Apesar de ter afirmado publicamente, em mais de uma ocasião, que não pretende disputar eleições em dois mil e vinte e seis, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, segue como o principal nome do Partido dos Trabalhadores para a disputa pelo governo de São Paulo. Dentro da legenda, Haddad é tratado como plano A para liderar o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no maior colégio eleitoral do país, mesmo diante das resistências já externadas pelo próprio ministro.
Dirigentes petistas avaliam que, embora Haddad demonstre contrariedade à ideia de voltar a concorrer ao Palácio dos Bandeirantes, o presidente Lula tem avançado gradualmente no processo de convencimento. A leitura predominante no partido é de que o chefe do Executivo não impõe decisões de forma direta, mas atua de maneira constante nos bastidores para mostrar a importância estratégica da candidatura em São Paulo. Procurado para comentar o tema, Haddad não se manifestou.
Em entrevista recente, o ministro da Educação, Camilo Santana, defendeu publicamente que Haddad entre na disputa estadual. Para Santana, a decisão ultrapassa a esfera pessoal e se insere em um projeto político mais amplo, liderado por Lula. No entorno do presidente, no entanto, há cautela. A avaliação é de que o cenário paulista é desafiador, especialmente diante da boa avaliação do governador Tarcísio de Freitas, que pode impulsionar o candidato da oposição ao Planalto em dois mil e vinte e seis.
“Haddad representa algo muito maior. Ele não pode se dar ao luxo de tomar uma decisão individual. Ele faz parte de um projeto de Brasil liderado hoje pelo presidente Lula. Muitas vezes precisamos cumprir missões que, pessoalmente, não queremos”, afirmou Camilo Santana.
Haddad, por sua vez, tem sinalizado preferência por atuar na coordenação da campanha presidencial à reeleição e na formulação do programa de governo. Aliados próximos a Lula dizem que o presidente respeita essa posição, mas acredita que o passar do tempo e a aproximação do calendário eleitoral tendem a pesar a favor de sua estratégia. Lula e Haddad mantêm conversas frequentes sobre o futuro político e o papel do ministro em dois mil e vinte e seis.
Defensores da candidatura lembram que, na eleição de dois mil e vinte e dois, quando Haddad disputou o governo paulista, sua presença na corrida foi fundamental para reduzir a diferença de votos entre Lula e Jair Bolsonaro no estado. O PT trabalha com o objetivo de manter, em São Paulo, um desempenho semelhante ao daquele pleito, quando Tarcísio venceu com cinquenta e cinco vírgula vinte e sete por cento dos votos, contra quarenta e quatro vírgula setenta e três por cento de Haddad.
Na disputa presidencial mais recente, Lula obteve cerca de quatro milhões e trezentos mil votos a mais em São Paulo do que em dois mil e dezoito, quando Haddad foi candidato à Presidência. Parte do entorno do presidente atribui a vitória apertada de Lula contra Bolsonaro, em âmbito nacional, justamente ao desempenho do petista no estado paulista.
O tom adotado por Camilo Santana foi bem recebido por setores do PT, mas contraria declarações recentes de Haddad. Em entrevista à jornalista Míriam Leitão, na GloboNews, o ministro reafirmou que não planeja concorrer em dois mil e vinte e seis, embora tenha reconhecido que pode ser chamado a reavaliar o cenário. “Não tenho nenhum problema em conversar com o PT nem com o presidente”, afirmou.
Enquanto isso, o Planalto tenta desenhar uma chapa robusta em São Paulo, ainda sem definições sobre quem ocuparia as vagas de governador, vice e as duas cadeiras ao Senado. O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também não demonstra interesse em concorrer, é citado como possibilidade, assim como as ministras Simone Tebet, do Planejamento, e Marina Silva, do Meio Ambiente.
No caso de Tebet, há conversas sobre um eventual convite do PSB para mudança de partido, já que, pelo MDB, uma candidatura alinhada a Lula em São Paulo é vista como improvável, diante da proximidade da sigla estadual com Tarcísio. Em meio ao cenário indefinido, dirigentes petistas reforçam o discurso de que Haddad é peça central do projeto nacional liderado por Lula e que a decisão final deverá levar em conta, acima de tudo, os interesses estratégicos do partido.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

