À frente do Conselho Científico que apoiará o Brasil durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, a pesquisadora Thelma Krug destaca que o evento precisa mobilizar um verdadeiro “mutirão” contra a emergência climática. Reconhecida como uma das maiores especialistas internacionais em clima e meio ambiente, a cientista acredita que a conferência terá condições de produzir resultados positivos apesar dos desafios que se apresentam.
Ligada ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Krug integrou cargos de liderança no Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) por mais de duas décadas, chegando a ocupar a vice-presidência. Ela enfatiza que, mesmo diante das más notícias frequentes sobre o aquecimento global, é fundamental transmitir esperança. “A gente tem que levar uma voz de esperança. Só vemos notícias ruins sobre a emergência climática. E isso tem provocado problemas de saúde mental, principalmente nos mais jovens. Sabemos das dificuldades, mas precisamos agir, fazer esse mutirão para buscarmos nossas metas na COP30”, afirmou.
O Conselho Científico sobre o Clima é formado por 11 especialistas, seis brasileiros e cinco estrangeiros, e assessorará diretamente o presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago. Nas últimas semanas, o grupo concentrou debates sobre técnicas de remoção de dióxido de carbono da atmosfera. Os cientistas consideram improvável que o mundo alcance emissões líquidas zero até 2050 sem medidas adicionais, e discutem reflorestamento em larga escala, bem como a possibilidade de armazenar CO2 em sítios geológicos marinhos.
Apesar da complexidade técnica, Krug afirma que sua maior preocupação é política: a preservação do multilateralismo. “É um processo muito complicado. Você tem mais de 190 países que precisam chegar a decisões por consenso. Países completamente diferentes, que sofrem com a mudança do clima de maneiras distintas. Para mim, se a gente puder falar de sucesso da COP30, vai ser a manutenção do multilateralismo. Principalmente com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Isso não pode contaminar a COP30”, avaliou.
A pesquisadora defende ainda que a agenda climática não se restrinja ao debate sobre financiamento por parte das nações mais ricas. “O financiamento é importante, mas a gente não pode parar nessa expectativa de que o dinheiro vai vir. Eu não tenho esperança disso. Algumas pessoas acham que a gente deveria focar muito no financiamento, quando na verdade não vai sair agora. A gente tem que buscar o mutirão para buscar um conjunto de ações”, disse.
Segundo ela, a COP30 deve priorizar setores essenciais como transição energética, agricultura sustentável e equidade social. “Na agenda de ação climática, a gente tem tantos objetivos chaves. E eu tenho a certeza de que a partir daí a gente vai conseguir avanços mais operacionais, mais de implementação e que não fiquem apenas na cobrança pelo financiamento”, completou.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

