O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira, em São Paulo, que as negociações entre Brasil e Estados Unidos sobre as tarifas de 50% impostas aos produtos brasileiros estão paralisadas porque Washington tenta impor ao país uma solução que ele classificou como “inconstitucionalmente impossível”. A declaração foi feita durante um painel do fórum Futuro Sustentável, promovido pelo “Financial Times” em parceria com a “Times Brasil CNBC”.

Haddad também comentou a reunião virtual que estava prevista para a semana passada com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent. Segundo ele, já havia a expectativa de cancelamento após a divulgação do encontro, diante de pressões da extrema-direita.

“Há uma má vontade partindo dos Estados Unidos. Quando recebi o e-mail do Bessent, marcando a nossa reunião, eu sabia que, ao divulgar essa notícia, corríamos o risco de fazer com que a extrema-direita brasileira se mobilizasse nos Estados Unidos. Nós entendíamos que isso poderia acontecer, mas ficaria claro que a responsabilidade pela reunião não ocorrer não seria do Brasil.”

Haddad reforçou que a dificuldade das tratativas está na tentativa de interferência em outro Poder. “Temos documentos oficiais demonstrando que a negociação não ocorre porque os Estados Unidos estão tentando impor ao Brasil uma solução inconstitucionalmente impossível, que é o Executivo se imiscuir em assuntos de outro Poder, o Judiciário.”

O ministro disse ainda que jamais cancelaria por iniciativa própria uma reunião com uma autoridade estrangeira, mesmo diante de divergências. “Nunca cometeria uma deselegância dessa com um homólogo de outro país. Por mais hostil que o outro país fosse, se eu marquei um compromisso, eu cumpro (…) Se eu não tenho por que conversar com o ministro de Finanças de outro país, eu simplesmente não marco. Se eu marquei, tenho uma razão para isso.”

Questionado se o Brasil teria condições de suportar tarifas por até três anos, Haddad afirmou não acreditar que elas se prolonguem por tanto tempo. Ele lembrou que o comércio atual com os Estados Unidos equivale à metade do registrado no início dos anos 2000 e disse enxergar tendência de queda ainda maior.

O ministro também abordou o pacote de medidas do governo federal para apoiar empresas impactadas pelas tarifas, classificando-o como conjunto de ações específicas e sem caráter permanente. “Esses são os mesmos especialistas que falaram que ia ficar permanente a ajuda do Rio Grande do Sul. Quando você tem um evento extraordinário, você tem que ter medidas extraordinárias.”

Por fim, Haddad voltou a criticar o atual patamar da taxa Selic, que considerou “ultra restritivo” e prejudicial ao crescimento econômico.

Foto: Diogo Zacarias/MF

 


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