Durante a recente missão presidencial ao Japão e ao Vietnã, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), foi alocado em uma área nobre do avião presidencial, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Já o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, ocupou uma poltrona nos fundos. A distância física refletia também a distância política entre os dois, cuja relação tem se deteriorado diante de uma disputa por influência em órgãos reguladores importantes para o setor de infraestrutura.
Alcolumbre tem pressionado o governo por indicações em agências como a de Petróleo e Gás (ANP), a de Aviação Civil (Anac) e a de Energia Elétrica (Aneel), cujas diretorias estão, em parte, ocupadas por nomes interinos. Esses cargos são de alto interesse do senador, especialmente por seu impacto em projetos estratégicos como a exploração da Margem Equatorial, área rica em petróleo e que pode beneficiar diretamente seu estado, o Amapá. O tema é tão relevante para ele que levou a discussão diretamente à ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann.
A disputa com Silveira ocorre porque as agências desejadas por Alcolumbre são, em grande parte, ligadas à pasta de Minas e Energia, comandada pelo ministro. Ambos querem ter a palavra final sobre os nomes que vão dirigir esses órgãos. A tensão chegou a tal ponto que Silveira hesitou em integrar a comitiva internacional de Lula, alegando compromissos no Brasil. Mesmo convencido pelo presidente a embarcar, o clima com Alcolumbre se manteve frio durante toda a viagem.
Desde o governo Bolsonaro, vigora um acordo informal que transfere ao Congresso a prerrogativa de indicar nomes para essas agências. Lula, embora mantenha a decisão final, tem respeitado essa dinâmica. Alcolumbre já conseguiu emplacar indicações anteriores — algumas delas de membros de sua própria família.
Entre os nomes já negociados está o de Arthur Watt Netto, apadrinhado por Otto Alencar (PSD-BA) para a ANP, e Guilherme Sampaio, que pode assumir a direção-geral da ANTT. Outros nomes ainda estão em discussão, e Alcolumbre prefere fechar todas as indicações com o governo antes de enviá-las à Comissão de Infraestrutura.
O presidente do Senado é peça-chave para Lula no avanço de pautas estratégicas. Por isso, o Planalto vê como essencial a costura de um acordo com ele. A demora, no entanto, tem causado desconforto generalizado no Congresso. O senador Marcos Rogério (PL-RO), presidente da Comissão de Infraestrutura, afirmou que a indefinição compromete o funcionamento das agências reguladoras. “Elas estão enfraquecidas. Algumas são comandadas por interinos que sequer pertencem ao quadro técnico. Isso reduz a independência e a autoridade dessas instituições”, declarou.
Familiares de Alcolumbre ocupam cargos em diferentes esferas do poder público. Josiel, irmão do senador, preside o Sebrae no Amapá desde 2022, cargo obtido por eleição, mas influenciado por articulações políticas. Outro parente, Aharon Alcolumbre, é diretor da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, comandado por Waldez Goés, aliado político do senador. Já Max Alcolumbre, também primo, comanda a divisão estadual da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).
Procurados pela imprensa, os envolvidos minimizaram as indicações. Max disse ser médico concursado e negou qualquer influência de Alcolumbre em sua nomeação. Josiel, por sua vez, afirmou ter vencido uma eleição interna “disputadíssima” no Sebrae. Os demais citados preferiram não se pronunciar.
Enquanto Lula tenta equilibrar os interesses internos para garantir estabilidade política, a disputa entre Alcolumbre e Silveira se transforma em um teste delicado de articulação, com impacto direto sobre a governabilidade e a efetividade das agências reguladoras em áreas-chave da economia brasileira.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

