O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) reuniu milhares de apoiadores em Copacabana, no Rio de Janeiro, neste domingo (16), em um ato voltado à defesa da anistia para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro de 2023. A manifestação, que já vinha sendo articulada há semanas, serviu para reafirmar sua influência política e pressionar parlamentares a votar o projeto que tramita na Câmara dos Deputados.

O evento teve forte adesão de líderes políticos aliados, incluindo os governadores Cláudio Castro (PL-RJ), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jorginho Mello (PL-SC), além de parlamentares como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O pastor Silas Malafaia, um dos principais organizadores do ato, também discursou, reforçando a tese de que os condenados são vítimas de perseguição política.

Apesar de esperanças iniciais de atrair um milhão de manifestantes, estimativas apontam que cerca de 18.300 pessoas estiveram presentes. Esse número ficou abaixo da expectativa de Bolsonaro, mas ainda assim evidenciou a capacidade de mobilização do ex-presidente.

A principal pauta do ato foi a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, com Bolsonaro evitando ataques diretos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e concentrando esforços na pressão sobre o Congresso. Em seu discurso, o ex-presidente defendeu que os manifestantes condenados são “reféns” de um sistema que, segundo ele, estaria criminalizando a liberdade de expressão.

“Essas senhoras têm força para quebrar alguma coisa? Essas senhoras, foi encontrada alguma arma com alguém no dia 8 de janeiro?”, questionou Bolsonaro, referindo-se a algumas das presas pelos atos golpistas.

O ex-presidente e seus aliados miram na articulação de parlamentares do centrão para garantir a tramitação da proposta de anistia. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), já indicou que o projeto poderá ser votado caso haja apoio da maioria dos deputados. Entre os partidos que demonstram simpatia à ideia estão Republicanos, PSD, União Brasil e PP.

O evento foi realizado poucos dias antes do Supremo Tribunal Federal (STF) julgar se aceita a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Bolsonaro e outros 33 investigados por tentativa de golpe após as eleições de 2022. A movimentação é vista como uma estratégia para demonstrar força política e mobilizar sua base diante do avanço das investigações.

A anistia aos condenados por envolvimento no 8 de janeiro é uma bandeira fundamental para Bolsonaro, pois além de proteger seus apoiadores, pode abrir caminho para uma futura revisão de sua própria inelegibilidade. Condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em dois processos, o ex-presidente está impedido de disputar eleições até 2030, mas insiste em se apresentar como candidato à Presidência em 2026, apostando numa eventual reversão judicial.

Embora tenha contado com apoio de governadores e parlamentares próximos, o evento registrou ausências notáveis. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), não compareceu, reforçando sua postura de distanciamento em relação a Bolsonaro. Nos bastidores, Zema busca viabilizar sua candidatura presidencial em 2026 e tenta atrair apoio do eleitorado bolsonarista sem se comprometer totalmente com o ex-presidente.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que estava prevista na programação, também não discursou. Ela se recupera de uma cirurgia e, segundo aliados, ainda não está liberada para eventos de grande porte.

Bolsonaro já anunciou um novo ato para o dia 6 de abril na Avenida Paulista, em São Paulo, com o mesmo foco na anistia. A mobilização contínua busca manter a pressão sobre o Congresso e testar sua capacidade de mobilização popular diante das investigações que enfrenta.

O evento em Copacabana mostrou que Bolsonaro ainda possui capacidade de atrair um número significativo de apoiadores, mas também evidenciou desafios. O público presente ficou abaixo de manifestações anteriores, e lideranças do centrão, embora abertas ao debate sobre a anistia, evitam um compromisso formal.

Além disso, o impacto político da manifestação dependerá da receptividade dos parlamentares e do desenrolar das investigações no STF. A estratégia de Bolsonaro de priorizar a anistia sobre ataques diretos a Lula reflete uma tentativa de ampliar sua base de apoio dentro do Congresso, mas ainda há incertezas sobre sua eficácia.

Se a denúncia da PGR for aceita pelo STF, Bolsonaro poderá enfrentar uma escalada jurídica mais complexa, o que pode comprometer sua capacidade de articulação política. A manifestação serviu como um termômetro de sua força política e indicou que, apesar das dificuldades, o ex-presidente ainda busca protagonismo no cenário nacional.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


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