As conversas entre o PSDB e o Podemos ganharam novo fôlego após o recuo dos tucanos em relação à incorporação ao PSD. Inicialmente, a absorção pelo partido de Gilberto Kassab era tratada como um caminho natural, mas a forte resistência de lideranças históricas do PSDB e de deputados federais, como Aécio Neves, forçou uma reconsideração da estratégia. O temor de que a legenda desaparecesse do cenário político, somado à insatisfação com a falta de concessões programáticas por parte do PSD, levou o partido a buscar uma alternativa mais equilibrada.
A decisão de desistir da incorporação ao PSD pode impactar diretamente figuras importantes dentro do PSDB. A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, já sinalizou interesse em se filiar ao partido de Kassab para fortalecer seus laços com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O governador do Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, ainda avalia seus próximos passos, mas também demonstra simpatia pelo PSD.
Enquanto isso, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, adota uma postura mais cautelosa. Ele não descarta a fusão com o Podemos, mas também mantém as portas abertas para um eventual acordo com o PSD. “Os novos tempos da política brasileira exigem que o PSDB discuta a formação de um novo partido, somando forças com outras siglas para fortalecer um campo democrático alternativo à polarização radicalizada”, afirma Leite. Segundo ele, o formato jurídico da união ainda será ajustado, podendo ser fusão ou incorporação, mas sem abrir mão da participação ativa na construção de um programa partidário sólido.
A fusão com o Podemos conta com o respaldo de lideranças como Marconi Perillo, presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, o deputado federal Beto Richa (PSDB-PR) e o ex-senador José Aníbal. A nova sigla, caso a fusão se concretize, deve adotar o nome “PSDB-Podemos”. “Estamos confiantes de que a fusão será bem-sucedida e garantirá a permanência da sigla”, afirma Aníbal. Ele também destaca que o Podemos tem lideranças promissoras, como a vereadora Ana Carolina Oliveira, a segunda mais votada de São Paulo em 2024. Para Beto Richa, as tratativas com o Podemos são as que mais avançaram até o momento.
O Podemos surge como a opção mais viável para o PSDB, pois, além da afinidade programática e ideológica, permitiria ao partido superar a cláusula de barreira na próxima eleição. Embora algumas lideranças defendam uma fusão com o PSD ou o MDB, os tucanos fundadores preferem preservar a identidade do PSDB. Para os articuladores, o Podemos representa uma alternativa mais promissora, garantindo a sobrevivência da legenda no médio prazo.
No campo do Podemos, há entusiasmo quanto à fusão. Integrantes do partido destacam que ambas as siglas sempre tiveram protagonismo no cenário nacional, e que as diferenças regionais são pontuais. No entanto, um dos pontos mais sensíveis nas negociações é a definição da liderança do novo partido. Há divergências sobre se o comando ficará com a deputada Renata Abreu, atual presidente do Podemos, ou com um representante do PSDB. Marconi Perillo, por exemplo, tem aspirações para concorrer ao governo de Goiás e pode não estar disponível para liderar a nova legenda.
Uma análise encomendada pelo Podemos aponta que a fusão resultaria na criação do sétimo maior partido do país, com um Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) estimado em R$ 380 milhões. Esse valor posicionaria a sigla à frente do Republicanos. Além disso, o fundo partidário alcançaria R$ 90 milhões, ultrapassando PSD, Republicanos e MDB. A pesquisa também indica que a nova legenda se tornaria a quinta maior força nas Câmaras Municipais, reunindo cerca de 400 prefeitos, superando PT, PSB e PDT, e governando municípios que representam um total de 16 milhões de habitantes.
Outro fator que torna a fusão com o Podemos atrativa para o PSDB é a possibilidade de lançar uma candidatura própria à Presidência da República em 2026. O partido de Renata Abreu tem demonstrado disposição para essa estratégia, o que coincide com as aspirações de Eduardo Leite de disputar o Planalto. Além disso, o Podemos não está fortemente alinhado nem ao governo Lula nem ao bolsonarismo, permitindo que a nova legenda se apresente como uma alternativa à polarização política.
Aécio Neves, um dos principais articuladores da fusão, declarou recentemente que as conversas com o Podemos são “animadoras” e que há uma complementaridade entre as duas siglas. “O Podemos se mostra disposto a fortalecer um projeto de centro, o que vejo com simpatia”, afirmou. Tucanos próximos ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também consideram a fusão um passo importante para a reconstrução do PSDB e um caminho para negociações futuras com siglas maiores, como PSD e MDB. O cenário ideal para os tucanos seria uma fusão ampliada, incluindo partidos menores como Solidariedade e Cidadania, mas essa possibilidade ainda enfrenta desafios políticos e jurídicos.
A Executiva Nacional do Cidadania, aliás, decidiu recentemente não renovar a federação com o PSDB, o que evidencia o desgaste da parceria entre as duas legendas. A decisão ainda será submetida ao Diretório Nacional, mas, nos bastidores, a principal queixa do Cidadania é a falta de espaço dentro da federação, já que o PSDB tem predominado nas decisões.
Além do Podemos, o PSDB mantém diálogos com o MDB. Na última quinta-feira (20), o presidente do MDB, deputado federal Baleia Rossi (SP), e o ex-presidente Michel Temer (MDB) se reuniram com Aécio Neves para discutir uma possível reaproximação entre os partidos. No entanto, líderes tucanos avaliam que um acordo com o MDB é improvável no curto prazo.
Do ponto de vista jurídico, a fusão entre partidos ocorre quando duas ou mais legendas se unem para formar um novo partido. Esse processo envolve a elaboração de um novo estatuto e programa partidário, que precisam ser aprovados pelos órgãos de direção nacional das siglas envolvidas. Após essa etapa, uma nova direção é eleita e responsável pelo registro da nova legenda junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A incorporação, por sua vez, tem um formato diferente. Nesse caso, um partido decide adotar o estatuto e o programa de outro partido, sendo absorvido por ele. Com isso, a sigla incorporada deixa de existir, enquanto a sigla incorporadora permanece com sua estrutura. Esse modelo foi cogitado na negociação entre PSDB e PSD, mas a resistência interna dos tucanos inviabilizou o avanço dessa alternativa.
Um dos riscos da fusão entre PSDB e Podemos é a possibilidade de desfiliação em massa de parlamentares. O TSE consolidou, entre 2022 e 2023, o entendimento de que a fusão entre partidos políticos caracteriza mudança substancial no programa partidário. Isso significa que parlamentares insatisfeitos com a nova configuração teriam justa causa para trocar de sigla sem perder o mandato. Líderes tucanos consideram esse fator um desafio, mas acreditam que, ao fortalecer a identidade do novo partido, será possível evitar grandes perdas.
Diante desse cenário, a fusão com o Podemos se consolida como a alternativa mais viável para o PSDB no curto prazo. A decisão final, no entanto, dependerá das negociações sobre a liderança da nova legenda e da aceitação do projeto pelas bases partidárias. Caso a fusão seja formalizada, o novo partido poderá emergir como uma força relevante para a disputa de 2026.
Foto: Gerdan Wesley

