Ângela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.

Como os historiadores vão se referir à celebração do Bicentenário da Independência do Brasil daqui a 100 anos?

O Palácio do Planalto, a quem cabia organizar a comemoração, tentou transformá-la em comício eleitoral com vistas à reeleição de seu ocupante. O ocupante, um tal de Jair Messias Bolsonaro, sem qualquer realização para apresentar, em fim de mandato, não querendo lembrar que seu adversário nas eleições que se avizinhavam, Luiz Inácio Lula da Silva, havia conseguido transformar o país em sexta maior economia mundial, apelou.

No palanque, rodeado por militares, tendo ao lado a esposa, três presidentes – os de Portugal, Gana e Guiné-Bissau -, e o Véio da Havan, próspero empresário, investigado por suspeita de financiar atos golpistas, Jair puxou o coro de “imbroxável”.

Os futuros historiadores vão ter dificuldade para decifrar o significado da palavra, como demandará da parte deles também redobrado esforço para entender os motivos pelos quais os apoiadores do Jair, conhecidos como “gado”, se mostraram tão entusiasmados.

O fato dos representantes dos Poderes Legislativo e Judiciário terem estado ausentes da comemoração será lembrado. Uma solenidade só com o chefe “imbroxável” do “gado”, acabou deixando o Brasil com a cara de uma ditadura.

Ditadura será sinônimo de “imbroxável”, possivelmente indaguem os historiadores.

A mídia corporativa brasileira, que sempre se negou a chamar o Jair pelo que ele de fato é, um presidente de extrema-direita, neofascista, fez de tudo para diminuir o tamanho do vexame. No dia seguinte, quando normalmente têm lugar as repercussões e análises dos grandes eventos, o assunto desapareceu da mídia. Fato que dificultará o trabalho deles e os levará a consultar a mídia internacional.

Lá, encontrarão estampado, por exemplo, no Clarín, conhecido jornal da direita argentina, a caracterização do Jair como tendo feito um “discurso eleitoreiro”. O também diário conservador, El País, da Espanha, vai ajudar, ao contribuir com a manchete “Bolsonaro transforma o bicentenário da independência do Brasil em ato eleitoral”. Para os historiadores mais ranzinzas, desconfiados que pudesse se tratar de alguma rixa entre latinos, a imprensa dos Estados Unidos desfará tal hipótese.

O diário Washington Post e a CNN manchetaram que o presidente brasileiro capitalizou a data em benefício próprio, despertando na oposição o temor de que os festejos fossem usados para desacreditar o processo eleitoral. Opinião sustentada, igualmente, pela britânica Reuters, a maior agência internacional de notícias.

Mesmo o Brasil possuindo um sistema eleitoral digital avançadíssimo, considerado dos melhores do mundo, o Jair queria porque queria que o processo regredisse aos tempos do voto em papel e que a apuração fosse realizada manualmente. Da parte dele, é importante destacar, tudo foi feito para reintroduzir a velha prática da compra de votos, rebatizada sob o nome de auxílios e vouchers, distribuídos, sem maiores critérios, entre os pobres. Detalhe: muitos destes novos pobres tinham deixado esta condição no governo do Lula.

Neste ponto, talvez os historiadores do futuro entendam porque Jair temia tanto Lula. E entendam, sobretudo, porque o Brasil comemorou seu bicentenário da Independência sob “estado de emergência”.

Outras curiosidades também vão chamar a atenção de historiadores e de jornalistas da mídia internacional: o que fez o governo do Jair trazer de Portugal, o coração do colonizador para comemorar o bicentenário da Independência? Mais ainda: qual a razão de a mídia corporativa brasileira ter dado tanto destaque à morte da rainha inglesa Elizabeth II?

Será que estes jornalistas nunca ouviram falar em imperialismo inglês? Desconhecem que o Brasil foi, por tabela, colônia inglesa, uma vez que a Inglaterra era quem efetivamente mandava em Portugal? Isso sem falar na ligação direta da monarquia inglesa com uma das chagas que ainda marcam a vida brasileira: a maldita herança dos três séculos de escravidão, o racismo estrutural.

Entre 1640 e 1807, os britânicos transportaram cerca de 3,2 milhões de africanos para as Américas. O Brasil está entre os países que mais receberam escravizados. Vale ressaltar que grande parte da fortuna da família real britânica foi construída com base no trabalho escravo e na pilhagem das riquezas ao redor do mundo.

A ditadura militar de 1964 teve o apoio da monarquia inglesa. O golpe de 2016, contra a presidenta legítima Dilma Rousseff, também. Os interesses ingleses sobre nossas riquezas (pré-sal, Amazônia, minérios) constituem uma preocupante realidade.

Diante disso, qual a razão da mídia corporativa brasileira ter transformado a rainha morta em ícone, em referência, sendo que ela nunca pediu desculpas pelas atrocidades cometidas pelo Reino Unido no Brasil e em outros continentes.

Por que esta mesma mídia brasileira sempre achou que o mundo se limitava a Washington, Nova York, Londres e Paris? Justiça seja feita, ela pensava e agia assim mesmo antes do “terraplanismo” virar a referência entre o “gado”.

É muita balbúrdia o que aguarda os historiadores do futuro. Tanto que vão se deparar com uma única certeza: a maioria da população brasileira adiou para 7 de setembro de 2023, a comemoração do Bicentenário da Independência.

Haja vergonha alheia!


1 Comentário

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    Wilton, setembro 10, 2022 17:30 @ 17:30

    Brilhante texto, não apenas pelo que ele descreve, muitos o fizeram, mas, pela forma, séria e irônica; com bastante profundidade e escrito com simplicidade; denunciando crimes com bastante seriedade.
    Parabéns.

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