A criação de um mercado de carbono para incentivar empresas a substituir fontes de energia “sujas”, baseadas em combustíveis fósseis, por fontes “limpas” ou renováveis não é suficiente para promover a transição energética na velocidade necessária para conter a catástrofe climática. O alerta é do professor do Instituto de Economia da Unicamp, Pedro Paulo Zahluth Bastos, em artigo publicado na “Phenomenal World”, revista de economia política editada em Nova York.

Segundo Bastos, a proposta de mercado de carbono, construída ao longo de 30 anos sob coordenação da Organização das Nações Unidas (ONU) e consolidada na COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão, “serviu mais para desviar a discussão do que realmente funcionar no combate à crise climática”. Para ele, a iniciativa não trouxe soluções significativas e acabou atrasando os investimentos em tecnologias verdes.

O economista afirma que, sem planejamento robusto do Estado, a transição energética não ocorrerá. “Os mercados de carbono têm estado no centro da diplomacia multilateralista sobre mudanças climáticas, mas a solução aprovada em Baku não resolverá esse problema”, lamenta.

O mercado de carbono estabelece cotas para emissão de gases do efeito estufa. Empresas que emitem menos do que o limite ganham créditos, que podem ser vendidos a outras que ultrapassaram a meta. Defensores do modelo acreditam que, ao encarecer o custo da emissão — por meio de taxação governamental ou associações voluntárias —, as empresas migrariam gradualmente para fontes renováveis, acelerando a descarbonização da economia.

No entanto, Bastos argumenta que o mecanismo, em vez de estimular a transição, atrasa os investimentos. Um dos principais problemas é a dificuldade de fixar um preço global para o carbono. “Isso cria um problema de coordenação, impossibilitando o estabelecimento de um preço internacional único para o carbono. A divergência internacional nos preços prejudica um sistema eficaz de redução das emissões globais”, avalia.

Mesmo nos casos em que houve aumento de preço, o valor não foi suficiente para atingir as metas definidas pelo Acordo de Paris. Para o economista, esse desequilíbrio global impede que a solução funcione de forma prática. “Os governos não devem confiar no poder mágico do sistema de preços para fornecer redes alternativas do nada”, alerta.

Bastos defende que primeiro o Estado precisa garantir a criação e a oferta de tecnologias verdes acessíveis. Somente depois disso, o aumento dos preços do carbono poderia induzir uma substituição rápida. Até lá, mesmo que os custos subam, empresas continuarão pagando por combustíveis fósseis, pois não encontram alternativas viáveis.

“Não existem tecnologias e infraestrutura substitutivas facilmente acessíveis, muito menos aquelas com custos comparáveis às alternativas fósseis”, destaca.

Outro obstáculo à transição está na baixa lucratividade das empresas de energia renovável. Enquanto a taxa de retorno anual desses projetos gira entre 6% e 8%, bancos privados buscam investimentos com retorno mínimo de 10%, normalmente alcançado por companhias de combustíveis fósseis. Além disso, as empresas de petróleo e gás atuam em mercados oligopolizados e protegidos pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que garante estabilidade e segurança nos investimentos.

Já no setor de energia limpa, a entrada de novos concorrentes é menos restrita. Como resultado, períodos curtos de expansão descoordenada são seguidos por longas fases de superprodução, queda de preços e baixas taxas de lucro. “Isso desestimula o financiamento privado e torna mais difícil consolidar uma indústria renovável sustentável”, explica Bastos.

O alto custo para armazenar energia renovável obriga empresas a aceitar preços desfavoráveis para escoar a produção rapidamente. Além disso, a geração exige grandes extensões de terra, o que leva produtores a buscarem áreas mais baratas e distantes das redes de transmissão, geralmente longe dos centros urbanos onde a demanda é maior.

Esses fatores dificultam a competitividade das fontes limpas frente aos combustíveis fósseis, que ainda dominam a matriz energética mundial. Entre a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1997, e 2024, o consumo global de combustíveis fósseis cresceu 58%. Nesse período, a participação deles na matriz energética caiu de 85,8% para apenas 81%, evidenciando avanços tímidos na descarbonização.

“Os ganhos em eficiência energética e no uso de tecnologias limpas reduziram apenas marginalmente a dependência mundial de combustíveis fósseis”, lamenta Bastos.

O economista também chama atenção para a concentração das emissões globais em poucas corporações. Até 2010, noventa empresas foram responsáveis por 63% das emissões mundiais. Entre 2016 e 2022, 80% das emissões vieram de apenas 57 dessas corporações, localizadas em países de clima temperado, menos afetados pelos impactos diretos do aquecimento global.

Bastos aponta ainda a influência política dessas empresas. Durante as eleições de 2024 nos Estados Unidos, o setor de combustíveis fósseis investiu US\$ 445 milhões para eleger Donald Trump e outros candidatos favoráveis à exploração de energia poluente. O governo Trump abandonou o Acordo de Paris e desmantelou políticas de incentivo à transição energética, além de promover subsídios aos combustíveis fósseis com o objetivo de reduzir custos de energia.

Como alternativa para mitigar o aquecimento global, Bastos cita a conservação e regeneração de florestas, que absorvem carbono da atmosfera. Porém, ele alerta para as limitações dessa estratégia.

O economista calcula que seria possível reflorestar, no máximo, 900 milhões de hectares em todo o mundo, considerando a degradação dos solos e a ocupação por cidades e infraestrutura. Essa área poderia absorver cerca de 205 bilhões de toneladas de carbono ao longo de décadas, quantidade equivalente a apenas cinco anos de emissões na taxa atual.

“A compensação florestal, sozinha, não resolve o problema”, reforça.

Bastos não descarta totalmente o mercado de carbono nem a compensação florestal. Para ele, essas ferramentas podem funcionar se já existir uma infraestrutura alternativa consolidada. O problema, segundo o economista, é a ilusão de que apenas mecanismos de mercado possam substituir o papel do planejamento estatal.

“O que deve ser descartado é a ideia, prevalente na grande mídia mundial, e até mesmo na ONU, de que cobrar pelo custo social do carbono e sua compensação pode substituir o planejamento público para a transição sociotecnológica”, conclui.

Assim, Bastos defende um modelo em que o Estado lidere a criação de redes de energia limpa, com investimentos estratégicos e coordenação internacional. Só depois dessa etapa, o mercado de carbono poderia cumprir um papel complementar, acelerando a mudança de forma eficaz. Sem essa intervenção, a dependência global de combustíveis fósseis tende a se manter, colocando em risco os esforços para conter a crise climática.

Foto: Antoninho Perri/SEC/Unicamp

 


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