O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu criar um comitê de articulação com empresários para discutir os impactos da tarifa de 50% anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A medida foi tomada durante reunião no Palácio da Alvorada na noite de domingo, com ministros da área econômica, política e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

O comitê será oficializado nesta segunda-feira e as reuniões com representantes do setor privado terão início já na terça. A intenção do presidente é envolver diretamente os setores produtivos mais atingidos pela decisão do governo de Donald Trump e construir uma resposta unificada. “O presidente quer conversar pessoalmente com os empresários afetados”, disse um auxiliar direto.

Segundo relatos de participantes da reunião, Lula reafirmou que a prioridade do governo é tentar reverter a taxação por meio do diálogo com autoridades americanas. “É fundamental manter uma abordagem técnica e construtiva para demonstrar que o histórico de boa relação comercial entre Brasil e Estados Unidos deve prevalecer”, pontuou um interlocutor do Planalto.

O comitê terá caráter consultivo e visa reunir setores estratégicos da sociedade civil em torno de uma resposta articulada à crise. “Lula quer demonstrar que o tarifaço não é um problema só do governo, mas uma questão de interesse nacional”, afirmou um assessor presidencial. O vice-presidente Geraldo Alckmin será o responsável por coordenar o diálogo com o setor empresarial.

A lista de nomes que irão compor o grupo ainda está sendo definida. A expectativa é que sejam incluídos representantes do agronegócio — com destaque para produtores de carne, café e suco de laranja — e de segmentos da indústria, como o setor de tecnologia e empresas exportadoras de alto valor agregado. A Embraer, que deve ser uma das companhias mais impactadas pela medida, também será convidada.

O Planalto pretende usar o comitê como instrumento para mapear os efeitos da tarifa sobre a economia brasileira e, ao mesmo tempo, levantar dados que permitam mostrar aos Estados Unidos os reflexos negativos também para o mercado americano. “A intenção é montar um diagnóstico técnico que ajude a sustentar os argumentos brasileiros nas tratativas diplomáticas”, explicou uma fonte do governo.

Estiveram presentes na reunião o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin; o ministro da Fazenda, Fernando Haddad; o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro; a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann; o ministro da Secretaria de Comunicação, Sidônio Palmeira; a secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha; e a secretária-executiva da Casa Civil, Miriam Belchior.

A presença de representantes de diversas áreas estratégicas do governo reforça a gravidade atribuída ao tema. Desde o anúncio da tarifa, o Planalto tem buscado agir com cautela, evitando escaladas políticas e priorizando a via diplomática.

“Lula defende uma reação firme, mas cuidadosa. O foco segue sendo a reversão da medida, com diálogo técnico e diplomático”, resumiu um interlocutor direto do presidente.

A aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Brasil a impor tarifas ou suspender benefícios comerciais a países que adotem medidas unilaterais, segue no radar, mas como último recurso. “A regulamentação deve ser publicada nesta terça-feira, mas só será acionada se o diálogo não avançar”, explicou um auxiliar.

Enquanto isso, o governo continua monitorando os efeitos econômicos do tarifaço e buscando apoio de aliados internacionais. “Há um movimento dentro da União Europeia para intensificar o diálogo com os países afetados”, comentou uma fonte do Itamaraty. O Planalto também avalia que empresas americanas com interesses no Brasil podem se somar à pressão contra a medida.

Lula, segundo interlocutores, reforçou a seus auxiliares que é essencial que o país se apresente de forma coesa e altiva. “O presidente quer mostrar que o Brasil está unido, disposto a negociar, mas preparado para agir caso necessário.”

Foto: Ricardo Stuckert/PR

 


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