O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realizou, nesta sexta-feira (04/04), uma visita simbólica e histórica à aldeia Piaraçu, localizada na Terra Indígena Capoto/Jarina, no estado de Mato Grosso. O encontro com o cacique Raoni Metuktire, uma das maiores lideranças indígenas do mundo, teve forte carga simbólica, política e ambiental. Em um dos momentos mais marcantes da viagem, Lula declarou: “Não existe na Terra nenhum homem mais representativo do que Raoni”, ao condecorar o cacique com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito.

Raoni, que integrou a cerimônia de posse de Lula em janeiro de 2023, foi um dos oito cidadãos brasileiros escolhidos para subir a rampa do Palácio do Planalto ao lado do presidente. A visita desta sexta-feira teve início com uma reunião reservada entre os dois líderes e, por volta das 13h30, seguiu para a solenidade oficial de entrega da condecoração. Em retribuição, Raoni presenteou Lula com um colar de conchas, tradicionalmente usado em rituais kayapós.

É um encontro histórico, que marca a reunião de duas grandes lideranças globais”, afirmou Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas. “Hoje, o presidente Lula vem subir a rampa na terra do cacique Raoni.” A visita contou com a presença da primeira-dama Janja, da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, da ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, da ministra da Cultura, Margareth Menezes, e do ministro da Agricultura, Carlos Fávaro.

Durante o evento, Raoni fez um discurso contundente, alertando Lula sobre os riscos da exploração de petróleo na Foz do Amazonas. “O senhor está pensando no petróleo que está debaixo do mar, mas eu penso que não [deve ser assim]”, declarou, em kayapó. “Essas coisas, como estão, garantem que tenhamos o meio ambiente e a Terra com menos poluição e menos aquecimento.” O cacique também advertiu sobre os riscos de repetir erros do passado, como o caso da hidrelétrica de Belo Monte.

Raoni ainda pediu que Lula reflita sobre a sucessão presidencial e considere apoiar um nome que esteja alinhado com a pauta indígena. “Não quero que entremos em contradição, mas que façamos um trabalho que beneficie os povos indígenas do Brasil. Fiz uma cobrança para que ele não repita erros da gestão anterior”, declarou.

Entre os pontos discutidos, Raoni também reivindicou a redefinição dos limites da Terra Indígena Capoto/Jarina. Segundo ele, é necessário garantir a proteção do território para as futuras gerações. “Estou cobrando para que ele faça uma limpeza, um novo limite, para que nossos filhos e netos possam usufruir desta terra”, disse.

Lula, por sua vez, exaltou a importância da liderança de Raoni e da visita. “Já viajei muito pelo mundo, já estive com os presidentes mais importantes do planeta, mas nenhum encontro é mais importante do que este que estou vivendo agora com os povos do Xingu”, declarou o presidente. “Não existe nenhum presidente, nenhum rei, mais representativo do que Raoni.”

O presidente disse ainda que o momento era de escuta e respeito. “Sem a proteção dos povos indígenas, a proteção das florestas e dos rios, a crise climática traria eventos ainda mais extremos, de secas e inundações para toda a população brasileira, sem exceção”, afirmou Lula. Ele reforçou que zerar o desmatamento até 2030 é uma meta inegociável de seu governo, e que os povos indígenas são centrais para esse objetivo.

Participaram do evento também lideranças indígenas de diversas regiões da bacia do rio Xingu. A comitiva presidencial estava prevista para deixar o local às 19h50, com destino a São Paulo. Durante a cerimônia, lideranças locais entregaram uma carta a Lula contendo uma série de reivindicações sobre a proteção ambiental e territorial.

O documento foi assinado por 48 comunidades indígenas e ribeirinhas, além de cinco organizações da sociedade civil que atuam na bacia do Xingu. Entre os principais pedidos estão a intensificação da demarcação de terras, medidas urgentes para conter o avanço do garimpo ilegal e da exploração agropecuária nos entornos da TI Capoto/Jarina, além do reforço na fiscalização contra desmatamento e queimadas.

A TI Capoto/Jarina é considerada um exemplo de conservação ambiental, com apenas 0,15% de seu território desmatado entre 2008 e 2024, segundo dados oficiais. Esse número contrasta com os cerca de 33 mil km² de áreas desmatadas em outras regiões de Mato Grosso entre janeiro e outubro de 2024, conforme dados do Imazon. O aumento em relação a 2017 foi de 187%.

A carta entregue a Lula também denuncia o crescimento alarmante das queimadas. De 2023 a 2024, houve um aumento de 353% nos focos de incêndio na bacia do Xingu. Especificamente na Terra Indígena do Xingu, a elevação foi de 124%. Já a TI Kayapó, outra área emblemática, registrou um salto de 1.886% em áreas atingidas pelo fogo.

Raoni, que há décadas atua como defensor dos direitos indígenas, já protagonizou outros embates com governos. Durante o primeiro mandato de Lula, em 2003, o cacique posicionou-se contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Apesar da resistência, o projeto avançou e foi concluído no governo Dilma Rousseff, em 2011. Em 2023, Raoni organizou o evento “Chamado do Cacique Raoni”, que reuniu mais de 700 pessoas para discutir o marco temporal. Lula, recém-operado do quadril, não compareceu — e, na mesma semana, foi visto em uma festa do senador Randolfe Rodrigues, o que gerou desconforto entre lideranças indígenas.

Em entrevistas recentes, o cacique voltou a criticar o governo por projetos como a exploração da Bacia da Foz do Amazonas e a construção da Ferrogrão, ferrovia prevista para ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA). Para Raoni, esses empreendimentos ignoram os impactos socioambientais sobre os povos originários.

Apesar das críticas, Raoni reconheceu avanços desde o fim do governo Bolsonaro. Em setembro de 2024, afirmou que “muitas coisas melhoraram” sob a gestão petista, embora tenha reiterado que a demarcação de terras ainda precisa ser acelerada. Em outubro, o cacique foi a Brasília na tentativa de uma audiência com Lula. Sem agenda prévia, esperou por cerca de 20 minutos no Planalto antes de ser informado que o encontro não ocorreria.

Raoni Metuktire nasceu na década de 1930, na aldeia Krajmopyjakare, em Mato Grosso. Filho do povo kayapó, passou boa parte da juventude vivendo como nômade. Em 1954, teve o primeiro contato com o português e, desde então, passou a atuar em defesa da floresta e das culturas indígenas.

Ao longo da vida, acumulou conquistas históricas. Em 1984, conseguiu a demarcação de 15 km de terras indígenas após negociação com o então ministro do Interior, Mário Andreazza. Em 1988, participou da Assembleia Constituinte, mobilizando dezenas de kayapós para pressionar pela inclusão de direitos indígenas na Constituição.

Raoni recebeu prêmios e títulos em reconhecimento à sua luta. Em 2021, foi nomeado Membro Honorário da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Em 2025, recebeu o título de cavaleiro da Legião de Honra da França. Em 2020, seu nome foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

A visita de Lula ocorre dias após outro momento de destaque para o cacique: a presença da atriz Angelina Jolie na aldeia Piaraçu, na quarta-feira (02/04). A estrela de Hollywood viajou até o local com o apoio da ONG Re:wild, ligada ao ator Leonardo DiCaprio. Embora o motivo oficial da visita não tenha sido divulgado, imagens de Jolie ao lado de Raoni circularam nas redes sociais, reacendendo a visibilidade internacional da causa indígena brasileira.

Foto: Ricardo Stuckert / PR


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