O Instituto de Estudos da Religião (ISER), em parceria com comunidades e organizações da sociedade civil, promoveu neste sábado (30), no Rio de Janeiro, uma edição da iniciativa “Vigílias pela Terra”. O evento ocorreu em um gramado entre a Igreja da Candelária e o Centro Cultural Banco do Brasil, dois ícones da arquitetura carioca, reunindo religiosos e cidadãos em torno de um objetivo comum: a conscientização ambiental.
A vigília ocorre em um momento simbólico. Faltando pouco mais de setenta dias para a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, a mobilização foi pensada como forma de estimular debates e fortalecer ações contra o aquecimento global. A proposta foi reunir diferentes tradições religiosas em um ato de fé, cultura e cidadania para alertar sobre a gravidade da crise climática.
A diretora-executiva do ISER, Ana Carolina Evangelista, destacou que a mobilização das religiões tem papel essencial nesse processo. “Os grupos de fé, a partir das suas vertentes, livros sagrados, crenças, são originalmente protetores da casa comum, da natureza, da Terra. É muito importante ter representantes dos grupos religiosos como aliados na proteção ambiental e na sensibilização da população”, afirmou.
Ela lembrou ainda que o contexto atual exige atenção redobrada. “A gente está falando do Brasil de 2025, do mundo de 2025, onde existem muitas forças, sejam políticas ou econômicas, contrárias à proteção ambiental”, disse.
A vigília contou com centenas de participantes, além de apresentações musicais, de dança e atividades gastronômicas. A diversidade religiosa foi ressaltada como característica central do encontro, mas a programação também foi aberta a quem não professa nenhuma fé.
A iniciativa tem caráter itinerante. A primeira vigília ocorreu em Brasília, em abril, seguida de outra em Porto Alegre, em maio. Após o Rio de Janeiro, a mobilização seguirá para Manaus e Natal, em setembro, e Recife, em outubro. O ponto alto será em Belém, no dia 13 de novembro, durante a COP30.
Segundo Evangelista, o formato descentralizado amplia o alcance da mensagem. “A gente selecionou capitais em todas as regiões exatamente para visibilizar o que as lideranças religiosas nessas capitais estão fazendo pela promoção do meio ambiente”, explicou.
Ela acrescentou que a recepção do público tem sido positiva. “As pessoas se engajam muito porque há uma ligação direta entre líderes religiosos e suas comunidades. É isso que garante proximidade e engajamento”, disse.
As vigílias inter-religiosas não são novidade. A primeira edição aconteceu em 1992, durante a Rio-92, segunda Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Na ocasião, cerca de trinta mil pessoas participaram do encontro, que contou com a presença de figuras como o Dalai Lama, Dom Helder Câmara e Mãe Beata de Iemanjá.
Esse histórico demonstra como espiritualidade e defesa ambiental têm caminhado lado a lado em momentos decisivos. Para os organizadores, retomar essa prática em 2025 é uma forma de reforçar o compromisso de fé com a Terra.
O evento de sábado também foi marcado por apresentações culturais. A integrante do grupo Danças da Paz Universal, Maria Lalla Cy Aché, participou de uma apresentação de dança meditativa. “É a nossa prática principal. A gente canta, dança e toca, tem uns músicos maravilhosos que tocam como uma forma de você espalhar energia positiva, pensamentos edificantes”, contou. Para ela, atividades como essa ajudam a repensar a sociedade. “A gente precisa repensar o mundo, um mundo mais justo, mais amoroso, mais fraterno”, completou.
O babalaô Ivanir dos Santos ressaltou que o cuidado com o meio ambiente está no centro de religiões de matriz africana. “Quando eles estão em equilíbrio, tudo vai muito bem. Quando dá um desequilíbrio, obviamente todos nós vamos sofrer. Então, as religiões que têm espiritualidade ligada a esses elementos são as primeiras preocupadas com o que acontece”, afirmou.
Para ele, eventos como a vigília trazem uma reflexão fundamental. “É justamente quando a natureza deixa de ser sagrada que passa a ser explorada. Os recursos naturais podem ser utilizados, mas apenas o que é necessário, sem ganância. Se não tem equilíbrio, nós vamos desaparecer também. Não é só a natureza”, alertou.
O babalaô, que também é conselheiro do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), destacou que a forte religiosidade brasileira amplia a relevância do movimento. “Ainda mais sendo o Brasil um país extremamente espiritualista. Não é só cristão. Todo mundo no Brasil tem fé em alguma coisa. Uma minoria não tem, mas a maioria tem fé”, afirmou.
Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmam esse cenário. Segundo o Censo de 2022, mais de noventa por cento da população brasileira possui algum tipo de crença. A maioria segue a religião católica (56,7%), seguida pelos evangélicos (26,9%). Espíritas representam 1,8%, enquanto umbanda e candomblé somam 1%.
A “Vigília pela Terra”, no Rio de Janeiro reforçou a ideia de que fé e espiritualidade podem e devem se somar às estratégias de enfrentamento da crise climática. Mais do que um ato simbólico, o evento foi entendido como um chamado para a responsabilidade coletiva em relação ao futuro do planeta.
A expectativa é de que, até a COP30 em Belém, as próximas vigílias continuem mobilizando comunidades em diferentes regiões do país, reunindo diversidade religiosa e cidadã em torno de um mesmo propósito: preservar a Terra como casa comum.
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

