O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que tem conversado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a necessidade de “dar uma atualizada” na relação entre o Executivo e o Legislativo. “Devo ter, nos próximos dias, uma conversa pessoal com o presidente”, disse. Motta reconheceu que as vaias recebidas durante evento no Rio de Janeiro foram “naturais”, mas discordou da declaração de Lula de que o atual Congresso é de “baixo nível”.
Segundo o parlamentar, “esse foi o Congresso que aprovou quase tudo o que o governo mandou, principalmente na pauta econômica”. Para ele, a fala do presidente foi “uma crítica direcionada à extrema direita, e não ao Congresso como instituição”.
A visita de Motta ao Rio ocorreu a convite de Lula, em razão da aprovação de medidas voltadas à educação. O presidente da Câmara afirmou encarar as críticas “com tranquilidade de quem tem procurado, nesse mar revolto, manter o barco navegando e atravessando a tempestade”.
Sobre as recentes exonerações de indicados do Centrão, Motta avaliou que se tratam de um movimento do governo para “repactuar a relação com os partidos aliados”. Para que o gesto tenha efeito, segundo ele, é preciso “trazer para perto do governo parlamentares que tenham condições reais de ajudar na governabilidade”.
O deputado também reclamou da demora na liberação das emendas parlamentares e disse que prefeitos de sua base política na Paraíba “não param de ligar”. “Se acontece comigo, que sou presidente, com certeza acontece com a maioria dos parlamentares”, afirmou. Ele atribuiu parte das tensões à antecipação do calendário eleitoral e alertou: “Tenho muita preocupação quando a gente mistura o que é essencial com o que é apenas política eleitoral”.
Ao comentar a derrubada da Medida Provisória que aumentava impostos sobre apostas e fintechs, Motta reconheceu que o resultado refletiu “a influência crescente da disputa de 2026 sobre o funcionamento do Congresso”.
Sobre a polêmica PEC da Blindagem, que foi aprovada pela Câmara mas arquivada pelo Senado após forte reação pública, o parlamentar manteve sua defesa da proposta. “Votamos algo que fortalece as prerrogativas parlamentares e retoma o texto constitucional. Não houve nenhum absurdo”, afirmou. Motta disse que há “mais de trinta deputados respondendo por crime de opinião”, embora não tenha citado nomes, e atribuiu esse cenário “ao clima de polarização do país”.
Questionado sobre a ausência prolongada do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos, Motta foi categórico: “É incompatível o exercício de mandato sem a presença no país. O mandato tem que ser exercido de forma física, presencial. A situação dele será tratada conforme o regimento”.
Em fevereiro, Motta havia afirmado que os atos de 8 de janeiro não configuravam uma tentativa de golpe. Agora, diz que o episódio foi “grave” e representou “um ataque às instituições”, mas defendeu distinção entre os níveis de envolvimento. “Há quem tenha realmente planejado e financiado, e esses merecem penas severas”, declarou.
O presidente da Câmara, no entanto, isentou Jair Bolsonaro, afirmando que “não tem como dar um golpe de Estado estando fora do país”. Ao ser questionado sobre as eleições de 2026 e a possibilidade de um embate entre Lula e o governador Tarcísio de Freitas, seu correligionário do Republicanos, Motta foi diplomático: “Como presidente da Câmara, não é salutar que eu me posicione agora”.
Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

