A oposição no Congresso, formada por senadores e deputados federais aliados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), minimizou a declaração do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), sobre a anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro. Mesmo após o senador afirmar que o tema não está em discussão, os bolsonaristas seguem mobilizados para pressionar o Legislativo a pautar o projeto.
Alcolumbre se posicionou contra a anistia na última quarta-feira (20), logo após a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciar Bolsonaro sob acusação de tentativa de golpe. Para o senador, a anistia não faz parte das prioridades do país. “Isso [anistia] não é um assunto que estamos debatendo. Quando falamos sobre isso a todo instante, dividimos a sociedade em um tema que não interessa aos brasileiros”, declarou.
Apesar do recado, a fala de Alcolumbre não gerou reações hostis dentro da oposição. Um senador do PL, que pediu anonimato, afirmou que a declaração não altera a estratégia do partido. Para ele, o presidente do Senado não será um fiador da proposta, mas também não deve barrar sua tramitação futuramente.
Os opositores já haviam descartado a possibilidade de iniciar a votação do projeto pelo Senado, reconhecendo o ambiente desfavorável na Casa. A estratégia é concentrar os esforços na Câmara dos Deputados, onde acreditam que o tema pode ganhar força com a pressão popular.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RS), declarou que não está preocupado com o Senado no momento. Para ele, a declaração de Alcolumbre foi um gesto para agradar ao governo. “O Davi é artista. Meu amigo pessoal”, disse. Segundo Cavalcante, a oposição se concentrará em aprovar a anistia na Câmara antes de levar a pauta ao Senado. “Ele pode falar o que quiser. Na hora em que eu aprovar aqui, vamos ver o que acontece do outro lado [Senado]”, afirmou, ressaltando que a decisão de colocar o projeto em votação cabe ao colégio de líderes e não apenas ao presidente da Casa.
Além da mobilização na Câmara, a oposição pretende explorar a Comissão de Direitos Humanos do Senado como uma plataforma para impulsionar o tema. O ex-presidente Jair Bolsonaro já teria discutido essa estratégia com a nova presidente do colegiado, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que integrou seu governo como ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos.
Damares, por sua vez, manifestou a intenção de promover audiências públicas para discutir a anistia, convocando familiares de presos e advogados para participarem dos debates. Também sinalizou a possibilidade de visitas ao sistema penitenciário, em uma tentativa de humanizar a narrativa em torno dos detidos.
Um dos casos que se tornou símbolo da mobilização da oposição é o do caminhoneiro Ezequiel Ferreira Luis, condenado a 14 anos de prisão e foragido da Justiça desde o ano passado. Parlamentares têm utilizado sua história como argumento para pressionar o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a pautar a anistia.
Na semana passada, deputados levaram a esposa de Ezequiel, Vanessa Vieira, e seus filhos à Câmara para pedir “misericórdia” a Motta. “Ele foi condenado a 14 anos, mas não cometeu nenhum crime”, declarou a mulher.
No campo governista, a avaliação é de que a fala de Alcolumbre serviu para frear o ímpeto da oposição e reforçar a posição de que o tema não tem espaço no Congresso. Senadores aliados ao presidente Lula (PT) afirmam categoricamente que o projeto não será aprovado nesta legislatura. Um parlamentar ouvido pela reportagem ressaltou que não foi Alcolumbre quem enterrou a anistia, mas sim as novas provas que surgiram sobre a trama golpista.
Assessores próximos a Alcolumbre dizem que o senador pretende manter o foco em pautas que tragam benefícios concretos para a população, evitando embates sobre temas polêmicos. O próprio presidente do Senado reforçou esse compromisso ao abrir a primeira sessão plenária pós-eleição, defendendo a união e um ambiente político mais moderado.
Na Câmara, a declaração de Alcolumbre gerou reações divergentes. Enquanto deputados alinhados ao governo utilizaram o discurso para enfraquecer a articulação da oposição, setores mais radicais da direita criticaram a postura do senador e alertaram para o risco de confiar no grupo que negocia com o centrão.
O deputado Bibo Nunes (PL-RS), por exemplo, questionou a fala do presidente do Senado. “Se a anistia de 8 de janeiro não faz parte do Brasil, o que é o mundo para ele?”, ironizou. Nunes também é autor de um projeto de lei que altera a Lei da Ficha Limpa, visando reverter a inelegibilidade de Bolsonaro.
Bolsonaro, por sua vez, voltou a defender a anistia em uma recente visita ao Senado, poucos dias antes de ser denunciado pela PGR. Ele afirmou acreditar que a proposta já possui apoio suficiente para ser aprovada na Câmara e destacou a necessidade de enfraquecer a Ficha Limpa como parte dessa estratégia.
Enquanto a oposição intensifica a mobilização, o governo e seus aliados buscam consolidar um cenário desfavorável ao avanço da proposta. No entanto, com a pressão constante de parlamentares bolsonaristas e a forte base de apoio do ex-presidente nas redes sociais, o debate sobre a anistia dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro deve continuar pautando o cenário político nos próximos meses.
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

