Os interrogatórios conduzidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira (29) no âmbito da trama golpista provocaram reações mistas entre integrantes da cúpula das Forças Armadas que acompanham o processo nos bastidores. Um dos pontos que causaram maior indignação foi o depoimento do tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, integrante das Forças Especiais do Exército, conhecidas como “kids pretos”, que afirmou que o plano “Luneta” teria origem em atividades de inteligência da 6ª Divisão do Exército em Porto Alegre.
O plano, encontrado em um pen drive em posse do militar, previa medidas como a “neutralização da capacidade de ação” do ministro Alexandre de Moraes e a prisão de integrantes do Supremo considerados “geradores de instabilidade”. Ferreira Lima declarou que o conteúdo era apenas um “cenário hipotético” que surgiu em conversa com seu comandante e que teria sido posteriormente abandonado. “Ele não consultou ninguém. Atuou sozinho e quer arranjar uma justificativa”, afirmou um general de quatro estrelas. “Não foi feita nenhuma demanda e mesmo que tivessem pedido algo, nunca seria uma ilegalidade.”
Para os generais, a tentativa de Ferreira Lima e de outros militares das Forças Especiais é transferir para o Exército a responsabilidade por ações individuais. “A estratégia dos *kids pretos* é empurrar para a instituição o peso de suas escolhas pessoais”, avaliou outro oficial.
A indignação com o conteúdo dos depoimentos foi, no entanto, acompanhada de alívio com a decisão do ministro Alexandre de Moraes de proibir os réus de prestarem depoimento usando farda. Ferreira Lima e o também tenente-coronel Rafael Martins compareceram uniformizados, mas foram obrigados a trocar de roupa antes dos interrogatórios. A ordem foi dada por um juiz auxiliar do STF, que justificou que as acusações “são voltadas contra militares, e não contra o Exército Brasileiro como um todo”.
“Essa decisão foi importante para preservar a imagem da caserna e impedir que a farda fosse usada como símbolo político por investigados”, avaliou um general. O veto à farda agradou inclusive a militares ligados ao bolsonarismo, que costumam criticar as decisões de Moraes. “Foi uma medida que impediu uma tentativa clara de envolvimento institucional”, comentou outro oficial da ativa.
O uso de trajes militares em depoimentos já havia gerado polêmica em 2023, durante a CPI mista do 8 de Janeiro. Na ocasião, o tenente-coronel Mauro Cid compareceu fardado à comissão, o que foi criticado pelo presidente da CPI, deputado Arthur Maia (União Brasil-BA). “Eu sou um entusiasta e uma pessoa que tem muita admiração pelo Exército, tenho falado isso repetidamente durante a CPMI. E acho que era melhor ter separado as coisas”, afirmou Maia à época.
Naquele momento, o Comando do Exército alegou que orientou Cid a usar farda porque ele ainda estava na ativa e havia sido convocado para falar sobre funções desempenhadas como militar. Após firmar acordo de colaboração com a Polícia Federal, homologado pelo STF em setembro de 2023, Mauro Cid passou a comparecer aos depoimentos de forma civil, seguindo orientação de seus advogados. Segundo a defesa, a mudança de postura foi uma forma de demonstrar respeito à instituição militar e afastar qualquer associação entre suas ações e o Exército.
Foto: Gustavo Moreno/STF

