A ministra do Planejamento, Simone Tebet (MDB), vem ganhando força como possível candidata ao Senado por São Paulo, em uma articulação apoiada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A movimentação, no entanto, envolve desafios políticos, como uma eventual mudança de partido por parte de Tebet e a definição do candidato da esquerda ao governo paulista. O cenário permanece indefinido, mas a disputa pelo Senado em São Paulo é considerada estratégica tanto para a esquerda quanto para a direita, principalmente por conta das atribuições da Casa, que tem a prerrogativa de deliberar sobre processos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Além de Tebet, nomes como o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), também aparecem entre os possíveis candidatos apoiados pela base governista. Entretanto, uma ala do PT defende que esses dois nomes sejam priorizados para a disputa do governo estadual, não para o Senado, dada a importância do cargo no contexto político paulista.

Embora afirme publicamente que não pretende discutir eleições neste ano, Tebet já aparece em pesquisas eleitorais. Há duas semanas, ela participou de um encontro com empresários em São Paulo, organizado pelo grupo Prerrogativas, que atua para viabilizar sua candidatura. Marco Aurélio Carvalho, líder do grupo e aliado do governo Lula, destacou que a postura da ministra causou boa impressão entre os presentes, que representavam empresas como Habibs, Via Varejo, Brooksfield, Renner e Petz.

Segundo Carvalho, “ela demonstrou uma desenvoltura extremamente corajosa ao defender o governo Lula diante de um coletivo que se mostra reticente às políticas do presidente. Reunimos inclusive empresários que normalmente não dialogam com o nosso grupo. Seria um luxo ter uma candidata como ela”, afirmou.

O deputado estadual Emídio de Souza (PT), também presente no encontro, ressaltou que o partido tem “uma preocupação específica com o Senado no ano que vem”. Para ele, será necessário apostar em quem tiver mais chances de vitória. “Para impedir que os bolsonaristas tenham maioria no Senado, precisamos flexibilizar algumas candidaturas nos estados, apoiando quem estiver em melhor posição e que seja claramente anti-bolsonarista. A Simone está bem posicionada, é uma ministra prestigiada, uma mulher de centro e demonstrou compromisso com o nosso projeto”, destacou.

De acordo com integrantes do PT, Lula tem se mostrado animado com a possibilidade de lançar Tebet, mas a definição da chapa paulista só deve acontecer em 2026 ou após a decisão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) sobre se disputará a Presidência ou tentará a reeleição. Um petista resumiu a situação dizendo que é preciso “avaliar como o adversário vai jogar”, ou seja, identificar quem será o candidato da direita ao governo estadual antes de definir a estratégia.

Na esquerda, além de Alckmin e Haddad, o ministro de Empreendedorismo, Márcio França (PSB), também surge como possível candidato ao governo paulista.

Em entrevista recente ao ICL Notícias, Tebet afirmou que pode disputar as eleições, mas destacou que, atualmente, seu domicílio eleitoral está no Mato Grosso do Sul. Ela revelou ter conversado com Lula sobre o assunto. “Posso ser candidata. Eu disse ao presidente que, se ele precisar de mim até 31 de dezembro de 2026, permanecerei como ministra durante os quatro anos. Mas ele me apresentou o argumento de que a eleição mais difícil e mais importante é a do Senado e que precisamos de pessoas democratas lá. Vamos aguardar as pesquisas, mas ele acha que seria interessante eu me candidatar”, disse.

Ela também comentou que o PT do Mato Grosso do Sul já se dispôs a apoiá-la caso ela decida se candidatar por seu estado de origem, mas não descartou uma eventual disputa por São Paulo. Questionada sobre uma candidatura pelo MDB no Mato Grosso do Sul, afirmou que “não teria problema em relação a isso”, sem, no entanto, detalhar os planos.

A candidatura de Tebet enfrenta resistência dentro do próprio MDB paulista. O partido, no estado, apoia o governador Tarcísio de Freitas e parte das lideranças defende a manutenção desse apoio caso ele se lance à Presidência. Assim, consideram inviável apoiar uma candidata do MDB ao Senado com o respaldo de Lula. Há ainda políticos de direita que avaliam migrar para o MDB, mas aguardam a definição da posição da sigla sobre se será aliada ou adversária de Lula em 2026 para tomar uma decisão.

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), sintetizou essa posição: “Aqui em São Paulo, ter o apoio do Lula é caminho para a derrota. Em São Paulo queremos desenvolvimento, responsabilidade fiscal, e assim caminharemos com o Tarcísio”. Ele defende que o MDB lance candidato próprio, sugerindo o nome de Baleia Rossi, presidente nacional da legenda, para o Senado.

Diante desse impasse, setores da esquerda já discutem a possibilidade de Tebet deixar o MDB e migrar para outra sigla, como o PSB. Sua filiação ao PT, no entanto, é considerada improvável. Petistas avaliam que Tebet não se sentiria confortável dentro do partido, já que possui um perfil mais liberal na economia e centrista na política.

Enquanto isso, a direita paulista articula lançar dois candidatos ao Senado: um apoiado por Jair Bolsonaro e outro por Tarcísio. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) era o nome natural para a disputa, mas sua permanência nos Estados Unidos embaralhou os planos. Caso ele não retorne, a direita verá uma vaga aberta na corrida para o Senado.

A segunda vaga deve ficar com o secretário estadual de Segurança Pública, Guilherme Derrite (PL), que tem o apoio do governador. Outros nomes cogitados são o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP), o ex-governador Rodrigo Garcia (sem partido) e o vice-prefeito da capital, Coronel Mello Araújo (PL).

Essa última possibilidade, no entanto, é vista como mais distante, já que tanto Mello quanto Derrite compartilham perfis semelhantes: ambos são ex-integrantes da Rota, tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, e concentram suas campanhas na pauta da segurança pública.

Outro desafio é a possível candidatura de Ricardo Nunes ao governo estadual, caso Tarcísio decida concorrer à Presidência. Essa movimentação poderia levar a uma situação inédita: a renúncia simultânea do prefeito e do vice, o que faria com que a prefeitura fosse assumida pelo presidente da Câmara Municipal, conforme prevê a legislação. Esse cenário de dupla vacância, contudo, é considerado improvável por membros da administração municipal, que acreditam em uma definição política capaz de evitar essa crise.

Assim, a corrida para o Senado em São Paulo segue aberta, com Tebet surgindo como uma peça-chave em meio às disputas internas da esquerda e da direita. Sua decisão, além de depender de negociações partidárias, também estará ligada à estratégia nacional de Lula para consolidar uma base no Senado e conter o avanço bolsonarista na Casa.

Foto: Diogo Zacarias/MPO


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