Os embaixadores dos países da União Europeia deram aprovação provisória para a assinatura do acordo comercial com o Mercosul, abrindo caminho para a conclusão de um dos pactos mais ambiciosos já negociados pelo bloco europeu. A decisão ocorreu após mais de duas décadas de tratativas e intensas articulações diplomáticas para reunir apoio suficiente entre os Estados-membros, segundo relataram diplomatas envolvidos no processo.

A Comissão Europeia considera o acordo estratégico para ampliar mercados e reduzir vulnerabilidades comerciais. Países como Alemanha e Espanha defendem que a parceria com o Mercosul é fundamental para compensar perdas provocadas por barreiras comerciais adotadas pelos Estados Unidos e para diminuir a dependência econômica da China. Para esses governos, o tratado fortalece cadeias produtivas e garante acesso a matérias-primas consideradas essenciais.

Do outro lado, a França lidera a oposição, sustentando que o acordo tende a ampliar a entrada de produtos agrícolas a preços mais baixos, pressionando produtores europeus. “Não podemos sacrificar nossos agricultores em nome de um acordo desequilibrado”, afirmam representantes do setor agrícola francês. O país é o maior produtor rural da União Europeia e enfrenta forte mobilização interna contra o pacto.

Nos últimos dias, agricultores promoveram protestos em diferentes regiões do bloco, com bloqueios de estradas na França e na Bélgica e manifestações organizadas na Polônia. As ações aumentaram a pressão política sobre governos nacionais e sobre as instituições europeias responsáveis pela negociação.

Na votação entre os embaixadores, ao menos quinze países, representando cerca de sessenta e cinco por cento da população do bloco, manifestaram apoio ao texto, atingindo o critério necessário para a aprovação provisória. As capitais tiveram prazo determinado para encaminhar a confirmação formal de seus votos, o que consolidou o avanço do acordo.

Com isso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá assinar o tratado com os países do Mercosul, que reúne Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A expectativa é que a assinatura ocorra já nos próximos dias, embora o acordo ainda precise ser analisado e ratificado pelo Parlamento Europeu.

O tratado prevê a maior redução tarifária já promovida pela União Europeia, eliminando bilhões em impostos sobre exportações. Atualmente, países do Mercosul aplicam tarifas elevadas sobre produtos industriais europeus, como peças automotivas, laticínios e vinhos. A expectativa das partes é ampliar significativamente o fluxo comercial, que movimenta mais de cem bilhões de euros por ano.

Para tentar reduzir resistências, a Comissão Europeia incluiu salvaguardas que permitem suspender importações de produtos agrícolas sensíveis, reforçou controles sanitários e ambientais e criou instrumentos de apoio emergencial aos agricultores. Também houve compromisso de revisar taxas sobre fertilizantes e ampliar mecanismos de fiscalização.

Mesmo assim, a França e a Polônia mantiveram posição contrária. A Itália, por sua vez, mudou de postura e passou a apoiar o acordo, movimento considerado decisivo por diplomatas. “A negociação não terminou e a disputa agora será política”, avaliou um representante europeu.

Organizações ambientalistas também criticam o tratado. A Friends of the Earth classificou o pacto como “destruidor do clima”, alegando riscos ambientais e estímulo ao desmatamento. Já o social-democrata alemão Bernd Lange, presidente da comissão de Comércio do Parlamento Europeu, demonstrou confiança na aprovação final, prevista para os próximos meses.

Foto: União Europeia/Mercosul


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