O ex-presidente Jair Bolsonaro prestará depoimento à Polícia Federal (PF) no próximo dia 5 de junho, às 15h, na superintendência da corporação em Brasília. A oitiva integra o inquérito aberto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar possíveis crimes cometidos por seu filho, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A defesa de Bolsonaro confirmou a data à imprensa.

A investigação, instaurada na última terça-feira (27) a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), examina indícios de coação no curso do processo, obstrução de investigações sobre organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O foco é a atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde teria pressionado integrantes do governo Donald Trump e parlamentares americanos para aplicar sanções contra autoridades brasileiras, como o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-geral Paulo Gonet e delegados da PF.

Designado relator do caso, Moraes determinou o depoimento de Jair Bolsonaro após o presidente do STF, Luís Roberto Barroso, distribuir o processo. Segundo Moraes, Bolsonaro é o “responsável financeiro” pela estadia do filho nos EUA, tendo admitido custear a permanência dele no exterior com doações recebidas via Pix. Para o ministro, o ex-presidente se beneficia diretamente da mobilização de Eduardo, que visa autoridades do Judiciário que atuam nas investigações sobre a tentativa de golpe de Estado, processo em que Bolsonaro é réu.

A abertura do inquérito gerou apreensão na família Bolsonaro. Segundo relatos de bastidores, o ex-presidente teme que Moraes possa determinar sua prisão preventiva, inclusive em flagrante, sob a justificativa de que os atos de Eduardo configuram crime em andamento. O bloqueio de bens também é apontado como medida possível, ainda que o inquérito esteja em estágio inicial.

A Primeira Turma do STF já recebeu denúncia contra Bolsonaro e sete aliados, todos acusados de tentar reverter o resultado da eleição presidencial de 2022. A articulação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos passou a ser interpretada como uma tentativa de pressionar autoridades brasileiras e deslegitimar o sistema de Justiça do país, o que, segundo Moraes, pode configurar nova ofensiva antidemocrática.

Em meio ao avanço das investigações, aliados de Eduardo, em condição de anonimato, avaliam a abertura do inquérito como uma oportunidade política. Na visão desses interlocutores, o processo pode ser usado para fortalecer a tese de perseguição contra o deputado e seu pai, narrativa que Eduardo vem propagando desde que se licenciou do mandato para permanecer nos Estados Unidos. O parlamentar alega que ele e Bolsonaro são alvos de ações políticas disfarçadas de processos judiciais.

Essa narrativa também visa consolidar apoio internacional, especialmente junto ao entorno do ex-presidente americano Donald Trump. Os bolsonaristas acreditam que o avanço do inquérito reforçará o argumento de que o STF brasileiro, especialmente o ministro Moraes, atua de maneira politicamente orientada. A expectativa é de que, com a repercussão, autoridades norte-americanas considerem adotar medidas concretas contra o Judiciário brasileiro.

 

 

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil