O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que uma eventual intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela provocaria uma catástrofe humanitária de grandes proporções e abriria um precedente perigoso para a ordem internacional. O alerta foi feito durante discurso na reunião do Mercosul, realizada neste sábado, quando Lula demonstrou preocupação com o risco de um conflito armado na América do Sul diante da escalada de tensões envolvendo o governo venezuelano.

Segundo o presidente brasileiro, a ameaça de derrubada do regime comandado por Nicolás Maduro pode desencadear uma nova guerra regional, com consequências imprevisíveis para todo o continente. “Passadas mais de quatro décadas desde a Guerra das Malvinas, o continente sul-americano volta a ser assombrado pela presença militar de uma potência extrarregional. Os limites do direito internacional estão sendo testados”, afirmou Lula em seu pronunciamento.

Na sequência, o presidente reforçou o alerta humanitário. “Uma intervenção armada na Venezuela seria uma catástrofe humanitária para o hemisfério e um precedente perigoso para o mundo”, disse. Para Lula, o cenário atual representa uma ameaça direta à estabilidade regional construída ao longo das últimas décadas.

Atualmente, forças militares dos Estados Unidos mantêm operações no Mar do Caribe, próximo à fronteira venezuelana, sob o argumento de combate ao narcotráfico. As ações incluem bloqueios à navegação de navios petroleiros venezuelanos, o que, na avaliação do governo brasileiro, pode provocar grave asfixia econômica. O petróleo é o principal pilar da economia da Venezuela, e qualquer interrupção prolongada nas exportações compromete de forma severa a capacidade financeira do país.

Desde setembro, segundo dados citados por Lula, cerca de vinte e cinco ataques a embarcações no Caribe teriam sido realizados por forças militares norte-americanas, resultando em pelo menos noventa e cinco mortes. O presidente brasileiro destacou que esse contexto amplia o risco de uma escalada militar difícil de ser contida.

Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou o tom das declarações. “[A Venezuela] está completamente cercada pela maior armada já reunida na história da América do Sul. Ela só vai crescer, e o choque para eles será algo nunca visto antes – até que devolvam aos Estados Unidos todo o petróleo, terras e outros bens que nos roubaram”, afirmou Trump, em discurso recente.

Para Lula, as declarações aumentam a tensão e levantam dúvidas sobre os reais interesses norte-americanos na região. “Era possível negociar sem guerra. Então, eu fico sempre preocupado com o que está por detrás. Porque não pode ser apenas a questão de derrubar o Maduro. Quais são os interesses outros que a gente tem e ainda não sabe?”, questionou o presidente brasileiro.

Em entrevista concedida no Palácio do Planalto, Lula relatou que manteve conversas telefônicas tanto com Maduro quanto com Trump, buscando uma saída diplomática. “Falei para o presidente Maduro que, se ele quisesse que o Brasil ajudasse com alguma coisa, ele tinha que dizer o que gostaria que a gente fizesse”, contou. Ao presidente americano, Lula afirmou ter dito: “Se você achar que o Brasil pode contribuir, nós teremos todo interesse de conversar com a Venezuela, conversar com vocês e com outros países para evitar um confronto armado aqui na América Latina”.

O presidente destacou ainda que o Brasil tem interesse direto na estabilidade regional por compartilhar extensa fronteira com a Venezuela. Lula informou que pretende voltar a conversar com Trump antes do Natal e orientou o chanceler Mauro Vieira a permanecer de prontidão nas próximas semanas, diante do risco de agravamento do cenário diplomático e militar.

Foto: Ricardo Stuckert/PR


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