Onze senadores do Partido Democrata enviaram uma carta ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quinta-feira (24), na qual o acusam de utilizar o peso da economia americana para interferir em assuntos internos do Brasil. A motivação da carta foi o anúncio do governo republicano de impor tarifas de 50% sobre todas as importações brasileiras, em um gesto visto como tentativa de pressionar o Judiciário brasileiro a suspender ações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Escrevemos para expressar preocupações significativas sobre o claro abuso de poder inerente à sua recente ameaça de lançar uma guerra comercial com o Brasil”, afirma o documento. Os parlamentares afirmam que, embora existam “questões comerciais legítimas” entre os dois países, a iniciativa da Casa Branca não visa resolver desequilíbrios, mas interferir em favor de um aliado pessoal de Trump. “Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses procedimentos em nome de um amigo é um grave abuso de poder, mina a influência dos Estados Unidos no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região”, prossegue a carta.
O texto, assinado por senadores como Jeanne Shaheen (New Hampshire) e Tim Kaine (Virgínia), ambos do Comitê de Relações Exteriores do Senado, critica duramente o uso da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 como base para a investigação anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA. “A ameaça tarifária do seu governo claramente não se dirige a isso [desequilíbrios comerciais]”, pontuam os democratas, que destacam que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil desde 2007 — em 2024, esse saldo foi de US$ 7,4 bilhões.
Além de Shaheen e Kaine, assinam o documento os senadores Adam Schiff (Califórnia), Dick Durbin (Illinois), Kirsten Gillibrand (Nova York), Peter Welch (Vermont), Catherine Cortez Masto (Nevada), Mark Warner (Virgínia), Jacky Rosen (Nevada), Michael Bennet (Colorado) e Raphael Warnock (Geórgia).
Os senadores também condenam as sanções de visto anunciadas pelo governo americano contra autoridades do Judiciário brasileiro que atuam no caso envolvendo Bolsonaro. “O anúncio do seu governo, em 18 de julho de 2025, de sanções de visto contra funcionários do Judiciário brasileiro que trabalham no caso do Sr. Bolsonaro indica – mais uma vez – a disposição do seu governo em priorizar sua agenda pessoal em detrimento dos interesses do povo americano”, afirmam.
De acordo com os parlamentares, as medidas unilaterais de Trump não apenas ameaçam as relações comerciais bilaterais, como também podem impactar negativamente os consumidores e as empresas dos Estados Unidos. “Suas ações aumentariam os custos para as famílias e empresas americanas. Os americanos importam mais de US$ 40 bilhões anualmente do Brasil, incluindo quase US$ 2 bilhões em café. O comércio entre EUA e Brasil sustenta quase 130 mil empregos nos Estados Unidos”, alertam.
A carta aponta ainda o risco de retaliação brasileira, agravando a disputa comercial. “O Brasil também prometeu retaliar, e vocês, preventivamente, prometeram retaliar na mesma moeda – o que significa que os exportadores americanos sofrerão e os impostos sobre as importações para os americanos subirão além do nível de 50% que vocês ameaçaram”, advertiram.
Outro ponto de preocupação dos senadores democratas é o impacto geopolítico da escalada. Eles argumentam que a postura de confronto adotada por Trump pode aproximar o Brasil da China, ampliando a influência de Pequim na América Latina. “Uma guerra comercial com o Brasil também contribuirá para aproximar o Brasil da República Popular da China (RPC), em um momento em que os EUA precisam combater agressivamente a influência chinesa na América Latina”, disseram.
Eles mencionam investimentos significativos de empresas estatais chinesas no Brasil, como projetos portuários e um memorando de entendimento assinado recentemente pelo China State Railway Group para estudar a viabilidade de uma ferrovia transcontinental. Segundo os democratas, ações que enfraquecem o Judiciário brasileiro podem ser exploradas por Pequim para fortalecer sua presença na região. “Preocupa-nos que suas ações para minar um sistema judicial independente apenas aumentem o ceticismo em relação à influência americana em toda a região e forneçam às autoridades chinesas e às empresas estatais maior credibilidade para sua agenda.”
O documento ressalta que essa tendência não é exclusiva do Brasil e se repete em outras partes da América Latina, onde a China atua por meio da Iniciativa Cinturão e Rota. Os senadores apontam que, ao agir com autoritarismo e interesses pessoais, o governo Trump enfraquece os princípios que deveriam nortear a política externa americana. “A mesma tendência também está ocorrendo no Leste e Sudeste Asiático”, acrescentam.
Na conclusão, os democratas pedem que o presidente reconsidere sua estratégia e pense nas consequências para a população americana. “Os objetivos primordiais dos EUA na América Latina devem ser o fortalecimento de relações econômicas mutuamente benéficas, a promoção de eleições democráticas livres e justas e o combate à influência da RPC”, destacam. “Instamos vocês a reconsiderarem suas ações e priorizarem os interesses econômicos dos americanos que desejam previsibilidade, e não mais uma guerra comercial”, conclui a carta.
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