Com a maior bancada da Câmara dos Deputados, o Partido Liberal (PL) enfrenta uma série de disputas internas que expõem um racha cada vez mais visível entre os aliados de Valdemar Costa Neto, presidente da sigla, e os integrantes do grupo mais fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro, conhecido como “bolsonarismo raiz”. A tensão entre as duas alas vem se manifestando em temas cruciais, como a proposta de anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro e a distribuição de cargos no Congresso.
A mais recente divergência foi evidenciada com a divulgação da lista de assinaturas do requerimento de urgência para o projeto de lei que propõe a anistia. Apesar da iniciativa contar com o apoio de 262 deputados — cinco a mais que o mínimo necessário —, quatro dos 93 parlamentares do PL se recusaram a assinar. Um deles foi o deputado Antônio Carlos Rodrigues (SP), cuja abstenção foi autorizada pelo próprio Valdemar, gerando insatisfação entre os bolsonaristas.
Embora episódios de desacordo não sejam novidade na legenda, a frequência e intensidade das disputas têm crescido. A cada nova votação relevante ou definição de cargos estratégicos no Legislativo, o embate entre os grupos se intensifica. Segundo lideranças do partido, a ala mais próxima de Valdemar é composta por cerca de 25 parlamentares, que buscam preservar autonomia e evitar a submissão completa à agenda bolsonarista.
Um exemplo emblemático da disputa ocorreu na escolha do presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara. O deputado bolsonarista Paulo Bilynskyj (PL-SP) foi eleito para o cargo, enfrentando a resistência do colega Coronel Meira (PL-PE), que tentou lançar candidatura à revelia da orientação da liderança. Embora a presidência da comissão estivesse assegurada ao PL, a disputa entre os dois parlamentares quase inviabilizou a unidade partidária no colegiado. Meira só desistiu minutos antes da instalação da comissão, após forte pressão interna.
As rusgas também se estendem ao campo organizacional e financeiro. Parlamentares próximos a Bolsonaro reclamam da ausência de apoio da ala de Valdemar para os atos em defesa do ex-presidente nos estados. Uma das críticas frequentes diz respeito ao rateio de despesas, como a contratação de carros de som e a organização de eventos. Deputados mais alinhados a Valdemar demonstram resistência em participar ou contribuir financeiramente com essas mobilizações, gerando mal-estar entre os correligionários.
Além disso, a divisão interna do partido se reflete em votações legislativas. Questões como a taxação de compras internacionais de até cinquenta dólares — apelidada de “taxa das blusinhas” — e o reajuste salarial para servidores públicos federais já geraram posicionamentos divergentes dentro da bancada. Para a ala bolsonarista, os deputados deveriam adotar uma postura mais combativa ao governo Lula, especialmente em temas sensíveis à opinião pública.
Bilynskyj, um dos rostos mais ativos do grupo bolsonarista, ironizou os colegas que se abstiveram de assinar o requerimento de urgência para o projeto da anistia: “Eu entendo que existem questões individuais de cada deputado. Alguns podem não assinar por ter algum rabo preso no Supremo”, afirmou, em crítica velada a possíveis interesses pessoais na relação com o Judiciário.
O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), minimizou os atritos e garantiu que a decisão de liberar Antônio Carlos Rodrigues foi negociada com Valdemar. “Ele é amigo do ministro Alexandre de Moraes, do STF, conversou com Valdemar e foi liberado. É uma situação pacificada na legenda. Divergências ocorrem, mas Valdemar e Bolsonaro têm ótimo convívio, não há crise pessoal. Apenas discordâncias de uma bancada plural”, afirmou Sóstenes.
Apesar das garantias de estabilidade, parlamentares ouvidos sob condição de anonimato avaliam que muitos dos deputados eleitos pela força do bolsonarismo em 2022 têm uma espécie de “dívida de gratidão” com o ex-presidente. Para esses, é inconcebível não apoiar a proposta de anistia, independentemente das possíveis implicações jurídicas ou eleitorais. Procurado, Rodrigues reiterou sua oposição ao texto atual: “Sou contra a anistia geral e irrestrita. Este texto precisaria ser revisto”, declarou, sem detalhar quais mudanças defende.
O texto mais recente do projeto, elaborado pelo deputado Rodrigo Valadares (União-SE), prevê a anistia a réus e condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo aqueles que participaram de forma direta ou indireta dos eventos antidemocráticos. Na prática, isso abriria espaço para beneficiar inclusive lideranças políticas como o próprio Jair Bolsonaro, embora Sóstenes insista que esse não é o objetivo da proposta.
O PL, por ora, trabalha para manter Valadares como relator do projeto, mesmo diante da pressão de parlamentares e de setores da sociedade civil que enxergam na proposta uma tentativa de obstruir a responsabilização por atos golpistas. A tendência é que, apesar dos conflitos internos, a sigla continue como protagonista no debate, mas com divisões que podem se acirrar à medida que se aproximam as eleições de 2026.
Foto.: Beto Barata/ PL

