A necessidade urgente de reduzir as emissões de carbono para combater as mudanças climáticas impulsiona uma corrida mundial por minerais críticos essenciais à transição energética, um dos temas centrais da COP30, que será realizada em Belém. O Brasil enxerga nesse movimento uma oportunidade estratégica para atrair investimentos e fortalecer sua posição no setor mineral, já que o país abriga algumas das maiores reservas desses recursos no planeta.

Segundo o relatório Mineral Commodity Summaries 2025, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil avançou em 2024 uma posição nos rankings globais, ocupando agora a segunda colocação em terras raras e a sexta em lítio. Marcelo Carvalho, diretor executivo da mineradora australiana Meteoric Resources, destaca que quatro dos 17 elementos das terras raras são indispensáveis para a fabricação de ímãs utilizados em motores de veículos elétricos e turbinas eólicas — elementos-chave na transição energética.

“Um motor de carro elétrico carrega entre um e dois quilos de ímãs de terras raras. Já uma turbina eólica pode conter até duas toneladas desse material”, explica Carvalho. A Meteoric se prepara para iniciar atividades no Brasil, com um projeto de terras raras em Poços de Caldas (MG), que conta com reservas estimadas em 1,1 bilhão de toneladas de minério, garantindo vida útil superior a cem anos.

Outro mineral de destaque é o lítio, essencial para a produção de baterias de veículos elétricos. A Agência Internacional de Energia calcula que cada carro demanda cerca de 8,9 kg desse mineral. A Sigma Lithium, no Vale do Jequitinhonha (MG), lidera a produção nacional, com processamento anual de 270 mil toneladas de lítio verde, e já está construindo uma segunda unidade, projetada para dobrar a capacidade.

De acordo com o Ministério de Minas e Energia, mais de 50 projetos estão em andamento no país para identificar e explorar novas reservas de minerais estratégicos nos próximos anos. Silvia França, diretora do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), ressalta que “neste contexto em que a descarbonização é uma prioridade, a mineração assume o papel de mola propulsora da transição energética”.

O Brasil ainda lidera globalmente nas reservas e produção de nióbio, empregado na eletrificação, mobilidade e siderurgia, com 94,1% dos depósitos mundiais conhecidos. O país também ocupa posições relevantes na produção de grafita, níquel e manganês, minerais fundamentais para baterias e sistemas de armazenamento de energia.

A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), com sede em Araxá (MG), é a maior produtora mundial de nióbio, com capacidade para 150 mil toneladas anuais — superior à demanda global atual. Em 2024, em parceria com a Toshiba Corporation e a Volkswagen Caminhões e Ônibus, a empresa lançou o primeiro ônibus elétrico movido por bateria de lítio com adição de nióbio. “Este marco coloca o Brasil na vanguarda da inovação”, destaca Ricardo Lima, CEO da CBMM.

A Vale também contribui para a redução de emissões de carbono no setor siderúrgico ao fornecer minério de ferro de alta qualidade. Além disso, é a sexta maior produtora mundial de níquel e a 11ª em reservas de cobre, dois elementos estratégicos para a transição energética. Em 2024, a Vale produziu 160 mil toneladas de níquel e 348 mil toneladas de cobre. A meta da companhia é ampliar a produção anual de níquel para até 250 mil toneladas até 2030 e atingir 700 mil toneladas de cobre até 2035.

Boa parte dessa produção vem de Carajás (PA), que também concentra a principal operação de minério de ferro da empresa. A Vale prevê investir R$ 70 bilhões no programa Novo Carajás, de 2025 a 2030, para ampliar suas operações de minério de ferro e cobre. “O Novo Carajás pode colocar o Brasil na liderança mundial no fornecimento de minerais críticos, reforçando seu papel na luta contra as mudanças climáticas”, afirma Gustavo Pimenta, CEO da Vale.

A demanda por minerais críticos, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), deverá crescer seis vezes até 2034, impulsionada pela expansão das energias renováveis e pela eletrificação dos transportes.

Atenta a essa tendência, a Serra Verde Pesquisa e Mineração (SVPM), sediada em Minaçu (GO), estuda dobrar sua produção antes de 2030 sem comprometer a longevidade de sua mina. A operação começou em janeiro de 2024, sendo a única fora da Ásia a produzir, em escala industrial, os quatro elementos críticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A meta da empresa é manter uma produção anual de 5 mil toneladas de óxidos de terras raras por pelo menos 25 anos.

“Isso faz da Serra Verde um ativo estratégico para o Brasil e para o mercado global”, afirma Ricardo Grossi, presidente da SVPM e chefe de operações do Grupo Serra Verde.

Apesar das boas perspectivas, Raul Jungmann, presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), alerta para a necessidade de superar entraves regulatórios para que o país vá além da simples exportação de commodities. A Agência Nacional de Mineração (ANM) reconhece que o tempo médio entre a fase de pesquisa e o início da produção pode chegar a 20 anos, um gargalo importante.

Em 2024, a ANM autorizou 4.630 projetos de pesquisa e concedeu dez direitos de exploração específicos para minerais críticos. A agência também conduz projetos para simplificar e ampliar a segurança jurídica na outorga e gestão de títulos minerários.

Para estimular novos investimentos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em parceria com o Ministério de Minas e Energia e a Vale, lançou em 2024 o Fundo de Minerais Críticos, com aporte inicial de R$ 1 bilhão, voltado para apoiar empresas juniores e de médio porte. A expectativa é que os primeiros investimentos sejam realizados ainda no segundo semestre.

Em 2025, o BNDES, com o apoio da Finep e do Ministério, abriu uma chamada pública com orçamento de R$ 5 bilhões para projetos que promovam a transformação de minerais estratégicos. As propostas podem ser submetidas até 30 de abril, com a divulgação dos selecionados prevista para 12 de junho.

“Todas essas iniciativas integram a nova política industrial brasileira, que busca estimular a inovação e fortalecer a presença do país na cadeia global de minerais críticos“, afirma José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES.

No campo institucional, foi lançado em 2024 o Guia para o Investidor Estrangeiro em Minerais Críticos para a Transição Energética no Brasil. Além disso, tramita no Congresso o projeto de lei do deputado Zé Silva (Solidariedade-MG), que propõe a criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. O texto aguarda parecer do relator na Comissão de Desenvolvimento Econômico.

Foto: Divulgação


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