O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou o ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado de Emmanuel Macron, durante declaração conjunta em Paris. A fala ocorreu nesta quarta-feira (5), na véspera da visita de Estado oficial à França. “O Brasil nunca mais terá um presidente que se esconde na cadeira de barbeiro para não receber o presidente da França”, declarou Lula, aludindo ao episódio em que Bolsonaro teria evitado se encontrar com Macron durante seu mandato.

Durante o encontro, Lula também reiterou o desejo de concluir o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia nos próximos seis meses. Ele assumirá a presidência temporária do bloco sul-americano no próximo dia 6 e pretende usar o mandato semestral para finalizar o tratado. “Não deixarei a presidência do Mercosul sem concluir esse acordo com a União Europeia. Portanto, meu caro, abra o seu coração para a possibilidade de fazer esse acordo”, disse a Macron.

O presidente francês respondeu destacando os riscos do acordo para a agricultura europeia, embora tenha reafirmado o compromisso da França com o comércio justo. “França defende o comércio livre e justo. Esse acordo é bom para muitos setores, mas traz riscos para os nossos agricultores”, afirmou Macron. Ele ressaltou ainda que as divergências sobre normas de uso de agrotóxicos e compromissos ambientais precisam ser superadas: “Devemos melhorar para incluir cláusulas de garantias. Precisamos respeitar nossas ambições climáticas”.

Além do acordo comercial, Lula e Macron trataram de temas como o combate às mudanças climáticas e a crise internacional. A visita de Lula à França é a primeira de Estado de um presidente brasileiro desde 2012. A comitiva inclui sua esposa, Janja da Silva, e autoridades diplomáticas. O presidente foi recebido pelo ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, e participará de uma série de eventos formais, incluindo cerimônia no Palácio dos Inválidos e banquete no Palácio do Eliseu.

A viagem marca uma reaproximação diplomática entre Brasil e França. A parceria estratégica bilateral, firmada em 2006 por Lula e Jacques Chirac, havia esfriado durante os governos posteriores, especialmente no período Bolsonaro (2019–2023). O atual mandato de Lula busca retomar essa relação. Em março de 2024, Macron esteve no Brasil, visitou a Amazônia e o estaleiro onde são construídos os submarinos Scorpène.

Nesta retomada, Lula afirmou em suas redes sociais que discutirá com Macron acordos em áreas como meio ambiente, tecnologia, defesa, energia e saúde. O presidente também participará do Fórum Econômico França-Brasil e da Conferência dos Oceanos da ONU, em Nice, reforçando a agenda ambiental.

O acordo Mercosul-União Europeia, assinado em 2024, enfrenta forte resistência interna em países europeus. Assessores de Lula e diplomatas brasileiros apontam que os recentes atritos comerciais entre Estados Unidos e Europa podem abrir espaço para reduzir as objeções da França ao tratado. Contudo, reconhecem que Macron está sob intensa pressão de agricultores franceses, contrários à entrada de produtos sul-americanos com menor regulação sanitária e ambiental.

“O tema será tratado diretamente nos encontros entre os presidentes. Nesse novo contexto geopolítico, pretendemos explorar uma condição favorável ao avanço do acordo”, afirmou Flavio Goldman, diretor do Departamento de Europa do Itamaraty.

Outro eixo central da conversa entre os líderes foi o enfrentamento das mudanças climáticas. O presidente francês reiterou a necessidade de coerência ambiental entre os blocos econômicos, e Lula deve, por sua vez, expressar preocupações quanto à nova lei antidesmatamento da União Europeia, que entrará em vigor em dezembro. A norma proíbe a importação de produtos de áreas desmatadas, mesmo que legalmente, após 31 de dezembro de 2020. Itens como café, carne bovina, soja, cacau, couro, madeira, óleo de palma e borracha estão no foco da legislação.

Lula também planeja dialogar sobre a articulação internacional em torno da COP30, que será realizada em novembro de 2025 em Belém (PA). Com a retirada dos EUA do Acordo de Paris durante o governo Trump, a diplomacia brasileira avalia que será necessário fortalecer laços com a União Europeia e a China para garantir avanços climáticos significativos na conferência.

O consultor internacional Nelson Franco Jobim acredita que uma estratégia para vencer a resistência francesa seria o Brasil aderir a padrões fitossanitários e ambientais semelhantes aos da União Europeia. “Assim, os franceses não teriam mais desculpas”, disse.

Além do meio ambiente, temas como multilateralismo, regulação de redes sociais e parcerias tecnológicas estão na pauta. Está prevista a assinatura de 20 instrumentos de cooperação entre os dois países, abrangendo áreas como educação, saúde, segurança pública, inovação científica e defesa. Entre os principais projetos em discussão está a continuidade da construção conjunta de submarinos com tecnologia francesa.

Com sua presença em Paris, Lula pretende consolidar o reposicionamento do Brasil no cenário internacional, apostando na diplomacia ambiental e na retomada de acordos estratégicos como instrumentos de projeção global. A visita é considerada fundamental para selar um novo ciclo nas relações Brasil-França.

Foto: Ricardo Stuckert / PR

 

 


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