O governo dos Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump, está elaborando uma nova justificativa legal para aplicar a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, anunciada recentemente pelo republicano. Segundo informações divulgadas pela agência Bloomberg, a medida seria necessária porque, diferentemente de outros países atingidos pelas tarifas anteriores, o Brasil mantém uma balança comercial superavitária para os americanos — ou seja, os Estados Unidos exportam mais para o Brasil do que importam.

Diante da notícia, o mercado reagiu com tensão. Por volta das 14h28 desta sexta-feira, o dólar disparou e atingiu a cotação de R$ 5,5638, registrando alta de 0,80%.

Fontes ligadas ao Gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos informaram que o plano para uma declaração de emergência foi apresentado a membros do Congresso nesta semana, como forma de viabilizar juridicamente a imposição das tarifas. Nem a Casa Branca nem o gabinete comercial se manifestaram até o momento.

“É mais um indício de que o governo Trump busca sustentar legalmente ameaças tarifárias cada vez mais amplas”, comentou uma fonte ouvida pela agência.

O movimento ocorre no contexto de crescente tensão entre os dois países. O anúncio da tarifa foi feito por Trump como gesto de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que enfrenta processo judicial no Brasil por tentativa de golpe de Estado. Trump tem pressionado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a interromper o que classificou como “caça às bruxas” contra Bolsonaro. Em carta oficial, o governo americano mencionou ainda preocupações com uma suposta censura a redes sociais norte-americanas.

Lula, por sua vez, rechaçou as pressões vindas de Washington. Em discurso nesta sexta-feira, o presidente afirmou que Trump foi “enganado” sobre a situação judicial de Bolsonaro. “Se o presidente Trump tivesse me ligado, certamente eu teria explicado a ele o que está acontecendo com o ex-presidente, porque tenho boa relação com todos”, afirmou. “Mas não, ele foi levado a acreditar numa mentira, de que Bolsonaro está sendo perseguido. Eu teria explicado ao presidente Trump que ele não está sendo perseguido, ele está sendo julgado.

O presidente reiterou que o Brasil está disposto a negociar, mas sempre com respeito à soberania nacional. “Não adianta querer interferir no nosso Judiciário. Isso não está em negociação”, afirmou um assessor do Palácio do Planalto.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, que lidera as conversas com o governo americano, também sinalizou que a posição brasileira é de abertura ao diálogo, mas sem concessões unilaterais. “O interesse do Brasil na negociação é proteger a indústria, a agricultura e a autonomia das instituições democráticas”, declarou após encontro com o secretário de Comércio da gestão Trump.

Paralelamente, o governo norte-americano abriu uma investigação formal contra o Brasil por supostas práticas comerciais desleais. Entre os pontos destacados no documento estão o impacto do sistema Pix nas big techs americanas, a concorrência no setor de etanol e até mesmo o comércio popular da Rua 25 de Março, em São Paulo.

As tarifas aplicadas anteriormente por Trump, sob o Ato de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, tinham como base os déficits comerciais dos Estados Unidos com os países-alvo. Com o Brasil, essa lógica não se sustenta, o que exige nova fundamentação legal para sustentar as sanções.

A ofensiva americana não passou despercebida no Congresso dos Estados Unidos. Um grupo de senadores democratas enviou uma carta à Casa Branca alertando para os riscos da medida. “Interferir no sistema jurídico de outra nação soberana cria um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca os cidadãos e as empresas americanas em risco de retaliação”, escreveram os senadores Jeanne Shaheen, de New Hampshire, e Tim Kaine, da Virgínia.

A escalada nas tensões comerciais e políticas entre Brasília e Washington ainda pode evoluir nas próximas semanas. As tarifas anunciadas por Trump estão previstas para entrar em vigor no dia 1º de agosto. Até lá, o governo brasileiro intensifica esforços diplomáticos para barrar a medida e preservar a estabilidade econômica.

Foto: Chip Somodevilla/Getty


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