O União Brasil e o Progressistas (PP) se preparam para oficializar a federação entre os dois partidos, em um movimento que promete redefinir o equilíbrio de forças no Congresso Nacional. Nesta terça-feira, dia 19, dirigentes das siglas se reúnem em Brasília para aprovar o estatuto da federação e ratificar a aliança que vem sendo articulada desde abril. Embora o encontro tenha caráter formal, a pauta central ultrapassa os limites burocráticos e deve incluir a possibilidade de desembarque conjunto do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Desde que foi anunciada, a União Progressista — nome escolhido para a federação — carrega um debate interno sobre a conveniência de manter-se dentro da base governista. Ainda em abril, o vice-presidente do União Brasil, Antônio Carlos Magalhães Neto, conhecido como ACM Neto, afirmou que a saída do governo deveria ocorrer imediatamente após a formalização da aliança. Essa posição foi endossada por lideranças que enxergam contradição em estar no Executivo enquanto o grupo se organiza para lançar candidatura própria à Presidência da República.
A pressão, contudo, esbarra em resistências. União Brasil e Progressistas controlam quatro ministérios e uma série de cargos estratégicos em estatais e no segundo escalão, como a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf). Para setores mais pragmáticos, a entrega de espaços sem cálculo político poderia enfraquecer a posição da nova federação em estados e municípios, especialmente no ano que antecede as eleições municipais de 2026.
Apesar da divergência, cresce a cobrança sobre os ministros ligados às legendas. De um lado, correligionários pressionam pela saída imediata; de outro, Lula exige defesa pública de sua gestão. O deputado José Nelto (União-GO) acredita que a reunião desta terça pode servir como ultimato. Na prática, a legenda comanda três pastas: Comunicação, Integração e Desenvolvimento Regional e Turismo. As duas primeiras são chefiadas por Waldez Góes e Frederico Siqueira, ambos indicados por Davi Alcolumbre (União-AP), mas sem filiação ao partido. Já o Ministério do Turismo é comandado pelo deputado Celso Sabino (União-PA), único filiado de fato.
Segundo Nelto, é incorreto associar Góes e Siqueira diretamente ao União. “Eles não podem ser considerados ministros do partido, são escolhas pessoais do Alcolumbre”, afirmou. Por isso, a pressão maior recai sobre Sabino, que é constantemente cobrado a entregar o cargo. Outros parlamentares sugerem que, caso os ministros permaneçam, deveriam adotar postura de independência.
O deputado Dr. Zacharias Calil (União-GO) vê a situação como contraditória. “É antiético e imoral manter cargos no governo federal quando o partido tem um candidato à Presidência”, disse, referindo-se ao governador Ronaldo Caiado (União-GO), pré-candidato ao Palácio do Planalto. Para ele, “isso é enganar a população. Chegar na eleição e dizer que é oposição depois de passar meses compondo o governo”.
No Progressistas, o dilema se concentra em torno do deputado André Fufuca (MA), ministro do Esporte. A maioria da bancada critica sua permanência no governo e argumenta que o partido jamais deveria ter aceitado participar da gestão petista. Segundo parlamentares, o governo nunca demonstrou real interesse em manter o PP na base, especialmente pelo histórico do presidente da sigla, senador Ciro Nogueira (PI), que foi ministro de Jair Bolsonaro (PL).
Ainda assim, a situação de Fufuca é mais delicada. O ministro tem ambição de disputar o Senado em 2026 pelo Maranhão, um estado de tradição eleitoral favorável à esquerda. Para seus aliados, deixar o ministério poderia enfraquecer sua projeção local. Um interlocutor de Nogueira afirmou que “dificilmente ele obrigaria Fufuca a sair”, enquanto pessoas próximas ao ministro garantem que ele não pretende abandonar a Esplanada. Como dirigente estadual, uma eventual saída do partido também é vista como medida extrema.
Outro tema espinhoso que deve surgir no encontro de terça é a formação de chapas estaduais em parceria com o PT. “Alguns parlamentares pedem liberdade para escolher”, relatou a deputada Fernanda Pessoa (União-CE), alertando que restrições muito rígidas podem estimular a debandada de quadros.
Apesar das críticas, União Brasil e Progressistas continuam ocupando espaço privilegiado no Congresso. O deputado Maurício Neves (PP-SP) reconhece o risco de perder integrantes, mas acredita que o peso da federação pode atrair novos nomes. “O fundo partidário e a maior bancada da Câmara serão fatores decisivos”, disse. A expectativa é que a União Progressista alcance até 140 deputados.
As convenções desta terça terão caráter simbólico e estratégico. Pela manhã, o União Brasil realiza seu encontro no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, enquanto o Progressistas se reúne no Senado. À tarde, será promovida a primeira convenção conjunta, marcando o nascimento oficial da federação.
Com a formalização, a nova sigla ainda dependerá da homologação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O registro passa por relatoria de um ministro e, depois, julgamento em plenário. Só após essa aprovação a União Progressista poderá disputar eleições como entidade única, ter acesso ao fundo partidário e figurar nos sistemas oficiais.
Somados, União Brasil e Progressistas reúnem 109 deputados federais e 15 senadores, configurando a maior bancada da Câmara e uma das maiores do Senado. Além disso, a federação terá sob sua bandeira seis governadores, quatro vice-governadores, 186 deputados estaduais, quatro distritais, 1,3 mil prefeitos, 1,2 mil vice-prefeitos e 12,4 mil vereadores. É, portanto, a maior força partidária organizada do país.
Mesmo assim, persiste a contradição entre ocupar cargos estratégicos no governo federal e adotar comportamento de oposição no Legislativo. No início de agosto, União e PP aderiram à obstrução comandada pela oposição em protesto à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, alinhando-se às bancadas bolsonaristas. Deputados favoráveis ao desembarque consideraram esse gesto “positivo” e enxergam nele um ensaio de independência.
Os futuros presidentes da federação, Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União), já sinalizaram que não apoiarão a reeleição de Lula em 2026. Nogueira defende que os ministros entreguem os cargos imediatamente, enquanto Rueda tem endurecido o discurso contra o Planalto. Em declarações recentes, acusou Lula de “provocar” e “instigar” o chamado tarifaço, ao defender maior integração comercial no âmbito dos Brics.
A tensão entre governo e federação chegou ao ponto de, na semana passada, Lula convocar ministros ligados ao União Brasil para uma reunião no Palácio do Planalto. O presidente reclamou abertamente das críticas feitas pela legenda, mas ouviu silêncio como resposta. Lula tem buscado ampliar pontes com setores de centro-direita, mas a União Progressista tende a se consolidar como um polo de oposição orgânica nos próximos meses, apesar de ainda abrigar quadros no Executivo.
O futuro da federação dependerá da capacidade de conciliar as ambições eleitorais locais com a estratégia nacional de oposição. Por ora, União Brasil e Progressistas seguem ocupando espaços na Esplanada e, ao mesmo tempo, ensaiando ataques cada vez mais duros ao governo.
Foto: Zeca Ferreira

