Apesar dos esforços da cúpula do PSDB para fortalecer a estrutura do partido com uma fusão ou incorporação ao Podemos, o cenário em São Paulo indica que a debandada de parlamentares deve continuar na janela partidária de abril de 2025. A tendência é que deputados estaduais e federais deixem a sigla já nas próximas semanas, aproveitando brechas na legislação eleitoral.

Atualmente, a Justiça Eleitoral entende que parlamentares que trocam de legenda fora das hipóteses legais podem perder o mandato por infidelidade partidária. No entanto, a fusão ou incorporação de partidos é considerada uma justificativa válida para a troca. Com isso, há um debate interno: alguns dirigentes do PSDB defendem que a sigla incorpore o Podemos, o que impediria a saída imediata de parlamentares; outros apostam que a fusão seria o caminho natural, permitindo movimentações partidárias.

Entre os nove deputados estaduais tucanos na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), pelo menos quatro já tratam a troca de legenda como praticamente certa. A deputada Carla Morando, esposa do ex-prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, já conversa com legendas como MDB, PL, União Brasil e Republicanos.

“Não sei ainda para onde vou, estou avaliando, mas no PSDB não fico. E acho que a maioria está na mesma situação”, afirmou.

Orlando Morando, ex-aliado próximo de João Doria, hoje secretário de Segurança Urbana da Prefeitura de São Paulo, deve concorrer a deputado federal. Carla Morando tentará a reeleição na Alesp.

Entre os tucanos mais antigos, Mauro Bragato já tem acerto encaminhado com o PSD de Gilberto Kassab. Bragato iniciou sua trajetória no movimento estudantil, foi eleito deputado pela primeira vez em 1978 e integrou o PSDB desde 1995, após uma passagem como prefeito de Presidente Prudente. Embora deva permanecer no PSDB até a janela partidária, Bragato mantém a intenção de concorrer ao 12º mandato.

Outro que já prepara a saída é o deputado estadual Carlão Pignatari, filiado ao PSDB desde 1992. Ex-presidente da Alesp nos governos Doria e Rodrigo Garcia, Pignatari afirmou: “Vou aguardar a formalização da fusão, prevista para outubro, para decidir. Mas, pelo cenário atual, é improvável que eu continue no partido”.

A deputada estadual Maria Lúcia Amaury, com base em Sorocaba, também expressa insatisfação com os rumos do partido. Critica decisões da direção nacional, como a candidatura de José Luiz Datena em São Paulo em 2022. “O PSDB fugiu completamente dos ideais pelos quais me filiei em 1992. Já não temos mais as lideranças que eu admirava. Permaneci no partido mesmo com a rejeição ao número 45, mas agora me sinto no direito de repensar”, disse ela. Maria Lúcia já foi sondada por PSD, MDB e PP.

Hoje, o PSDB paulista ainda conta com os deputados estaduais Barros Munhoz, Analice Fernandes, Bruna Furlan e Rogério Nogueira. Na Câmara dos Deputados, a bancada inclui Paulo Alexandre Barbosa e Vitor Lippi. Segundo lideranças do PSD, Barbosa deve deixar o PSDB. Munhoz disse que aguardará os próximos desdobramentos, enquanto Nogueira, líder da bancada estadual, afirmou que “são poucos os que devem sair em caso de fusão”.

“Quem sair deve fazer isso em 2026, quando o quadro político estiver mais claro. Neste momento, mesmo com a fusão, a maioria não tem interesse em deixar o partido, como é meu caso”, afirmou Nogueira.

Esse cálculo estratégico considera o cenário estadual, com a possibilidade de uma candidatura ao governo paulista liderada por Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o alinhamento político em nível federal. Muitos deputados preferem aguardar para avaliar com mais clareza a quem terão que apoiar nas próximas eleições.

A terceira cadeira tucana na Câmara dos Deputados de São Paulo foi ocupada por Carlos Sampaio, que se filiou ao PSD em 2023. Ele enfrenta processo de cassação por infidelidade partidária, movido pelo historiador Marco Antônio Villa, que teria direito à vaga pelo Cidadania. Os dois partidos disputaram as eleições em federação, mas Sampaio só obteve anuência do PSDB para trocar de legenda.

No interior paulista, após um esvaziamento que deixou apenas 21 prefeituras sob comando tucano em 2024, os principais redutos passaram a ser Santo André, com Gilvan Júnior, e Marília, com Vinícius Camarinha. Gilvan é aliado de Paulo Serra, presidente estadual da federação PSDB-Cidadania e pré-candidato ao governo estadual. Camarinha descarta mudanças partidárias: “Estou focado na gestão municipal e não penso em sair do partido”, afirmou.

Na capital paulista, o PSDB ficou sem representação na Câmara Municipal após a morte do ex-prefeito Bruno Covas e a debandada da bancada na janela partidária de 2024. Os oito vereadores tucanos que restavam deixaram a legenda após criticarem a falta de articulação da direção nacional, que apoiou a candidatura de Datena em detrimento de uma aliança com Ricardo Nunes. Datena teve o pior desempenho da história do PSDB na capital, com apenas 1,84% dos votos.

Neste ano, o partido também perdeu dois dos seus três governadores: Eduardo Leite (RS) e Raquel Lyra (PE), que migraram para o PSD. O terceiro governador tucano, Eduardo Riedel (MS), é alvo de assédio de outras siglas, como o Progressistas, que busca consolidar o apoio do grupo político da senadora Tereza Cristina no estado.

Há meses, a executiva nacional tucana busca novas alianças para tornar o partido mais competitivo em 2026, quando entrará em vigor uma cláusula de desempenho mais rígida para acesso ao fundo partidário e à propaganda gratuita em rádio e TV. Hoje, o PSDB integra uma federação com o Cidadania, mas a relação está desgastada. Diferentemente da federação, que tem prazo de duração, fusão e incorporação são mecanismos permanentes.

Atualmente, o Podemos — presidido pela deputada federal paulista Renata Abreu — é a principal alternativa em negociação. Na quinta-feira (5), durante convenção em Brasília, os membros do PSDB aprovaram o início do processo de fusão com o Podemos, deixando em aberto detalhes como nome, número de urna e identidade visual. O Podemos ainda precisa aprovar internamente a proposta, mas a tendência é de que não haja resistência.

Como o PSDB está federado com o Cidadania, alguns dirigentes avaliam que apenas uma incorporação formal do Podemos ao PSDB seria juridicamente viável sem a anuência do Cidadania. Ainda assim, a direção tucana aposta na fusão como solução preferencial.

A fusão precisará ser aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Caso concretizada, a nova legenda passará a ter um fundo partidário estimado em R\$ 90 milhões em 2025, a quinta maior quantia entre os partidos. Além disso, contaria com uma bancada de 28 deputados federais, a sétima maior da Câmara, e sete senadores, empatando com PP e União Brasil como a quinta maior bancada no Senado.

O presidente estadual da federação PSDB-Cidadania, Paulo Serra, afirmou que a proposta de fusão deverá ser apresentada à Justiça Eleitoral até o final de julho, com previsão de oficialização do novo partido em outubro.

Enquanto isso, muitos parlamentares tucanos em São Paulo já discutem nos bastidores qual será seu próximo passo. Para uma ala do partido, a fusão com o Podemos representa um alívio financeiro e uma tentativa de sobrevida para o PSDB, historicamente enfraquecido nos últimos anos. Para outros, é mais um sinal de esvaziamento e de perda de identidade partidária, o que reforça a busca por novas legendas.

Até lá, a janela partidária de abril de 2025 será o próximo momento decisivo, e é nela que muitos tucanos deverão bater asas em direção a novos destinos eleitorais.

Foto: Kiko Scartezini/Divulgação PSDB


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