O presidente da Argentina, Javier Milei, instaurou um ambiente de tensão e caça às bruxas dentro da diplomacia argentina ao exigir fidelidade irrestrita às suas ideologias pessoais. Em uma carta enviada por email no dia 18 de novembro a todos os diplomatas, Milei deixou claro que aqueles que não estiverem alinhados com suas ideias de liberdade devem “dar um passo para o lado”, uma forma de sugerir que se afastem de seus cargos.

A carta, que rapidamente se espalhou e foi revelada pela imprensa local, gerou um clima de inquietação e estresse entre os diplomatas argentinos. Muitos relatam estar preocupados com suas posições e sentem que estão pisando em terreno instável. A situação lembra a política externa ideológica implementada por Jair Bolsonaro durante seu governo no Brasil, porém, diferentemente de Bolsonaro, Milei foi direto ao cobrar lealdade explícita dos diplomatas.

As mudanças recentes na chancelaria argentina, sob o comando de Diana Mondino, têm sido notadas, incluindo maior cautela no trato com a imprensa. Muitos diplomatas passaram a evitar até mesmo conversas “off the record”, um jargão jornalístico que permite a divulgação de informações sem identificar a fonte.

Embora Mondino, que também é economista, inicialmente tenha promovido diplomatas de carreira para cargos-chave, a prática não durou muito. Em seu lugar, indicados da Casa Rosada, leais a Milei, têm sido colocados em posições estratégicas dentro do serviço diplomático.

Na carta, Milei reafirma sua oposição à Agenda 2030 da ONU, a qual ele descreve como um “programa supranacional de corte socialista” que, segundo ele, compromete a soberania dos Estados e viola direitos fundamentais, como o direito à vida, liberdade e propriedade. A crítica à Agenda 2030 reflete o alinhamento de Milei com sua base ultraliberal, especialmente em um momento de popularidade oscilante.

Durante a cúpula do Mercosul no Paraguai, a diplomacia argentina, representando Milei, vetou qualquer menção a temas como justiça social e igualdade de gênero, que até então eram amplamente aceitos. O Brasil reagiu às decisões do governo argentino, marcando um ponto de desacordo entre os países.

Milei encerra sua carta aos diplomatas afirmando que, quem não concordar com sua nova doutrina de governo, deve se retirar do cargo. Ele ainda reforça que nenhum representante da Argentina deve apoiar projetos ou declarações internacionais que violem os princípios de vida, liberdade e propriedade.

Recentemente, a Argentina foi o único país a se opor a um texto do G20, discutido em Brasília, que promovia a equidade de gênero e reconhecia as barreiras enfrentadas por mulheres e meninas na sociedade. O governo de Milei se recusou a assinar o documento, mais uma demonstração de sua postura firme contra políticas globais voltadas para justiça social.

Apesar das tensões diplomáticas, Milei confirmou sua presença na cúpula do G20, que será realizada no Rio de Janeiro em novembro. Em carta enviada ao presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, o líder argentino expressou que pretende contribuir com o encontro, mas a natureza dessa contribuição ainda gera expectativas e incertezas sobre o futuro das relações entre os dois países.

 


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