O deputado Rui Falcão (PT-SP) lançou, nesta quarta-feira (12), uma carta direcionada às bases do partido, sinalizando sua possível candidatura para disputar o comando do PT contra o ex-prefeito de Araraquara, Edinho Silva. O nome de Edinho é visto como o favorito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir a liderança da legenda. No entanto, o movimento de Falcão sugere que a disputa interna pode ser mais acirrada do que o esperado.

No texto, Falcão reforça sua identidade com as correntes mais à esquerda do partido, que podem se unir em torno de sua candidatura. Ele faz elogios à atuação da ex-presidente do PT, Gleisi Hoffmann, destacando sua coragem na resistência à extrema direita e seu papel no fortalecimento da esquerda dentro do governo.

“A companheira Gleisi Hoffmann, ao me suceder na presidência do PT, a partir de 2017, conduziu com coragem a resistência à extrema direita e a preparação de nosso partido para a sucessão presidencial de 2022. Após a vitória, sempre foi uma referência no enfrentamento ao reacionarismo e no fortalecimento da esquerda dentro do próprio governo”, escreveu Falcão.

O deputado defende que o partido assuma uma posição explicitamente antissistema, contrapondo-se à ordem estabelecida pelo que chama de “bilionários”. “Não pode haver dúvidas de que somente a esquerda e seu maior partido, o PT, expressam uma alternativa estruturalmente antissistema, que proponha a transformação radical da economia, da sociedade e do Estado”, afirmou.

Além disso, Falcão criticou uma possível guinada do PT ao centro e condenou o discurso de “despolarização”, argumentando que essa estratégia pode enfraquecer o partido. “Nosso partido deve rechaçar os apelos à despolarização, palavra da moda que significa levar-nos a uma transição efetiva para o centro, com um forte rebaixamento ideológico, programático e organizacional”, afirmou.

A candidatura de Falcão surge como um contraponto à liderança de Edinho Silva, que conta com o apoio da corrente majoritária Construindo um Novo Brasil (CNB). Falcão, que presidiu o PT entre 2011 e 2017, pertencia à mesma corrente, mas hoje está ligado à Novo Rumo, uma ala minoritária do partido. A expectativa é que ele atraia o apoio de correntes de esquerda insatisfeitas com o favoritismo de Edinho.

A disputa interna ficou evidente após o vazamento de conversas ocorridas durante um encontro na semana passada, no apartamento da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. No evento, Lula foi pressionado a não apoiar Edinho, sob o argumento de que o ex-prefeito de Araraquara não teria apoio integral da CNB.

Atualmente, o PT é presidido interinamente pelo senador Humberto Costa (PT-PE), que assumiu o cargo temporariamente após a saída de Gleisi para compor o governo federal. Edinho, embora seja o nome preferido de Lula, enfrenta resistência dentro de setores do partido, inclusive da Democracia Socialista (DS), uma das principais correntes de esquerda do PT.

Na última terça-feira (11), Gleisi Hoffmann e Edinho tiveram uma reunião para tentar amenizar os ânimos e minimizar a crise interna. A ministra já manifestou a defesa de um nome do Nordeste para a presidência do partido, o que também poderia impactar as articulações para a sucessão interna.

Após o encontro, a CNB divulgou uma nota pedindo unidade partidária, o que foi interpretado de formas distintas pelos aliados dos dois principais candidatos. Para os apoiadores de Edinho, o comunicado foi visto como um pedido para que ele trabalhe na superação das resistências à sua candidatura. Já seus adversários enxergaram a nota como uma tentativa de impor um nome sem amplo respaldo interno.

A crise se intensificou no último domingo, quando Edinho, durante um evento em Matão, no interior de São Paulo, manifestou indignação com o vazamento das conversas sobre a disputa interna. O ex-prefeito declarou estar “indignado com o que aconteceu, da forma como aconteceu”, elevando a temperatura dentro do partido.

Enquanto isso, o vice-presidente do PT, Washington Quaquá, que integra a ala contrária à candidatura de Edinho, afirmou à colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, que Lula ainda não declarou apoio oficial ao ex-prefeito de Araraquara. “Eu acho que quando o presidente Lula quer alguém, ele fala. Ninguém ouviu do Lula essa defesa do Edinho até agora”, disse Quaquá. “O Edinho usa um pretenso apoio para impor uma candidatura que não tem apoio da base, nem do comando dos principais estados.”

A eleição interna do PT está marcada para 6 de julho, e os próximos meses devem ser de intensa articulação entre as correntes do partido. Falcão aposta no apoio das alas mais à esquerda para viabilizar sua candidatura e impedir que a CNB imponha um nome sem consenso. Já Edinho trabalha para consolidar seu favoritismo e neutralizar a resistência interna, contando com a simpatia de Lula.

Independentemente do resultado, o desfecho dessa disputa será crucial para definir os rumos do PT nos próximos anos, especialmente em relação às eleições presidenciais de 2026. O partido precisa equilibrar sua posição entre a governabilidade e a manutenção de sua identidade ideológica, evitando tanto uma guinada ao centro que desagrade sua base histórica quanto um isolamento político que comprometa sua capacidade de formar alianças.

A movimentação de Rui Falcão e a resistência a Edinho demonstram que o PT segue dividido sobre sua estratégia futura. Enquanto uma ala defende um alinhamento mais pragmático com o governo Lula, outra insiste na necessidade de manter uma postura combativa e ideológica. A decisão que será tomada em julho não apenas definirá o próximo presidente do PT, mas também indicará os rumos que o partido adotará nos próximos anos.

Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados


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