O tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do governo Jair Bolsonaro, revelou em delação premiada detalhes sobre a atuação do chamado “gabinete do ódio”, exposto pelo Estadão em 2019. Segundo Cid, o grupo operava em uma pequena sala no terceiro andar do Palácio do Planalto, próximo ao gabinete presidencial. A sala não possuía janelas e também não contava com controle formal de entrada e saída.

O grupo era formado por três assessores diretos do ex-presidente: Tércio Arnaud Tomaz, José Mateus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz. Eles eram responsáveis pela estratégia digital de Bolsonaro e atuavam sob a coordenação do vereador Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente. Cid afirmou que Carlos “ditava o que eles teriam que colocar, falar” nas redes sociais presidenciais, influenciando diretamente na narrativa digital do governo.

A atuação do grupo envolvia o monitoramento constante das redes sociais para direcionar estratégias de engajamento e ataques a adversários políticos. Eles publicavam conteúdos que geravam maior repercussão, além de estabelecer contatos com influenciadores para amplificar suas mensagens.

A influência do gabinete do ódio sobre Bolsonaro era significativa. Cid relatou que “eles brigavam com o ex-presidente porque o presidente publicava coisas que eles não queriam”, e Carlos Bolsonaro não aceitava que as redes sociais presidenciais tivessem um tom burocrático ou institucional. Esse conflito gerava tensões internas na família Bolsonaro, especialmente com o senador Flávio Bolsonaro, que discordava da estratégia agressiva adotada pelo grupo.

Apesar do peso dentro da comunicação presidencial, Cid afirmou desconhecer os detalhes das postagens e das estratégias de descredibilização de adversários. No entanto, ele confirmou que Bolsonaro sempre demonstrou desconfiança em relação ao sistema eletrônico de votação e defendia a implementação de uma impressora acoplada às urnas eletrônicas.

A delação também abordou a disseminação de notícias falsas. Cid afirmou que Bolsonaro encaminhava mensagens a seus contatos, incluindo conteúdos falsos relacionados a empresários e ataques contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Essas mensagens, segundo as investigações, partiram do telefone do ex-presidente, o que reforça as suspeitas sobre seu envolvimento direto na propagação de desinformação.

O depoimento de Cid reforça as suspeitas sobre o papel do gabinete do ódio na comunicação e estratégia digital do governo Bolsonaro. A existência desse grupo e sua influência dentro do Palácio do Planalto eram fatores de divisão dentro do clã Bolsonaro, revelando disputas internas sobre a condução da comunicação presidencial.

Foto: Arquivo/Agência Brasil

 


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