O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu endurecer o discurso contra o Centrão e suas cúpulas partidárias, ampliando o confronto político com PP e União Brasil. Em entrevista à TV Mirante, do Maranhão, na terça-feira, o petista afirmou que não irá “implorar” por apoio e que apenas quem quiser permanecer ao lado do governo o fará. Com índices de popularidade em recuperação, Lula aposta que a pressão pública e os resultados administrativos recentes serão suficientes para aprofundar divisões internas nas legendas, atraindo alas regionais dessas siglas para sua base até 2026.
A decisão ocorre em meio a um clima de tensão crescente. Tanto o União Brasil quanto o PP fixaram prazos para que os ministros Celso Sabino (Turismo) e André Fufuca (Esporte) deixassem o governo. Nenhum deles, porém, obedeceu às ordens partidárias. Lula, por sua vez, não dá sinais de que pretende substituí-los, mantendo ambos no primeiro escalão e reforçando a imagem de que não aceitará tutelas políticas.
Segundo interlocutores do Planalto, Lula já não vê possibilidade de uma aliança formal com o Centrão na disputa pela reeleição, mas acredita que poderá enfraquecer as direções nacionais desses partidos por meio do apoio de suas bases estaduais. A estratégia passa por consolidar alianças locais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde o governo tem maior aprovação.
O Planalto também avalia que as recentes vitórias políticas — como a aprovação da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o diálogo direto com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — reforçam a posição de Lula no tabuleiro político. Auxiliares do presidente destacam que a aproximação com Trump reduz o espaço de influência do bolsonarismo e ajuda a projetar a imagem de um governo que combina soberania nacional com pragmatismo internacional.
“Eu não vou implorar para nenhum partido estar comigo. Vai estar comigo quem quiser estar comigo. Não sou daqueles que tentam comprar deputado. A extrema direita não voltará a governar este país”, disse Lula na entrevista.
A recusa em ceder aos ultimatos foi acompanhada por manifestações públicas de fidelidade de Sabino e Fufuca, ambos interessados em usar a visibilidade dos ministérios para fortalecer suas campanhas ao Senado em 2026. A permanência deles tem o aval de Lula, que, embora evite interferir nas crises internas, enxerga nesses episódios uma oportunidade de enfraquecer a coesão do Centrão.
“Se as coisas estão dando certo, por que mexer? Por que essa pequenez de atrapalhar um bom ministro? Quando chegar a eleição, cada um vai para o canto que quiser”, declarou o presidente a aliados.
Atualmente, o governo conta com apoio parcial de alas do PP em estados como Maranhão, Ceará, Paraíba e Bahia. O União Brasil mantém parcerias regionais com o PT no Pará, Amapá e parte de Minas Gerais. O Republicanos, por sua vez, tem setores simpáticos ao governo em Pernambuco e Piauí. Essas alianças locais são vistas por Lula como sementes para futuros palanques estaduais, que poderão compensar a ausência de uma coalizão nacional formal.
Enquanto isso, líderes do Centrão tentam articular uma candidatura unificada da direita para enfrentar o presidente em 2026. O grupo trabalha para convencer o ex-presidente Jair Bolsonaro a apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como representante conservador. Lula, no entanto, mantém discurso confiante: “Se a gente brincar em serviço, pode dar oportunidade ao adversário. Mas é muito difícil alguém ganhar de nós em 2026. O governo vai terminar muito bem e o Brasil vive um momento excepcional.”
No União Brasil, as punições contra Sabino ainda estão em fase preliminar. A direção nacional pretende aprovar uma medida cautelar que suspende o diretório do partido no Pará, hoje comandado pelo ministro. A expulsão, contudo, depende de parecer do deputado Fábio Schiochet (União-SC), relator do caso. “Sou contra uma cautelar sumária, porque cerceia o direito de defesa. Caso eu não opte pela suspensão imediata, o processo segue para o Conselho de Ética, com prazo de cerca de 40 dias”, explicou o parlamentar.
Desde setembro, o União Brasil vinha ensaiando um desembarque completo do governo. Na ocasião, Sabino chegou a redigir uma carta de demissão e apresentá-la a Lula, mas recuou após receber garantias de apoio presidencial. A decisão irritou parte da bancada, que agora trabalha para retirar o controle partidário do ministro no estado.
No PP, o processo é semelhante, mas mais lento. O presidente da legenda, senador Ciro Nogueira (PI), havia estipulado prazo para que André Fufuca deixasse o Ministério do Esporte, mas o deputado maranhense ignora as determinações. Em discurso recente, Fufuca reafirmou sua lealdade a Lula, exaltando programas sociais e conquistas do governo: “Eu estou com o Lula do Bolsa Família, do Vale Gás, do Pé de Meia, do Prouni e do Mais Médicos. O Lula que tirou o filho do pobre da rua e colocou para estudar medicina.”
Embora a cúpula do PP ameace retirar o comando do diretório estadual do Maranhão das mãos de Fufuca, o partido descarta sua expulsão. O plano é limitar suas pretensões eleitorais e favorecer o deputado Pedro Lucas (MA), líder da bancada, como possível candidato ao Senado em 2026, especialmente se avançar a proposta de federação entre PP e União Brasil.
Nos bastidores, auxiliares de Lula avaliam que o telefonema com Trump, ocorrido na segunda-feira, fortaleceu o presidente perante a opinião pública e ampliou seu capital político no exterior. O gesto é visto como um golpe simbólico no discurso de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se apresentava como o único interlocutor brasileiro junto ao ex-presidente americano. Segundo ministros, Trump teria elogiado a condução econômica do governo e prometido cooperação em temas comerciais.
Para o Planalto, o diálogo internacional acrescenta dividendos políticos domésticos, permitindo que Lula reafirme o discurso de soberania nacional e liderança global. “Trump virou o maior cabo eleitoral de Lula”, avaliam interlocutores do governo. “Além de ter reforçado a imagem de um presidente que defende o país, o episódio mostra que ele consegue transformar um conflito diplomático em oportunidade de fortalecimento interno.”
Com a combinação de alta popularidade, recuperação econômica e vitórias políticas recentes, Lula acredita que tem condições de atravessar 2025 em vantagem, mesmo sem o apoio formal do Centrão. O cálculo do presidente é simples: se os líderes partidários se afastarem, as bases regionais continuarão próximas — e, nas urnas, o apoio local costuma pesar mais do que as decisões das cúpulas em Brasília.
A aposta, portanto, é clara. Ao esticar a corda com PP e União Brasil, Lula pretende transformar a crise política em instrumento de recomposição de sua base e pavimentar um caminho sólido até 2026.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

