O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou nesta sexta-feira (7) que os atos de 8 de janeiro representaram uma grave agressão às instituições democráticas, mas rejeitou a classificação de tentativa de golpe de Estado.

Durante entrevista a uma emissora de rádio na Paraíba, onde cumpre agenda oficial, Motta foi questionado sobre o projeto de lei que propõe anistia aos condenados pelos ataques que depredaram os três Poderes. O parlamentar também expressou sua opinião pessoal sobre o tema.

“O que aconteceu é inaceitável e não pode se repetir. Foi uma agressão sem precedentes às instituições, algo que jamais imaginávamos ver. No entanto, classificar isso como um golpe é um exagero. Golpes exigem liderança, articulação institucional e apoio de setores estratégicos, como as Forças Armadas, o que não ocorreu”, declarou.

Motta destacou que os responsáveis pelos atos eram “vândalos e baderneiros”, inconformados com o resultado das eleições. Ele ponderou que, embora tenha sido uma manifestação violenta, as instituições reagiram de maneira firme e eficaz.

O deputado, que evitou se comprometer com a tramitação do projeto de anistia ao longo de sua campanha para a presidência da Câmara, manteve um tom equilibrado para não desagradar as duas maiores bancadas da Casa, o PT e o PL. O antecessor de Motta, Arthur Lira (PP-AL), chegou a criar uma comissão especial para debater o tema, mas a iniciativa não avançou.

Em seu discurso de posse como presidente da Câmara, Motta mencionou a palavra “democracia” 28 vezes e relembrou a icônica declaração de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição de 1988: “Tenho nojo e ódio da ditadura”.

Pesquisas do Datafolha realizadas em 2024 revelam que a maioria da população (65%) considera os atos de 8 de janeiro um ato de vandalismo, enquanto 30% classificam como uma tentativa de golpe. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes sustenta que os ataques tinham caráter golpista, enquanto setores bolsonaristas atribuem a responsabilidade exclusivamente aos manifestantes, considerando as penas aplicadas desproporcionais.

Na entrevista desta sexta, Motta demonstrou preocupação com a severidade das condenações impostas pelo STF, ainda que sem citar diretamente a Corte. Segundo ele, punir os responsáveis é essencial, mas sem excessos.

“Não é justo penalizar uma pessoa que apenas passou em frente ao Palácio sem praticar qualquer ato violento com uma pena de 17 anos em regime fechado. Há um evidente desequilíbrio nisso. Devemos punir aqueles que efetivamente depredaram o patrimônio público, mas sem exageros”, declarou o parlamentar.

Hugo Motta foi eleito presidente da Câmara no sábado (1º), com expressivos 444 votos, recebendo apoio tanto do PT de Lula quanto do PL de Bolsonaro.

Na entrevista, ele ressaltou que a discussão sobre a anistia aos condenados dos atos de 8 de janeiro precisa ser tratada com cautela, dada a sensibilidade do tema junto ao Executivo e ao Judiciário. “Não posso dizer que pautarei isso na próxima semana, tampouco posso afirmar que nunca o farei. Estamos amadurecendo o debate e dialogando. É fundamental que eu mantenha equilíbrio, pois represento diferentes setores políticos. Minha responsabilidade é garantir uma condução isenta na Câmara”, pontuou.

Ele indicou ainda que uma possível solução seria buscar um entendimento com o STF para viabilizar um acordo sobre a matéria.

A declaração de Motta foi bem recebida por setores da oposição. O deputado Zucco (PL-RS), um dos mais próximos aliados de Bolsonaro, celebrou as falas do presidente da Câmara. “Isso nos traz esperança em meio a tanto sofrimento e perseguição. Precisamos enterrar de vez essa narrativa de golpe e aprovar o projeto de anistia o mais rápido possível”, afirmou.

Ainda durante a entrevista, Motta abordou as eleições presidenciais de 2026 e disse acreditar que Lula e Bolsonaro devem se enfrentar novamente, caso o ex-presidente possa concorrer. “Não vejo uma nova liderança capaz de quebrar essa polarização”, opinou.

Bolsonaro está inelegível até 2030 por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o condenou em dois processos: um relacionado à reunião com embaixadores e outro referente aos atos do 7 de setembro de 2022. Apesar disso, o ex-presidente segue se apresentando como líder da direita e possível candidato.

Foto: Bruno Spada /Câmara dos Deputados


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