A Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República tem acompanhado de perto as críticas que se intensificaram nas redes sociais contra o Congresso Nacional após a derrubada do decreto que previa o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A movimentação, embora oficialmente dissociada do governo, vem sendo vista com atenção e, em certa medida, comemorada por integrantes do Palácio do Planalto, segundo apurou o Estadão/Broadcast.

As críticas direcionadas ao Congresso e, especialmente, ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), passaram a ser interpretadas como um fator de pressão relevante sobre o Legislativo, em um momento em que o governo ainda sente os efeitos da derrota na votação relacionada ao IOF.

Embora monitore o crescimento das manifestações nas redes, o governo federal tem buscado se afastar das publicações mais incisivas contra Hugo Motta e os parlamentares. Entre os conteúdos que circulam, há vídeos produzidos com o uso de inteligência artificial, em que Motta é retratado de forma irônica como “Hugo Nem Se Importa”.

Os interlocutores do governo afirmam que tais publicações partem da militância petista e de setores ligados à esquerda, e não da comunicação oficial da Presidência da República. Embora reconheçam que essas manifestações demonstram apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, integrantes do governo preferem não se associar diretamente aos conteúdos que adotam um tom mais agressivo.

Desde a aprovação da urgência do projeto que derrubou o decreto do presidente Lula, perfis simpáticos ao governo começaram a reforçar o apoio ao chefe do Executivo nas redes sociais, e o volume de postagens favoráveis aumentou nos últimos dias.

Na manhã desta quarta-feira, 2 de julho, três dos quatro principais assuntos no X (antigo Twitter) estavam relacionados ao embate entre o governo federal e o Congresso. As expressões “Agora é a vez do povo”, “Congresso da mamata” e “Hugo Motta traidor” ganharam força e foram amplamente utilizadas pela militância petista para pressionar os parlamentares a respeito do tema.

Até a manhã da quarta-feira, “Congresso da mamata” aparecia em 154 mil publicações, enquanto “Hugo Motta traidor” somava 110 mil menções. O termo “Agora é a vez do povo” registrava 16,1 mil postagens. No início da tarde, os números de menções aos dois primeiros termos caíram para 148 mil e 96,9 mil, respectivamente, mas o terceiro cresceu para 54,3 mil. Mesmo com as variações, os três continuaram entre os assuntos mais comentados da rede até a publicação da reportagem.

O presidente Lula tem demonstrado insatisfação com a decisão do Congresso em relação ao IOF, mas mantém um discurso cuidadoso, sem ataques diretos aos envolvidos. Na manhã desta quarta-feira, em entrevista concedida à Rede Bahia, afiliada da TV Globo no estado, o presidente classificou como “absurda” a decisão de pautar o projeto que revogou o decreto sobre o IOF. Ele afirmou que houve uma quebra de compromisso por parte do Congresso Nacional.

“O erro nisso foi o descumprimento de um acordo que tinha sido feito num domingo à meia-noite na casa do presidente Hugo Motta. Estavam lá vários ministros e deputados, festejaram o acordo no domingo. Eu estava em Nice, no Congresso dos oceanos. Liguei para Gleisi (Hoffmann) e perguntei como foi a reunião. Ela estava maravilhada, nunca viu tanto abraço, carinho e concordância. Quando chega na terça, o presidente da Câmara tomou uma decisão que achei absurda”, relatou o presidente.

Apesar do desconforto, Lula tem enfatizado sua disposição para o diálogo e reforçado que não pretende romper a relação institucional com o Congresso. “Eu não rompo com o Congresso. Eu reconheço o papel que o Congresso tem”, declarou. O presidente informou que pretende se reunir com Hugo Motta e com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após retornar da Cúpula do Brics, que será realizada no fim de semana.

 

 

Foto: Pedro França/Agência Senado