Brasil e China divulgaram nesta terça-feira (13) duas declarações conjuntas durante a visita da comitiva brasileira a Pequim. Os documentos tratam de temas centrais da agenda internacional, como a guerra na Ucrânia, o conflito no Oriente Médio, mudanças climáticas, multilateralismo e a cooperação entre os dois países.

Uma das declarações apela por diálogo direto entre Rússia e Ucrânia, defendendo a via diplomática como única forma de pôr fim ao conflito iniciado em 2022. Segundo o texto, os dois governos acolhem a proposta feita recentemente pelo presidente russo, Vladimir Putin, que demonstrou disposição em negociar a paz, bem como a “manifestação positiva” do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, com o mesmo objetivo.

“O Brasil e a China esperam que, no menor prazo possível, inicie-se um diálogo direto entre as partes, única forma de pôr fim ao conflito”, destaca o documento, que enfatiza a necessidade de uma solução política duradoura, justa e vinculante, que ataque as raízes da crise.

A segunda declaração trata de uma agenda mais ampla, envolvendo paz e estabilidade global, combate às mudanças climáticas, reforma das instituições internacionais e intensificação da cooperação bilateral. Em relação ao Oriente Médio, Brasil e China expressaram apoio ao Plano de Recuperação, Reconstrução e Desenvolvimento de Gaza, aprovado em março de 2025 pela Liga dos Estados Árabes.

Ambos conclamam a comunidade internacional a implementar de forma eficaz o cessar-fogo em Gaza e aliviar a crise humanitária, defendendo a solução de dois Estados. Reiteram, nesse sentido, o apoio a um Estado palestino independente, com fronteiras baseadas em 1967 e Jerusalém Oriental como capital, vivendo em paz e segurança ao lado de Israel. Ao mesmo tempo, manifestam repúdio ao terrorismo e a todos os atos de violência.

As duas nações se comprometeram ainda a atuar conjuntamente em defesa do multilateralismo, da justiça e da equidade nas relações internacionais. Rejeitaram o unilateralismo, o protecionismo e as disputas hegemônicas, pedindo a construção de um sistema internacional mais justo e pacífico, com mecanismos eficazes de solução de controvérsias.

A reforma do Conselho de Segurança da ONU foi destacada como prioridade. A China reconheceu a importância do papel regional e internacional do Brasil e apoiou a aspiração brasileira de ocupar um assento permanente no órgão. Os dois países também defenderam a reforma da arquitetura financeira internacional, com maior participação e representatividade dos países em desenvolvimento nas instituições multilaterais.

Em outro ponto sensível, o Brasil reafirmou seu compromisso com o princípio de “uma só China”, reconhecendo Taiwan como parte do território chinês e apoiando os esforços de reunificação pacífica. A posição brasileira foi elogiada com “grande apreço” pelo governo chinês.

O documento conjunto também critica práticas protecionistas e guerras tarifárias — numa referência indireta às políticas adotadas pelos Estados Unidos nos últimos anos —, argumentando que tais ações não respondem aos desafios atuais e comprometem o comércio global.

Brasil e China destacaram a importância da cooperação Sul-Sul e defenderam políticas voltadas à redução da pobreza, fortalecimento da educação, saúde pública e desenvolvimento sustentável. Também reafirmaram parcerias em áreas estratégicas como saúde, finanças, infraestrutura, ciência, inteligência artificial, inovação tecnológica, energia renovável, transição ecológica e desenvolvimento portuário, rodoviário e ferroviário.

Outro ponto de destaque foi a defesa de uma governança global para o espaço cibernético. Ambos propõem um ciberespaço que seja seguro, aberto, estável, pacífico e interoperável, e destacaram a importância do combate à desinformação como forma de garantir uma internet mais confiável.

Por fim, as duas nações destacaram o interesse mútuo na ampliação da cooperação científica e tecnológica no setor agrícola, com foco em biotecnologia, inovação e desenvolvimento social. A parceria, segundo o documento, envolverá tanto instituições de pesquisa quanto empresas públicas e privadas.

Com essa série de declarações conjuntas, Brasil e China demonstram alinhamento em temas globais estratégicos e sinalizam ao mundo um compromisso reforçado com o diálogo, a sustentabilidade, o multilateralismo e a construção de uma nova ordem internacional mais inclusiva e cooperativa.

Foto: Ricardo Stuckert / PR


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