Com Michelle Bolsonaro à frente do PL Mulher desde 2022, o movimento feminino do Partido Liberal se tornou uma plataforma estratégica para a inserção de esposas e familiares de políticos da legenda, que buscam visibilidade e projeção para disputar cargos nas eleições de 2026. Levantamento realizado pelo GLOBO identificou pelo menos dez dirigentes do PL Mulher que possuem relação de parentesco direto com políticos do partido. Mesmo sem experiência administrativa, essas mulheres estão sendo preparadas para ingressar nas disputas eleitorais.
Entre os exemplos está Dana Vidal Costa, esposa de Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. Ela comanda o PL Mulher em Mogi das Cruzes (SP), cidade considerada base política de seu marido. Além de atuar em um escritório de advocacia, Dana assegura que seu trabalho no partido não é remunerado. “Minha atuação é por identificação e propósito. Estou envolvida nesse projeto por convicção pessoal”, disse. Em contraste, Michelle Bolsonaro recebeu aproximadamente R\$ 30 mil do partido em janeiro por sua atuação na presidência do núcleo feminino.
Dana não esconde que o interesse pela política surgiu por influência do ambiente familiar. “Minha proximidade com a política começou por questões familiares e de convivência”, reconheceu. Ela afirma que seu envolvimento se aprofundou após assumir o comando local do PL Mulher. “Mas foi no PL Mulher que realmente mergulhei no trabalho. Desde que tomei posse, tenho atendido mulheres para entender as demandas da minha região e capacitá-las visando a participação nos próximos pleitos”, afirmou.
Michelle Bolsonaro, que é cogitada como possível candidata à Presidência da República em 2026, vem utilizando o espaço no PL Mulher para construir sua imagem política. Durante a campanha presidencial de 2022, ela já demonstrava habilidade para atuar em palanques e buscava reduzir a resistência do eleitorado feminino ao nome de Jair Bolsonaro. O protagonismo de Michelle abriu caminho para outras mulheres ligadas ao partido, que agora enxergam no PL Mulher uma oportunidade concreta de iniciarem suas trajetórias políticas.
Esse é o caso de Lays Jordy, presidente do PL Mulher em Niterói. Antes, ela acompanhava o marido, deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ), em eventos políticos. Agora, planeja disputar uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em 2026. “Através do diretório, acabamos fazendo ações que nos impulsionam como casal”, declarou.
O cientista político Antônio Lavareda aponta que a presença de mulheres na política ainda é limitada. Segundo ele, “a participação feminina no Congresso era de apenas 18% em 2024”. Para Lavareda, a estratégia adotada pelo PL Mulher é uma forma de atender a uma demanda eleitoral, mas sem romper com os padrões tradicionais. “Fica fácil para os políticos que têm liderança e contingente eleitoral transferir os apoios de que desfrutam. Assim como fazem com filhos, esse movimento é frequente”, explicou.
No Espírito Santo, o diretório estadual do PL Mulher está nas mãos de Karla Malta, filha do senador Magno Malta (PL-ES), que ocupa a presidência local. A vice-presidente é sua irmã, Maguinha Malta. Karla relata que recebeu o convite para ingressar no movimento diretamente de Michelle Bolsonaro. “Michelle me apresentou essa missão”, contou. Embora Karla diga que não tem interesse em disputar cargos eletivos, Maguinha já se prepara para concorrer ao Senado em 2026. “Acredito no protagonismo da mulher na política não como resultado de cotas ou vitimização, mas de mérito e coragem. Não me identifico com o feminismo de confronto, mas acho que a mulher pode estar onde quiser, inclusive no Senado”, afirmou Maguinha.
Laura Astrolabio, cofundadora do projeto A Tenda das Candidatas, alerta para a necessidade de observar com atenção essas novas lideranças. “Temos que avaliar seus projetos e como suas trajetórias dialogam com as reivindicações dos movimentos de mulheres”, afirmou. Para ela, é essencial entender se essas candidaturas buscam apenas herdar o capital político de seus familiares ou se, de fato, pretendem defender os interesses das mulheres. “É preciso saber se estão ali para herdar capital político de pai ou marido e, se eleitas, atenderão aos interesses deles”, concluiu.
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