Por Marco Aurelio Carone
O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), outrora um dos pilares da política nacional, atravessa uma crise existencial que coloca em xeque sua própria sobrevivência. A legenda, que nasceu em 1988 como uma dissidência do PMDB, ironicamente, pode agora ser incorporada por sua antiga matriz, rebatizada como MDB. A movimentação ocorre em meio a uma articulação liderada pelo deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), que tem se empenhado na fusão entre os partidos como estratégia para viabilizar sua candidatura ao Senado em Minas Gerais.
Aécio, que já comandou o PSDB nacional e foi candidato à Presidência da República em 2014, busca consolidar um novo espaço político para sua sobrevivência eleitoral. Com o enfraquecimento do PSDB nos últimos anos, especialmente após as eleições de 2018 e 2022, ele tem trabalhado nos bastidores para unificar a sigla com o MDB, criando uma estrutura partidária mais robusta e com maior acesso a recursos do Fundo Partidário e ao tempo de televisão.
A fusão, porém, não é um consenso dentro do PSDB. Lideranças e o presidente do PSDB, Marconi Perillo, resistem à ideia de dissolver a legenda em prol do MDB. No entanto, Aécio Neves tem utilizado sua influência para convencer setores do partido de que a fusão é a melhor solução para manter a relevância política e viabilizar candidaturas estratégicas.
O PSDB, desde sua fundação, construiu uma identidade própria, baseando-se na social-democracia e no ideário reformista. Nos anos 1990, sob a liderança de Fernando Henrique Cardoso, a legenda comandou um amplo processo de estabilização econômica por meio do Plano Real e das privatizações. No entanto, o partido não conseguiu se renovar diante do crescimento de novas forças políticas, como o bolsonarismo, e viu sua base eleitoral minguar.
A crise tucana se agravou após as eleições de 2014, quando Aécio Neves perdeu para Dilma Rousseff (PT) em uma disputa acirrada e contestada por seu partido. A partir dali o PSDB mergulhou em um processo de fragmentação interna, agravado pelo envolvimento de lideranças em escândalos de corrupção e pelo afastamento da base popular. Em 2018, Geraldo Alckmin obteve o pior desempenho da legenda em uma disputa presidencial, ficando em quarto lugar, o que acentuou as divisões internas e a perda de protagonismo nacional.
A tentativa de fusão com o MDB reflete a falta de direção política do PSDB. O MDB, histórico adversário tucano em várias eleições, sempre operou como uma sigla de amplo espectro, abrigando diferentes correntes ideológicas. Agora, a junção das duas legendas visa não apenas criar um partido maior, mas principalmente oferecer aos políticos tucanos um caminho viável para disputas futuras.
Minas Gerais tem papel central nessa equação. O estado foi berço político de Aécio Neves, que governou Minas entre 2003 e 2010 e sempre teve forte influência na estrutura partidária local. Com a fusão, Aécio vislumbra uma candidatura ao Senado em 2026, utilizando a estrutura fortalecida do MDB para garantir apoio e tempo de televisão. Para ele, esse movimento é essencial diante da crescente concorrência de novas lideranças e da necessidade de se manter em evidência na política nacional.
Entretanto, essa estratégia também pode gerar resistência dentro do próprio MDB. Embora a legenda tenha histórico de absorver políticos de diferentes vertentes, a fusão com o PSDB levanta questionamentos sobre a identidade partidária e sobre o real impacto da entrada de tucanos na estrutura emedebista. Alguns setores do MDB temem que a entrada de Aécio e outros tucanos desloque o partido para um campo políticon poderia afastar parte do eleitorado tradicional da legenda.
Além disso, a fusão também esbarra em questões burocráticas e judiciais. A incorporação de um partido por outro envolve trâmites legais junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além da necessidade de negociação de diretórios estaduais e municipais. A redivisão de poder dentro da nova sigla pode gerar disputas acirradas entre antigos tucanos e emedebistas.
O que fica claro é que a fusão entre PSDB e MDB não é uma decisão puramente estratégica para fortalecimento partidário. Trata-se, sobretudo, de um movimento de sobrevivência de políticos que perderam espaço e buscam uma nova plataforma para suas ambições eleitorais. Aécio Neves, em particular, tem fechado questão sobre essa fusão como forma de viabilizar seu retorno ao Senado por Minas Gerais, consolidando-se novamente como uma das figuras centrais da política estadual e nacional.
Resta saber se essa fusão será suficiente para revigorar o PSDB dentro da nova estrutura do MDB ou se será apenas um último suspiro de uma legenda outrora influente. O futuro dirá se a junção dos dois partidos resultará em uma nova força política ou se apenas formalizará o ocaso do PSDB no cenário nacional.
Foto: Alexssandro Loyola

