O enfrentamento da crise tarifária global e o financiamento de ações contra as mudanças climáticas serão prioridades para a presidência brasileira do Brics no encontro de chanceleres do bloco, marcado para os dias 28 e 29 de abril no Rio de Janeiro.

Atualmente, o Brics é composto por 11 membros: África do Sul, Brasil, China, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Índia, Irã, Rússia e Arábia Saudita, este último ainda finalizando o processo formal de adesão. Além dos membros plenos, outros países também participam como convidados nas discussões.

Neste sábado, 26 de abril, o embaixador Mauricio Carvalho Lyrio, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty e Sherpa brasileiro no Brics, antecipou alguns dos temas que dominarão a pauta do encontro.

Lyrio explicou que o Brasil busca reforçar o apoio do bloco ao sistema multilateral de comércio, defendendo negociações baseadas em concessões mútuas. “Ministros negociam a aprovação de uma declaração que reafirme a centralidade das negociações multilaterais e condene medidas unilaterais de qualquer origem”, afirmou.

Embora sem mencionar explicitamente os Estados Unidos, o embaixador fez referência às sanções tarifárias impostas pelo governo de Donald Trump, especialmente contra a China. Segundo Lyrio, a crise comercial provocada por tais medidas compromete o equilíbrio do comércio internacional.

Ele também alertou para o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), cuja capacidade de solucionar conflitos foi reduzida após a paralisação do Órgão de Apelação, em 2019, quando os EUA passaram a bloquear nomeações de juízes. “O sistema multilateral perdeu seu principal mecanismo de solução de controvérsias. É essencial que os países reforcem o apoio à OMC”, enfatizou.

Para mitigar esse cenário, o Brasil integra um grupo de nações que firmou compromisso com um sistema paralelo de apelação, junto a parceiros como Japão, Canadá e União Europeia.

No campo ambiental, outro foco da reunião será o financiamento climático. Com a proximidade da COP30, que ocorrerá em Belém em 2025, o Brasil pretende liderar a mobilização por maiores compromissos financeiros dos países desenvolvidos.

Uma das propostas é a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), que visa apoiar economias de baixo carbono e a preservação ambiental. O fundo deverá ser abastecido prioritariamente por países historicamente mais responsáveis pela emissão de poluentes.

Negociamos a aprovação de uma declaração do Brics sobre financiamento climático“, destacou Lyrio. Segundo ele, a proposta brasileira mantém a distinção estabelecida no Acordo de Paris, que obriga os países ricos a assumir compromissos financeiros mais robustos, enquanto os demais podem contribuir de forma voluntária.

“O Brasil defende a solidariedade aos países emergentes, com base na responsabilidade histórica das nações mais industrializadas”, completou.

Sob a liderança brasileira, o Brics já realizou quatro reuniões ministeriais e aproximadamente 80 encontros técnicos em 2025. A cúpula de líderes do bloco está marcada para os dias 6 e 7 de julho, também no Rio de Janeiro.

Durante os encontros dos dias 28 e 29 de abril, presididos pelo chanceler Mauro Vieira, os ministros das Relações Exteriores vão preparar os documentos finais e as decisões que serão oficializadas na cúpula de julho.

Entre os temas previstos estão o papel do Brics diante dos desafios globais e das crises regionais, o compromisso com a paz e a resolução pacífica de conflitos, a necessidade de reforma da governança internacional, o fortalecimento do multilateralismo pelo Sul Global, além de pautas sobre saúde, comércio, mudanças climáticas e combate à pobreza.

O ministro Mauro Vieira também terá uma intensa agenda de reuniões bilaterais, incluindo encontros com representantes da Indonésia, Rússia, Tailândia, China, Cuba, Nigéria e Etiópia.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil


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