A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou nesta terça-feira (2) ao Parlamento Europeu que há “evidências esmagadoras” de crimes de guerra cometidos por tropas russas na cidade de Bucha, na Ucrânia. A região, ocupada pelas forças de Moscou em 2022, foi palco de um dos episódios mais brutais da guerra. Centenas de corpos foram encontrados quando as tropas ucranianas retomaram o controle da cidade, muitos deles com sinais de execução sumária.
“Em Bucha, as evidências são esmagadoras, e sabemos exatamente quem são os responsáveis”, declarou Kallas. Segundo ela, com os avanços tecnológicos atuais, a impunidade por crimes de guerra torna-se praticamente inviável. A diplomata afirmou que há registros visuais, áudios de rádio decodificados e até ordens documentadas emitidas por comandantes russos que reforçam as acusações.
O massacre em Bucha é considerado o mais emblemático do conflito, mas está longe de ser um caso isolado. De acordo com autoridades ucranianas, há quase 128 mil investigações abertas sobre possíveis crimes de guerra desde o início da invasão russa. O Tribunal Penal Internacional (TPI) chegou a emitir um mandado de prisão contra o presidente russo, Vladimir Putin, acusado de envolvimento no transporte ilegal de crianças ucranianas para território russo.
Enquanto a UE tenta manter sua política de apoio à Ucrânia diante do retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, o bloco europeu defende a criação de um tribunal especial para julgar o crime de agressão cometido pela Rússia. Paralelamente, a UE também apoia os esforços do procurador-geral ucraniano, inclusive com uma missão civil que visa ampliar a capacidade de investigação de crimes internacionais.
No cenário internacional, Trump se mostrou impaciente com a lentidão nas negociações entre os dois países. No último domingo, ele afirmou estar “muito irritado” com Putin por duvidar da legitimidade de Volodymyr Zelensky como negociador e por insistir na substituição do governo ucraniano. Trump chegou a ameaçar impor sanções às empresas que comercializam petróleo russo. Ao mesmo tempo, mandou um recado a Kiev: se a Ucrânia recuar no acordo de concessões minerais aos EUA, poderá enfrentar “grandes problemas”.
Na Alemanha, a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, declarou em visita a Kiev que Putin continua evitando negociações sérias para um cessar-fogo. “Ele foge da diplomacia enquanto intensifica sua guerra ilegal e os ataques brutais contra a Ucrânia”, criticou. Ao lado dela, o chanceler ucraniano Andrii Sybiga reforçou que o país busca um acordo “mutuamente aceitável” com os Estados Unidos sobre exploração mineral, após críticas à proposta americana por ser desfavorável aos ucranianos.
Sybiga destacou que o governo ucraniano valoriza a presença de empresas norte-americanas em seu território e que está disposto a renegociar os termos apresentados. “Trabalharemos com os colegas americanos até chegarmos a um texto equilibrado que possa ser assinado”, afirmou.
O Kremlin, por sua vez, disse que Putin está disposto a dialogar com Trump, embora não haja nenhuma conversa agendada entre os dois líderes. No campo de batalha, entretanto, os combates seguem sem perspectiva de trégua.
Nesta terça-feira, as autoridades ucranianas relataram novos ataques russos à infraestrutura energética no sul do país. Em Kherson, mais de 45 mil moradores ficaram sem eletricidade após bombardeios. Apesar das alegações do Kremlin de que não tem como alvo esse tipo de estrutura, os danos continuam se acumulando.
Em resposta, Moscou acusou Kiev de atacar instalações energéticas em território russo, especialmente na região de Belgorod, e também em Zaporijia, área ucraniana parcialmente ocupada pelas forças russas. As autoridades militares russas também afirmaram ter conquistado novos territórios no leste da Ucrânia.
Segundo o Ministério da Defesa da Rússia, tropas capturaram a cidade de Rolziv, com cerca de mil habitantes antes da guerra. A localidade está situada próxima à região de Dnipropetrovsk, uma área no centro do país onde até então as forças russas não haviam avançado. O comunicado indicou que esse movimento representa um novo ponto estratégico conquistado por Moscou no prolongado conflito.
Com os bombardeios contínuos e a estagnação das negociações diplomáticas, o cenário permanece incerto. O cessar-fogo proposto pelos Estados Unidos e aceito por Kiev ainda não encontrou eco do lado russo. Enquanto isso, a população civil segue sendo a principal vítima da escalada de violência, e as denúncias de crimes de guerra se acumulam sem previsão de justiça efetiva.
Foto: Frederick Florin

