim de que ele passe a se chamar Olavo de Carvalho, em homenagem ao guru da família Bolsonaro, aquele negacionista que fugiu para os Estados Unidos e morreu por lá, vítima da covid-19.
Detalhe: Olavo de Carvalho nasceu em Campinas e não há notícia de que tenha sequer morado em Belo Horizonte. Quando de sua morte, a filha mais velha pediu desculpas por “todas as maldades” que ele cometeu. Maldades inclusive com os próprios filhos.
A autora deste projeto possivelmente saiba disso, mas aposta no sucesso que possa fazer junto ao “gado”, aos idiotas e aos desinformados.
Com razão a família, os amigos e os milhares de admiradores de d.Helena Greco estão indignados.
Para eles, digo que não se preocupem.
A população belorizotina é sábia.
Tanto que nunca chamou o estádio de futebol “Mineirão” pelo nome oficial: Magalhães Pinto.
Magalhães Pinto foi um banqueiro e governador golpista de Minas Gerais nos idos de 1964. Ninguém mais se lembra dele e muito menos de quem deu seu nome ao estádio.
O viaduto seguirá sendo Helena Greco.
O desprezível Olavo de Carvalho já foi enterrado pela história. Aprovado ou não esse projeto, ninguém se lembrará de sua autora.
Por falar nisso, ano que vem tem eleição municipal.
Ótima oportunidade para a população belorizontina dar tchau a fundamentalistas e golpistas de todo naipe.
